Oferta desigual compromete escolha da área de conhecimento por aluno

Vida Universitária
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Em entrevista ao Conecta sobre a Reforma do Ensino Médio, a professora Sílvia Regina Barbosa de Castro critica a flexibilização da grade curricular porque permite que as escolas ofereçam piores condições de ensino, adaptando-se à opção de menor custo.

Assim, a escolha da área de conhecimento pelo aluno estaria comprometida às condições desiguais de oferta do ensino.  Ela aponta os desafios enfrentados pelos professores, como a burocracia, e atribui o desinteresse pelas aulas ao ensino descontextualizado da realidade dos alunos.  Sílvia lecionou geografia na Rede Pitágoras em Belo Horizonte e em outros estados e é coautora da coleção de livros didáticos "Elos de Geografia" para o ensino fundamental. 


                                                                         
Sílvia de Castro:
Sílvia de Castro: "Posso imaginar um dono de escola que planeje o estabelecimento somente com aquelas disciplinas que não exigem laboratório" (Foto de arquivo pessoal)
 

 

CONECTA: A Base Nacional Comum Curricular fala sobre a adaptação que as escolas já deveriam estar implementando para se adequar a essa legislação. Sobre esse cenário o que você poderia comentar?

Silvia de Castro: Perguntei para um amigo meu que é coordenador de uma escola particular em BH e ele me disse que as escolas particulares estão todas em standby , esperando as eleições, porque pode mudar tudo a partir de 2019, dependendo de quem ganhar as eleições. Dependendo de quem ganhar pode mudar isso tudo, reverter, então nenhuma delas se preparou ainda para isso. Parece que é para ser colocado em prática a partir do ano que vem mas ninguém nem começou. Eles estão esperando as eleições para ver quem vai ganhar.

 

 "A lei não deixa claro que as escolas sejam obrigadas a oferecer as cinco áreas"

 

CONECTA: A Base Nacional Comum Curricular trata do protagonismo do aluno na escolha de áreas que ele vai cursar. Como você avalia esse aspecto?

SC: A base precisaria de uma discussão de mais três anos com toda a sociedade. Com pais, alunos, professores, com as pessoas de notório saber. Para mim, ficou muito claro. Precisava de fazer alguma reforma? Sim, precisava, mas era essa a reforma? Eu acho que não. Tem outra questão que você falou também que as escolas não são obrigadas, a lei não deixa claro que as escolas sejam obrigadas a oferecer as cinco áreas e eu acredito que ela deveria ter deixado. Será que eles enxergam a educação somente como uma forma de ganhar dinheiro? Eu posso imaginar um dono de escola que planeje o estabelecimento somente com aquelas disciplinas que não exigem laboratório. Caso isso ocorra, que escolha é essa que o aluno vai ter? Não tem escolha nesse caso.  

"O desinteresse vem quando a disciplina não tem contexto. Você não mostra para o aluno como é que se aplica aquilo, como aquilo interfere na sua vida"

 

 CONECTA: Qual é o maior desafio que você enfrenta hoje na sala de aula?

SC: É a burocracia. A quantidade de papeis que a gente tem que preencher. Aquele planejamento de aulas que a gente faz, às vezes não faz sentido. Se você perguntar para 99% dos professores, eles vão dizer que o planejamento é algo para entregar aos coordenadores. A gente não olha ele mais porque a gente já tem tudo pronto.

 

CONECTA: Uma das questões que a lei visa combater é o desinteresse do aluno. Como você analisa esse problema?

SC: Eu acho que o desinteresse do aluno vem quando a disciplina não tem contexto. Você não mostra para o aluno como é que se aplica aquilo, como aquilo interfere na sua vida. Vou falar para minha área que é a geografia. Um conflito no Oriente Médio tem um reflexo no preço do petróleo. A gente tem que deixar claro para o aluno como isso vai impactar na vida dele para que ele tenha interesse e busque mais informações depois. Eu acho que nem todos os professores estão preparados para isso porque nós também não fomos ensinados desse jeito. Nós fomos para a universidade, que não nos qualificou para isso e nós aprendemos isso na prática e a gente acaba replicando aquilo. 

 

 

 

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