O jornalismo em questão

Vida Universitária
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O Conecta entrevistou o professor e jornalista, Alex Capella, sobre a realidade da profissão, com destaque para as relações entre jornalismo e política, as transformações da tecnologia e o mercado profissional.

Especializado em jornalismo político, Capella atua desde 1997 na área, com passagens por vários jornais, entre eles o Hoje em Dia, de Belo Horizonte, onde foi editor de política e colunista, e veículos nacionais como Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo e O Globo. Hoje, é assessor da Presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, em Brasília.

Conecta: De que formas o avanço tecnológico possibilitou uma reformulação na forma de fazer jornalismo?
Alex Capella: Com as novas tecnologias, vieram as novas plataformas. Essas novas plataformas multiplicaram os espaços voltados para o conteúdo jornalístico. Porém, há apenas uma ampliação das plataformas. Antes, só havia papel, rádio e TV. Agora, há as plataformas digitais com suas inúmeras possibilidades. Porém, o fazer jornalístico continua praticamente inalterado, já que há apenas uma adaptação às plataformas e suas especificidades. A produção de conteúdo, ou seja, o fazer jornalístico exige apuração responsável dos fatos, escolha correta das fontes, análise coerente e redação do texto com isenção. Conceitos básicos que independem do avanço tecnológico.

Conecta: Antigamente, o jornalismo era sustentado por verbas do estado. Hoje, vive por meio do apoio de empresas. Em sua opinião, isso aumentou a liberdade do jornalista? Como?
AC: As verbas do estado continuam tendo papel fundamental no negócio chamado de “jornalismo”. As empresas jornalísticas não conseguiriam sobreviver sem os recursos públicos.  Apenas os recursos privados não seriam capazes de manter as grandes empresas do setor. Diante disso, temos de levar em conta que o “jornalismo” é um negócio como outro qualquer, que precisa pagar seus custos e ter resultados. Evidentemente, o jornalismo exerce uma “função pública” e, para tal, precisa valorizar a liberdade de expressão e a isenção para se conectar à sociedade. E para que haja essa conexão, é preciso equilíbrio entre o poder da publicidade e a linha editorial. Então, a liberdade maior ou menor vai depender desse equilíbrio de forças entre o editorial e a publicidade. Sempre quando prevalece a força da publicidade, da proximidade com as empresas e com as figuras públicas, menor é a liberdade do jornalista em exercer sua função.

Conecta: Em 2016, o jornalista Maurício Campos Rosa, dono do jornal O Grito, foi assassinado, assim como na ditadura, por exercer a sua profissão. Por que, depois de tanto tempo, essa perseguição aos jornalistas persiste?
AC:
 O Brasil é o segundo país do mundo que mais matou jornalistas no ano passado. Ficou atrás apenas do México. Antes de tudo, isso demonstra o caráter violento do país, que passa despercebido aos olhos de muitas autoridades. Em segundo lugar, de certa forma, essas mortes mostram a fragilidade da nossa democracia. Ou seja, ao exercer uma atividade que necessita de liberdade de expressão o jornalista se coloca em risco no Brasil. Além disso, tem questões como a Legislação e o Judiciário que não enxergam na profissão algo que mereça um tratamento diferente em função do seu caráter social e dos riscos inerentes.

Conecta: O cenário político atual que inclui denúncias de corrupção, prisões e condenações têm interferido na relação do jornalista com o político?
AC: Certamente, assim como em outros setores, a corrupção afeta o jornalista e mina a qualidade da democracia. Jornais que deveriam zelar pela manutenção do processo democrático entram no jogo da corrupção ao protegerem políticos e empresários. Mas, de maneira geral, os jornalistas das grandes empresas vêm conseguindo manter o relacionamento profissional com os políticos. Até porque nem todos os políticos estão envolvidos em casos de corrupção.  E mesmo os envolvidos precisam da imprensa para apresentar suas versões dos fatos.

Conecta: Como é o trabalho do jornalista na escolha das notícias a serem publicadas? Quais são as suas prioridades?
AC: 
O critério é simples. A melhor notícia é aquela que tem maior interesse público.  Por isso, o jornalista tem de desenvolver a capacidade de avaliar aquilo quem tem mais interesse público, aquilo que mais afeta a vida das pessoas em todos os sentidos. Geralmente, aquilo que é de interesse “do público” tem menos valor como notícia.

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