Professora defende mais debate e melhores condições de trabalho

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Mirtes de Siqueira Cabral fez curso de magistério durante o ensino médio, fez graduação em psicologia, fez curso de licenciatura e pós-graduação na área da educação na Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente ela é professora de português em escolas públicas de Belo Horizonte, contratada pela prefeitura de BH.

 

Mirtes Cabral:

 Mirtes Cabral:"Não há metas claras de aprendizagem para o primeiro, segundo e terceiro anos"(Foto: Arquivo Pessoal) 

 CONECTA: Qual a sua posição sobre as mudanças no ensino médio? 

Mirtes Cabral: Da forma como foi colocada, foi imposta pelo governo atual e está sendo muito criticada. O professor está muito fechado em sala de aula. O pessoal da coordenação é que está por dentro das mudanças.

 

CONECTA: Qual a sua avaliação sobre o curso de aperfeiçoamento, Plano Nacional de Alfabetização na Idade Certa, oferecido pelo MEC?

MC: Estou terminando os últimos módulos do PNAIC (Plano Nacional de Alfabetização na Idade Certa). Eu não vi uma consolidação do que foi feito no PNAIC. O MEC não garantiu. O trabalho não foi consolidado e foi um trabalho muito bom. Eles já até cortaram as verbas pro PNAIC. O governo federal não está apoiando mais. Tudo passa por política, infelizmente. Para ser aprovado e para garantir o dinheiro para se pagar os investimentos é preciso de política. No entanto, os políticos estão mais preocupados com os seus próprios objetivos pessoais, então é isso aí, eu não concordo com a mudança porque ela não teve debate. Foi uma decisão de uma cúpula lá do MEC. O Conselho Nacional de Educação, se ficou sabendo, se apoiou ou não, o projeto já estava todo desfigurado. Eu acho que deveria ter debates, conversas e representatividade do povo, e dos profissionais das escolas em todos os ângulos. Infelizmente isso não aconteceu.

 

CONECTA: A reforma proposta pelo governo estabelece metas de aprendizagem claras para cada ano do ensino básico. Como é esse cenário hoje na sala de aula?

MC: Eu vejo até que, do pouco que eu sei da prefeitura de BH e do interior, há a necessidade de ter uma progressão assim dos ciclos iniciais. Não há metas claras de aprendizagem para o primeiro, segundo e terceiro anos. A gente recebe muitas coisas externas, do governo e um currículo sem saber o que vai ser cobrado. Não é definido o que vai ser avaliado. Eu já vi há alguns anos, como professora, dando aula de acordo com as provas que foram feitas em anos anteriores, preparando o aluno só para fazer provas. Não estava preparando para desenvolver a cidadania. E sobre essas mudanças na BNCC, eu vejo a necessidade de debate com todas as escolas: municipais, estaduais, federais e as particulares. Com a busca coletiva objetiva de objetivos e metas claras, que atendam efetivamente as crianças, o nosso público. Passa também pelas condições de trabalho dos professores nas escolas públicas. A gente trabalha muito sobrecarregado, professora adoece demais e as cobranças são sempre em cima do professor.

 

“É preciso respeitar algumas diferenças sim, diferenças regionais, mas o bê-a-bá da coisa, a alfabetização em si pode ser feita de formas diferentes, para atingir um objetivo comum”

 

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CONECTA: O investimento em escolas públicas no ensino básico para crianças com idade de 6 aos 17 anos é de responsabilidade do governo estadual. Como você relaciona as mudanças na base curricular com essa responsabilidade do Estado?

MC: Eu penso que é preciso garantir direitos para todas as crianças terem acesso à educação com materialidade, com qualidade. Crianças do Brasil todo precisam ter acesso às escolas públicas. Eu atuo em escolas públicas e, no meu entender, essas escolas precisam ter recursos e, a meu ver, há muitas escolas públicas na capital e no interior que estão sem recursos financeiros. É importante uma base nacional curricular para atender os direitos das crianças ao ensino e aprendizado. É preciso respeitar algumas diferenças sim, diferenças regionais, mas o bê a bá da coisa, a alfabetização em si pode ser feita de formas diferentes, para atingir um objetivo comum.  

  

"Não concordo com essa posição do MEC 'golpista' que impuseram mudanças sem a aprovação do Conselho Nacional de Educação"

 

CONECTA: Como vê a aprovação das metas sem a participação do Conselho Nacional de Educação?

MC: Não concordo com essa posição do MEC “golpista” porque eles impuseram mudanças sem a aprovação do Conselho Nacional de Educação. Não teve debate nenhum. Os políticos simplesmente escreveram trechos, mudaram o que foi conveniente. E o que chegou mais perto da minha realidade foi a questão de retirarem das crianças da educação infantil o sistema de escrita alfabética. Não podia trabalhar meta, não se poderia nem colocar alfabeto nas salas de aula de educação infantil. Depois houve essa situação de todas as crianças alfabetizadas até o segundo ano do ensino fundamental. Efetivamente ainda não foi consolidado nada. 

 

 

 

 

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