JORNALISMO NA ATUALIDADE: TENDÊNCIAS E DESAFIOS

Vida Universitária
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O jornal nasceu como meio de expressão de uma nova sociedade alfabetizada e urbana que, ao sair do domínio absolutista das monarquias de herança medieval, encontrou no papel impresso o casamento perfeito para a divulgação de seus ideais de liberdade democrática. A população do mundo cresce e multiplica-se, as sociedades se desenvolvem, umas mais, outras menos. Períodos de liberdade e repressão se alternam. As tecnologias mudam radicalmente a forma dos humanos se comunicarem: do jornal impresso que viaja, no máximo, à velocidade de um avião, estende-se às mídias sociais que, via internet, ligam, instantaneamente, os rincões mais distantes do planeta. Mas, irmãs siamesas, a mídia, seja impressa ou digital, e a liberdade de expressão, que é a alma de democracia, permanecem ligadas, uma não vive sem a outra.

Construindo a sociedade

O homem é um ser social que quer saber de tudo o que se passa à sua volta. Sua interação com o mundo produz uma profusão de fatos a cada segundo. O fato vira notícia quando é transmitido de um indivíduo a outro, assim foi desde que o homem das cavernas aprendeu a se comunicar. O jornal impresso, depois de sua invenção, na segunda metade do século XVII, tomou a si a tarefa de transformar o acontecimento em notícia. O jornalista passa a ser o senhor que, com a sua acuidade e conhecimento, colhe, escreve e distribui a notícia em papel impresso. O jornal espelha a realidade. Com o tempo, a sociedade passa a ver-se através de uma realidade que é construída, dia a dia, notícia por notícia, pelos jornais. Sua função social mostra-se clara ao interpretar e exteriorizar os acontecimentos, de forma que possam ser compreendidos dentro do senso comum dos indivíduos.

O alcance do jornal torna-se cada vez menor diante do crescimento das sociedades. A velocidade da produção e do consumo de notícias aumenta de tal forma que se dissocia da jornada solar que orienta o ciclo do homem e da distribuição do jornal. No início do século XX, surge o comunicador que, através do som e da imagem, tem o poder de difundir a notícia a todo momento. Ainda no mesmo século, o desenvolvimento da tecnologia digital trouxe ao mundo a fantástica rede que, via internet, coloca o planeta inteiro em comunicação imediata, ao simples toque na tela em um aparelhinho que cabe na nossa mão. E o homem volta a poder produzir sua própria notícia. Porém, diferente do homem das cavernas que só se comunicava com alguém bem próximo, o homem hoje se comunica com o planeta inteiro. Nada mais democrático, pois o homem hoje tem, pelo menos no seu canal de comunicação pessoal, total liberdade de expressão, salvo em governos fechados, como a China.

A opinião de Roberto Fagundes, empresário e ex-presidente da ACMinas, jornalista opinativo do Estado de Minas (entre outros jornais e revistas), sobre a expressão atual da democracia brasileira é a seguinte: “Se considerarmos que um dos princípios básicos da democracia é a liberdade de expressão, a polarização atual que vivemos no país é a absoluta essência do regime democrático. Demonstra a todos que têm condição de entender e analisar o momento, com a polarização cada vez mais assoberbada, que vivemos em uma total democracia. Essa inclusive tem sido a opinião dos principais meios de comunicação, nacionais e internacionais. Agora, visto por um outro ângulo, aquele de um público com menor grau de instrução, essa polarização leva-o a interpretações que o conduz a atitudes agressivas contra as instituições e contra aqueles que as defendem, inflamados por profissionais que têm outros interesses, entre os quais o de verem seus ideais prevalecerem sobre a democracia, custe o que custar.”

Roberto Fagundes, empresário e ex-presidente da ACMinas. Foto: Arquivo/ Jornal O Tempo

Viabilizando um negócio

Produzir notícia para uma sociedade, seja uma cidade ou país, torna-se um grande negócio a partir da eclosão das democracias, no final do século XVIII, na Europa e na América. No início, de fato, os jornais eram porta-vozes do poder constituído e, pela lógica democrática, também da oposição. Daí vinha o seu sustento e, naturalmente, sua tendência política. Política e economia sempre andaram de braços dados e como a indústria da comunicação sempre foi de alto custo, as grandes corporações passaram a sustentar as empresas jornalísticas através da publicidade.

É certo que existiram, e ainda existem, editores com alma de jornalista independente, que querem divulgar suas próprias ideias. Porém, a independência da empresa jornalística para produzir matérias de qualidade, imparciais e isentas, sem subserviência à política e à economia, só é possível se a empresa tiver autossuficiência financeira. Como qualquer indústria, a imprensa poderia viver da comercialização de seus produtos, de forma que o valor obtido com a venda de assinaturas somada à quantidade de exemplares vendidos em bancas seja suficiente para pagar as despesas e ainda auferir lucro.

No entanto, o preço de venda de cada exemplar precisa ter um valor acessível ao comprador. E, como desde o início da existência dos jornais, seu valor foi subsidiado por governos e grandes empresas, o consumidor não paga o suficiente para manter a empresa jornalística em funcionamento. Para agravar a situação, a tendência atual, com a crise financeira, é das empresas e famílias fazerem cortes no orçamento. Jornais e revistas têm sido considerados artigos supérfluos, uma vez que a notícia está disponível, aparentemente sem custo, no rádio, na TV, na internet, seja no computador ou no celular. O desafio está posto: como sobreviver tendo liberdade de expressão? 

Em uma verdadeira democracia, o governo não deve subsidiar jornais, relação que pode criar laço de subserviência. A mídia deve servir ao povo, não ao poder estabelecido. Sem subsídios governamentais, a empresa jornalística precisa sobreviver à custa da publicidade de produtos dos grandes conglomerados financeiros, aqueles que podem arcar com o alto custo do espaço publicitário pago. E, certamente, tornam-se reféns de seus interesses, muitas vezes aliados a interesses políticos, pois as ligações das grandes empresas com a cúpula governamental existem e nunca vai deixar de existir. No entanto, estamos assistindo à lenta e inexorável migração da publicidade do meio impresso para o virtual, pois a publicidade vai onde está o público. Uma tendência irreversível que pode decretar o fim do jornal impresso.

Por outro lado, os jornais e revistas impressos perdem de longe para a divulgação imediata das notícias online, não existe possibilidade de furo jornalístico em qualquer meio de divulgação que demore mais do que uma fração de hora para estar disponível ao público. O desafio para as empresas jornalísticas então não é competir com o fluxo de notícias lançado por outras mídias, mas fornecer um produto de qualidade. Enquanto a internet e as mídias sociais, na urgência, fornecem a notícia de forma superficial e diversificada, mostrando de tudo um pouco, a mídia impressa pode assumir a especialização.

Pode ser uma regionalização, um segmento de produto, de tipo de vida ou profissional. Embora possa ocorrer, no primeiro momento, uma restrição do público geral, escolhendo esse caminho, o jornal poderá desenvolver assuntos que interessam a determinado nicho de mercado e, certamente, irá cativar um novo público fiel.  Editor do Jornal da Savassi, jornal mensal com 31 anos de circulação ininterrupta, que tem o encarte sobre veículos mais conceituado no estado, João Euclydes Prata Salgado diz que “toda especialização faz o diferencial” e cita os três pilares que têm sustentado o seu jornal impresso e ainda a versão online desde 1994: “Trabalho árduo que congrega profundo conhecimento do assunto, network 24 horas por dia e um grande esforço de vendas”.

Outras saídas são o jornalismo investigativo e o interpretativo. Tendo um período de tempo maior para produzir a notícia, o jornalista tem a oportunidade de apurar melhor os fatos, procurar pluralidade nas fontes para fornecer uma notícia imparcial, pode aprofundar a abordagem dos temas tratados e analisar os fatos, propondo novas análises, reflexões e possíveis soluções. Uma vez que a mídia digital trata a notícia de forma banal, o jornalista pode produzir um texto esclarecedor, relacionando causas e consequências, contextualizando os fatos. Uma questão interessante seria o jornalista relatar os acontecimentos com alma, usando uma linguagem mais refinada, que dê ao leitor o prazer de ler seu conteúdo, envolvendo-se com a notícia e dando o seu depoimento pessoal. Dessa forma, o leitor, identificando-se com o jornalista, teria outra percepção da notícia, compreendendo-a com mais profundidade. Um texto mais próximo da narrativa literária, como já foi outrora a maneira do jornal manter um público fiel aos folhetins, certamente cativaria uma boa parcela do público leitor. Assim, o jornalismo pode cumprir melhor o seu papel social de construir uma realidade mais justa e democrática, colaborando com a força da palavra escrita para termos uma sociedade menos imediatista, menos individualista e menos consumista.

A busca pela objetividade

Na concorrência entre as diversas mídias para produzir notícias dentro do tempo, pois esta é de interesse público e/ou ainda é do interesse do público, o processo de produção da informação luta permanentemente contra o tempo e a escassez de meios para transformar o acontecimento em notícia. A princípio, já temos três formas diferentes de colher a notícia. Primeiro: um determinado fato acontece e provoca uma corrida até ele - o que tem sido o princípio do jornalismo sensacionalista de primeira hora que, quase imediatamente, marca presença na mídia social via internet.

Esse tipo de notícia é superficial, usa recursos mais de imagem do que de texto - nessas situações o indivíduo comum tem praticado o instinto jornalista que tem dentro de si. Segundo: o jornalista colhe informação do mesmo fato, porém, ouve testemunhas, seleciona o que vai ser noticiado por suas características de noticiabilidade e elabora a notícia para uma apresentação de qualidade na mídia, na primeira oportunidade. Terceiro: o jornalista especializado ou investigativo vai à procura dos fatos, aprofunda o assunto e o elabora de forma acurada para apresentá-lo, em intervalos semanais ou mensais, a determinado nicho de mercado.

Enquanto o primeiro tem vida efêmera e carece de credibilidade, à medida que cresce o cuidado na produção da notícia, esta se torna mais interessante a seu público. O princípio fundamental que rege um jornalismo responsável é a escolha das fontes, em cujo testemunho o jornalista irá se basear para a correta apuração dos fatos. É indispensável que, além da fonte ser bem informada e ter propriedade do que transmite, tenha-se a garantia de sua credibilidade, representação e respeitabilidade. Como aí entra o problema de limitação de tempo e de recursos e, tendo o repórter necessidade de ser eficaz e objetivo, terminam todos por cair em um círculo vicioso de procurar sempre as mesmas fontes.

Cientes de sua importância no contexto de produção da notícia, tais fontes passam a alimentar o jornalista com as notícias pré-selecionadas por ele e de seu interesse próprio, ou da classe que representa. Esse procedimento causa uma homogeneização da notícia. À medida que o repórter se distancia do local do acontecimento, esse fenômeno é ainda mais visível, pois a empresa jornalística, pelos mesmos motivos de falta de tempo e recursos, compra a notícia pronta das grandes agências internacionais.

Paulo Leonardo Lobato, jornalista do Jornal O Tempo. Foto: Élcio Paraíso/ Bendita Conteúdo & Imagem

Paulo Leonardo Lobato, jornalista do Jornal O Tempo, questionado sobre o que leva as manchetes (principalmente) e as próprias notícias a ficarem tão parecidas, a ponto de termos a sensação de estarmos lendo um único jornal, respondeu ao Conecta: “Primeiro, a dependência atual, por grande parte dos jornalistas, em relação aos releases. Todos recebem os mesmos releases, disparados pelas assessorias de imprensa, e a maioria dos jornalistas adota a ‘linha’ indicada pelo release, sem questioná-la. Segundo, a falta de tempo mesmo. Deadlines apertados, a urgência do furo, a necessidade de se abastecer a internet também, rápida e constantemente - tudo nisso exerce influência na qualidade da apuração, reduz o tempo que poderia ser dedicado a um questionamento maior, a uma verificação melhor dos dados, à procura por outros pontos de vista e outras fontes”.

Em algumas situações, acordos entre os grupos de comunicação mais importantes também definem, de antemão, o teor de manchetes e reportagens sobre determinado tema, de forma que nenhum deles destoe dos demais. Com exceção desses acordos entre os grupos de comunicação, nos quais os jornalistas dificilmente têm como interferir, uma maneira de se evitar que as notícias saiam todas parecidas é avançar em relação aos releases, evitar adotar, de cara, a versão "oficial". “Deve-se, primeiramente, questionar fontes, releases, autoridades. Jornalista deve sempre, por natureza, duvidar da informação que chega até ele. Para tanto, manter-se bem informado acerca daquele tema ajuda bastante na hora de questionar uma informação”.

Segundo, avançar no impacto de momento e de futuro daquela notícia, já que, é bom lembrarmos, o jornal impresso já "nasce" velho, defasado, pois tudo já teria sido dito na internet, TV e rádio. “Dizer que o time A venceu o time B não é errado, mas quando sair no jornal, no dia seguinte, já estará velho. Tem que se pensar no que o resultado do jogo pode definir para aquele time, por exemplo. Terceiro, usar a criatividade e, como disse acima, estar bem informado sobre o assunto. Isso é essencial para perceber os outros ângulos de uma história e as outras possibilidades de diferenciais para sua matéria. Porque, ao fim e ao cabo, o que irá fazer sua matéria se destacar em relação às demais são os ângulos e os personagens diferentes, dos quais ninguém foi atrás”.

A marca pessoal

Se a evidente tendência da mídia é a uniformização da notícia, o desafio é sair da pasteurização. Seguindo a lucidez do teórico de comunicação Adelmo Genro Filho, sabemos que, a partir de um fluxo objetivo de realidade, os fatos, que existem independentes do sujeito, são recortados e construídos obedecendo a determinações, ao mesmo tempo, objetivas e subjetivas. A objetividade oferece uma miríade de aspectos, entre os quais o jornalista seleciona, dentro de sua percepção social e ideológica, o que vai transformar em notícia, ou seja, um processo subjetivo. Para tal, é necessário que o jornalista tenha um mapa de significados do qual possa se valer para selecionar, analisar, escrever e transmitir a notícia de modo que possa ser compreendida e percebida pelo público. Este é o desafio do bom jornalismo e o que manterá a mídia impressa desejável para uma importante parcela da população conhecida como formadores de opinião e sobre a qual pesa a responsabilidade da construção social de uma sociedade justa.

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