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Sáb, Ago

A luta pela delicadeza

Vida Universitária
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Em 1903, o Hospital Colônia de Barbacena abria as suas portas. O que do lado de fora, no início, parecia um casarão acolhedor, na verdade guardava o centro psiquiátrico lar para a fome, tortura, apatia, menos para os seus pacientes.

Entre a abertura e o fechamento do hospital, nos anos 80, estima-se que mais de 60 mil pessoas morreram pelos corredores do prédio encardido. Entre elas, não estavam apenas aqueles com transtornos mentais, mas uma mistura dos indivíduos de todos os grupos rejeitados pela sociedade da época. Mães solo, homossexuais, “esposas inconvenientes”, alcoólatras, prostitutas, crianças barulhentas, epiléticos e, até os mais tímidos, chegavam toda semana em Barbacena. Amontoados em vagões superlotados, rumo a uma viagem sem volta. Quando alcançavam o destino, seus nomes eram descartados, todos eram rebatizados pelos funcionários.

A história que beira ao fictício chegou às mãos de Camilla Quirino em 2017, época em que cursava o 7º período do curso de Jornalismo na Universidade Fumec. O seu pai a presenteou com os livros "Holocausto Brasileiro", escrito pela jornalista Daniela Arbex, e "Nos Porões da Loucura", do também jornalista Hiram Firmino. A narrativa foi tão impactante que se tornou o tema  de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

Assim como todos os projetos desse calibre, o de Camilla não foi fácil. "Li os livros, porém o meu conhecimento sobre o assunto ainda não era suficiente. Na semana do dia 18 de maio de 2017, o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, participei de um encontro na minha cidade, Mariana (MG). O evento reuniu vários representantes da área da saúde mental, inclusive a própria Daniela Arbex. Foi quando eu consegui fazer uma lista com o nome das pessoas que estavam lá e reconheci que elas poderiam ser as minhas fontes".

Por se tratar de um assunto delicado e por ter entre os entrevistados pessoas com transtornos mentais, a hoje jornalista decidiu tomar um enfoque diferente. "Quando conheci os usuários da Rede de Saúde Mental de Belo Horizonte, eu pensei em várias maneiras para que não fosse uma abordagem seca ou até mesmo agressiva. Minha primeira decisão foi não ir com perguntas formuladas, como geralmente fazemos antes de uma entrevista. Dessa forma, eu consegui me aproximar deles de uma maneira muito mais profunda. Eles criaram um vínculo de confiança comigo, a ponto de me contarem segredos e me tratarem como amiga", conta Camilla.

 

 
                                      

Ao longo do TCC, em forma de reportagem, foram citados inúmeros centros de saúde e pessoas que ali trabalham auxiliando os pacientes. “Conversei com profissionais da psicologia, terapia ocupacional e também com o escritor do livro “Nos porões da Loucura”, o jornalista Hiram Firmino. Além disso, entrei em contato com pessoas que representam movimentos muito interessantes em Belo Horizonte, em prol de uma saúde mental que preza pela liberdade de seus usuários. Dentre elas está a coordenadora da Incubadora de Empreendimentos Econômicos da Saúde Mental Suricato, juntamente com a equipe de trabalhadores do local. Também conversei com alguns dos responsáveis pela intervenção social realizada pelo Espaço Comum Luiz Estrela. Por último, foram procuradas as responsáveis pelo Lar Abrigado, onde moram sete usuários da rede de saúde mental em BH, que carregam consigo a marca do Hospital Psiquiátrico de Barbacena”.

A jornalista também falou sobre a dificuldade na construção do projeto por estar, ao mesmo tempo, cursando outras matérias da graduação. “A princípio, eu achei que não conseguiria. Como tinha que conciliar o TCC com o restante da minha grade, pensei que nunca seria capaz de entender o tema o suficiente para fazer um bom trabalho. Porém, fui surpreendida na medida em que fui o desenvolvendo. A cada dica da minha orientadora, eu via tópicos que podiam aperfeiçoar o meu trabalho. No final, eu mesma já estava sugerindo mudanças que exigiriam mais de mim, mas que eu sabia que com a orientação adequada seria capaz de fazer.”

 

O perigo da volta dos manicômios

Mais de 20 anos depois do fim dos manicômios no Brasil, em 2017, o então coordenador geral de Saúde Mental e Outras Drogas do Ministério da Saúde, Quirino Cordeiro Júnior propôs que o números de leitos para pacientes psiquiátricos em hospitais fosse aumentado, o que não foi bem visto pelos defensores da Reforma Psiquiátrica, que temiam a implantação de “pequenos hospícios”.                                                                                                                                                                                 

Em 2019, o mesmo setor governamental lançou uma nota em que consta a compra de aparelhos de eletrochoques para “tratamento” de pessoas com transtornos mentais. Camilla dá sua opinião sobre o assunto: “Fico apavorada de pensar que ainda hoje há pessoas que cogitam esses 'métodos de tratamento' desumanos. A ampliação de leitos em hospitais psiquiátricos incentiva a internação e não a inserção. É inacreditável que possamos dar esse passo para trás dessa maneira, depois de tudo que já foi conquistado com muita luta e dificuldade. É um retrocesso sem tamanho e que vai totalmente contra os princípios defendidos pela Reforma Psiquiátrica. Para mim está mais do que comprovado que a liberdade e a delicadeza são medidas mais eficazes que a agressividade e a exclusão quando se trata da recuperação dessas pessoas.”

 

A ampliação de leitos em hospitais psiquiátricos incentiva a internação e não a inserção. Para mim está mais do que comprovado que a liberdade e a delicadeza são medidas mais eficazes que a agressividade e a exclusão quando se trata da recuperação dessas pessoasCamilla: "A ampliação de leitos em hospitais psiquiátricos incentiva a internação e não a inserção. Para mim está mais do que comprovado que a liberdade e a delicadeza são medidas mais eficazes  do que a agressividade e a exclusão quando se trata da recuperação dessas pessoas" / Foto: Arquivo Pessoal

 

Um mergulho nos avanços da Reforma

Para responder as perguntas sobre o movimento que alcançou a humanização do tratamento de saúde mental, o programa Estúdio CBN, da rádio homônima, ouviu Rogério Giannini, presidente do Conselho Federal de Psicologia, Ana Paula Guljor, pesquisadora da Fiocruz e Claudia Ruggiero, coordenadora de saúde mental da Secretaria Municipal de São Paulo. Acesse: http://bit.ly/reformapsi.

Conheça os trabalhos finais de graduação do curso de jornalismo (TCCs). 

 

 









                                  
                                 
                          
                           

 

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