Acessibilidade: desafios no dia a dia

Vida Universitária
Typography

Mesmo com as políticas públicas, as pessoas com deficiência ainda encontram muitas dificuldades em seu dia a dia

Arthur Araújo, Laura Nogueira e Letícia Gontijo - 5º período jornalismo

Não posso. Não tem acesso. Não me cabe. Tem escada. É difícil. Não tem rampa. A vaga está ocupada. Não tem ninguém para me levar.

À primeira vista, as frases parecem desconexas. Para a maioria das pessoas, são incomuns de serem ouvidas, e muito mais de serem proferidas. Mas não para eles. Não para quem convive diariamente com a deficiência. Os desafios são muitos. Todos os dias, é preciso travar uma batalha contra uma sociedade que não está preparada para a sua existência.

No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24% da população, cerca de 45 milhões de pessoas, têm algum tipo de deficiência. Mesmo em um número tão considerável, esses indivíduos ainda enfrentam, diariamente, grandes desafios para se locomover e conquistarem seu espaço, seja na escola, no mercado de trabalho ou em outros locais de convivência.

De acordo com a pesquisa “Condições de vida de pessoas com deficiência no Brasil”, feita pelo DataSenado em 2012, 77% das pessoas com deficiência acreditam que não tem seus direitos respeitados no Brasil. O estudo foi feito com base em dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o IBDD, com 10.273 pessoas em todo o território nacional.

A estudante de publicidade Paula Nogueira, de 21 anos, também acredita que seus direitos como pessoa com deficiência não são respeitados. "O direito de ir e vir, que é inerente a qualquer cidadão, é muito mais difícil para quem vive com algum tipo de deficiência. Não consigo, por exemplo, usar um caixa eletrônico ou apertar um botão no elevador, porque, na maioria dos casos, os botões são altos e eu não alcanço estando sentada na cadeira", conta. Paula nasceu com paralisia cerebral, e convive com as limitações de ser cadeirante todos os dias.

Como projeto da faculdade, Paula participou de uma campanha de conscientização sobre acessibilidade. O objetivo do projeto era mostrar que, em várias situações de seu dia-a-dia, ela se depara com os empecilhos de ser uma pessoa com deficiência de locomoção.

Sua mãe, Maria Nogueira, que nunca deixou de ir com a filha a todos os lugares, encontra mais dificuldades agora que Paula é adulta. "Quando ela era pequena, era bem mais simples. Eu conseguia driblar as dificuldades de acesso, mas agora que ela tem o tamanho de um adulto, é muito mais complicado. Algumas vezes, chega a ser impossível. Toda a família acaba ficando restrita devido à falta de acessibilidade em vários locais", conta a mãe. Ela ainda relata que não apenas os locais públicos e de lazer apresentam problemas. Nem mesmo as clínicas médicas, os bancos e as repartições públicas possuem acessibilidade. "Costumamos brincar que deficientes, na verdade, são os locais que não estão preparados para recebê-la", diz Maria.

Estacionar: um desafio diário

A fim de melhorar a acessibilidade, existem leis que asseguram um número mínimo de vagas para pessoas com mobilidade reduzida nas cidades. Em Belo Horizonte, existem 899 vagas para pessoas com deficiência nas vias públicas. Para utilizar tais vagas, é necessário apresentar uma credencial fornecida pelo órgão municipal de trânsito. Porém, o cenário com o qual a pessoa com deficiência se depara diariamente é outro. "Essas vagas estão frequentemente ocupadas por pessoas que não necessitam delas. O despreparo do poder público para lidar com essa situação é tão grande que o local onde está instalado o órgão que emite as credenciais não é acessível para um cadeirante", conta Maria Nogueira.

Maria, que enfrenta dificuldades para estacionar na vaga especial desde o nascimento de sua filha, criou um cartão destinado a pessoas que param nesses espaços sem a credencial. "Eu coloco o cartão nos parabrisas dos carros que vejo estacionados nas vagas sem a credencial como uma forma de conscientizar as pessoas. Quem pára nessas vagas precisa entender que tal atitude tira o direito de quem delas necessita", afirma.

A lei ainda exige demarcação de vagas especiais em locais como lojas, supermercados, shoppings e locais de eventos. No entanto, a falta de punição para quem estaciona nesses locais torna o comportamento ainda mais frequente. "Esses locais são obrigados a demarcarem vagas especiais, mas como não há nenhuma punição para quem as utiliza indevidamente em estacionamentos fechados, é muito comum elas estarem ocupadas por pessoas que não possuem mobilidade reduzida", diz. Por esse motivo, Maria criou esse cartão: "mesmo naquele 'minutinho', que muitos usam como justificativa, eles impediram alguém de parar ali".

O cartão contém os dizeres "se você não é ou não transporta pessoa com deficiência, agradeça a Deus por isso. E, da próxima vez, respeite o meu direito de estacionar aqui". No verso, a fim de incentivar a proliferação da iniciativa, Maria acrescentou: "caso contrário, abrace a ideia de defender nossos direitos".

As limitações não estão restritas a problemas de locomoção. O deficiente visual Oscar Capucho encontra grandes dificuldades para andar pelas ruas das cidades. Atualmente, os imóveis novos ou que passam por reforma são obrigados a instalar piso podotátil em suas calçadas. Porém, como a implantação é muito lenta, os cegos ainda passam pelo constrangimento de ter o seu percurso interrompido.

Capucho, que é bailarino e ator, entende a necessidade de usar sua arte para conscientizar e incentivar as pessoas a lutarem pelos direitos das pessoas com deficiência. Durante a abertura das Paralimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, o bailarino apresentou a coreografia Muito Além da Visão, juntamente com a dançarina Renata Mara, que também possui deficiência visual.

Edésio Ferreira da Costa

Quando questionado a respeito das limitações de ser uma pessoa com deficiência, Capucho ainda afirma que, para um cadeirante, a vida é bem mais difícil

 

 Não, o vídeo não está com defeito. É assim que Capucho vive. Sem enxergar o mundo à sua volta. Por mais que pessoas sem algum tipo de deficiência digam que entendem como é o cotidiano desses indivíduos, a surpresa diante de uma limitação é inevitável.

Enquanto cegos tem sua caminhada interrompida a cada calçada sem a adaptação, um cadeirante atravessa a rua sem saber se, do outro lado, encontrará uma rampa de acesso. Independentemente da deficiência, essas pessoas encontram dificuldades diárias dentro de uma cidade que não possui recursos físicos ou humanos para lidar com as diferenças.

 

Inscreva-se através do nosso serviço gratuito de subscrição de e-mail para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.