Reforma atende demandas das minorias sociais, avalia especialista

Geral
Typography

Carolina Minardi de Carvalho atualmente é professora na PUC Minas, onde leciona disciplinas nos cursos de graduação: História, Letras e Direito. A professora é doutoranda da UFMG em História e Culturas Políticas. Possui mestrado em História Ibérica pela UNIFAL (2014 - 2016), onde desenvolveu pesquisas e elaboração de material didático para o ensino de História Medieval.

Carolina Minardi é bacharel é licenciada em História pela PUC Minas. Na entrevista,  a especialista fala sobre a importância do respeito à diversidade cultural e do ensino de história para o ensino médio, os desafios da reestruturação curricular para os professores, aqueles enfrentados em sala de aula, e ainda sobre pontos polêmicos da lei 13.415/ 2017, como a implantação de escolas com ensino em tempo integral e a contratação de profissionais com saber notório.  

 

Para a doutoranda em História, Carolina Minardi, discussão sobre gênero nas escolas é positiva: "um espaço histórico em que as minorias podem falar por elas mesmas" (Foto de arquivo pessoal)

 

CONECTA: Quais são os desafios ao professor diante da reestruturação curricular?

CAROLINA MINARDI:  O desafio está na dificuldade de atualização dos professores em relação não aos conteúdos, pois esses permanecem em muitos aspectos inalterados. O que é difícil é transformar professores antigos em agentes sociais capazes de aderir às novas propostas de abordagem desses conteúdos, uma vez que são propostas que se adequam às demandas da nossa sociedade atual. Trata-se de uma dificuldade na atualização das perspectivas sociais desses professores, sobretudo. Há servidores públicos que se acomodam porque acham que a estabilidade do emprego está garantida, mas, na verdade, há uma grande oferta de mão de obra no mercado. Até porque o Estado pode demitir esses funcionários, basta que processos administrativos sejam abertos. 

 

"Advogo em defesa de que os portugueses que nos colonizaram foram homens medievais e, portanto, ignorar esse período da História é um erro grave da proposição preliminar da BNCC"

 

CONECTA: Como seus estudos apontam a importância do estudo de história antiga e medieval durante o ensino básico?

 

CM: Defendo a permanência do ensino de História Antiga e Medieval no currículo da Escola Básica, pois acredito que esse conteúdo engloba muito tempo da História para ser simplesmente ignorados. A despeito de ser comum dizerem que nós, no Brasil, não tivemos Idade Média, por exemplo, eu advogo em defesa de que os portugueses que nos colonizaram foram homens medievais e, portanto, ignorar esse período da História é um erro grave da proposição preliminar da BNCC. 

 

CONECTA: A lei 13.415 estabelece um financiamento de R$ 2 mil por aluno para escolas públicas que implementarem o ensino integral a serem pagos em um prazo de 10 anos. Quais os desafios para se implantar o ensino integral em uma escola?

CM: Além da valorização do professor que atua em uma escola em tempo integrado, há custos com alimentação dos alunos e desafios estruturais, pois a escola em tempo integral deve oferecer atividades complementares e espaços onde o aluno desenvolverá suas atividades. O investimento de verba somente não solucionará os problemas enfrentados na implementação do ensino em tempo integral.  

 

 "Se a sociedade está num momento em que discussões a respeito de gênero, igualdade de gênero, possibilidades de minorias sociais conseguirem um espaço histórico em que elas possam falar por elas mesmas, se a sociedade demanda isso, é muito positivo que o currículo tente atender a essas questões"

 

CONECTA: Como avalia  as mudanças na grade curricular do ensino médio?

 

CM: Existem pontos positivos e pontos negativos. De uma forma geral, acho que os conteúdos vão ser superficiais e acho que esse não é um ponto positivo se o objetivo do governo for melhorar a qualidade da educação. Como pontos positivos, cito as novas abordagens que o currículo se propõe a fazer em relação às demandas que a sociedade tem, ou seja, se a sociedade está num momento em que discussões a respeito de gênero, igualdade de gênero, possibilidades de minorias sociais conseguirem um espaço histórico em que elas possam falar por elas mesmas, se a sociedade demanda isso, é muito positivo que o currículo tente atender a essas questões.

 

CONECTA: Como você avalia a questão de contratação de professores com saber notório?

CM: Acho isso um retrocesso pois o profissional com saber notório não possuí preparação adequada para estabelecer as pontes entre a escola básica e o conteúdo acadêmico universitário. Isso compromete a qualidade do ensino.

 

CONECTA: Na sua avaliação a Reforma contribui para a qualidade de ensino no país?

CM: Isso só poderá ser mensurado daqui a algum tempo. As políticas públicas em educação são pensadas a longo prazo.

 

"O profissional com saber notório não possuí preparação adequada para estabelecer as pontes entre a escola básica e o conteúdo acadêmico universitário. Isso compromete a qualidade do ensino"

 

CONECTA: Como a mudança afetará o trabalho dos professores e a relação com os alunos?

CM: Os professores precisarão se atualizar, não somente em relação aos conteúdos abordados pelo novo currículo, mas também nos quesitos relacionados às demandas sociais atuais. Será preciso que os mesmos entendam que as aulas, dadas no mesmo formato há tantas décadas, não são suficientes para atenderem àquilo o que é socialmente esperado da Educação hoje. Esses professores terão que entender que as discussões sobre diversidade social e cultural, sobre igualdade de gênero, liberdade religiosa e justiça social, por exemplo, ocupam um papel fundamental para a sociedade hoje e que, portanto, a Educação deverá atender à necessidade de que esses temas sejam trabalhados em sala de aula, pois o aluno hoje se entende como agente histórico e social de forma muito mais clara, e cabe aos professores reforçar essa consciência e saber, também, que lidar com alunos mais conscientes abre espaço pra discussões com maior grau polêmico. É preciso entender que o aluno de hoje não é mais um aluno submisso, que apenas absorve aquilo o que os professores se propõem a ensinar. Os alunos de hoje desafiam os professores, impõem que novas abordagens sejam trazidas pras discussões, acessam seus conteúdos pela Internet e constroem de forma mais autônoma seus próprios conhecimentos. Os professores precisam reformular a forma como pensam seus próprios papeis na Educação, e num mundo em que os mesmos competem pela atenção dos alunos com as novas tecnologias da Informação e Comunicação é preciso que eles aprendam a usar esses recursos a seu favor, para atraírem os alunos e estabelecerem com eles relações mais próximas.  

 

CONECTA: Quais os principais problemas enfrentados pelo professor hoje em sala de aula?

CM: Despertar o interesse dos alunos. Os alunos não se interessam pelos formatos obsoletos de aulas, os conteúdos muitas vezes são tratados de forma chata e os processos de avaliação costumam ser ineficazes e desestimulam esses alunos quanto ao processo de aprendizagem. Com a democratização de acesso à Internet cada vez maior, os professores se veem obrigados a se atualizarem para que os alunos compreendam sua relevância nos processos de ensino.

 

CONECTA: Qual a principal contribuição do ensino de história ao estudante do ensino médio?

CM: A História é, por excelência, a disciplina que elucida, para os alunos, a importância de cada um enquanto agente social. É através do estudo da História que as pessoas se tornam capazes de compreender como funcionam as sociedades ao longo do tempo, o que muda e o que permanece em cada uma, e como cada indivíduo contribui à sua maneira para a construção das identidades culturais, políticas e sociais, de modo geral. É a História que permite que os alunos se enxerguem enquanto indivíduos capazes de atuar no mundo.

 

 

  

 

Contratação por notório saber desqualifica carreira docente

 

Professora defende mais debate e melhores condições de trabalho

 

Lei 13.415: fique em dia com a Reforma do Ensino Médio

 

Oferta desigual compromete escolha da área de conhecimento por aluno

 

Lei 13.415/2017: a Reforma do Ensino Médio em pauta

 

Inscreva-se através do nosso serviço gratuito de subscrição de e-mail para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.