As redes sociais e a credibilidade no jornalismo

Vida Universitária
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Ao longo da história, o jornalismo se desenvolveu juntamente à evolução tecnológica de compartilhamento de informação, imprensa, telégrafos, rádio, televisão e internet. Quando falamos de jornalismo online, é necessário falar da internet e das transformações que ela provocou e ainda provoca no fazer jornalismo. Essas transformações se fazem de duas formas: nas rotinas jornalísticas de produção da informação e nas formas e formatos que a informação é difundida, ou seja, no produto jornalístico.

O jornalismo on-line não exterminou o jornalismo em outros tipos de mídia, mas modificou-o, obrigando-a a uma adaptação constante, num processo que Roger Fidler denomina “mediamorfose”. Houve então a possibilidade de se ter uma convergência dos media, a unificação em uma única plataforma. Com ela, texto, imagem, áudio e vídeo estão juntos.

Nessa mídia convergente, os jornais incorporam recursos antes exclusivos das rádios e televisões.  Muitos veem os jornais on-line e impresso como mídias complementares e continuam, muitas vezes, a comprar a versão impressa ainda que também consultem a versão on-line. Vários estudos têm mostrado que os jornais em papel ganharam novos leitores, conquistados pelo apelo da informação jornalística encontrada em seus sites na Internet.

Fake news

As formas tradicionais de fazer jornalismo passam, nos últimos anos, por uma crise, pois a produção da notícia e informação não está mais por conta apenas de profissionais na área. Sendo assim, deve-se ter o maior comprometimento por parte de jornalistas profissionais com a qualidade da informação e uma busca do público por fontes de informação seguras, não basta acreditar em qualquer coisa que é publicada na web. A incerteza quanto à origem e veracidade da informação na internet começa com a enorme popularização das redes sociais. Segundo a matéria publicada pelo site G1 em 2016, somente o Facebook alcança a marca diária de 1 bilhão de usuários. Quantas informações verdadeiras, mas também falsas podem ser compartilhadas por pessoas e empresas que possuem conta na rede?

A jornalista Tatiana Alves que, atualmente, trabalha com comunicação corporativa, e o professor do curso de Jornalismo da Universidade Fumec, Aurélio Silva, analisam a seguir a credibilidade do jornalismo no contexto das redes sociais.

Conecta - As redes sociais democratizaram o acesso e o compartilhamento da informação. Entretanto, nem todas as notícias podem ser verídicas. Como relacionar com a máxima do jornalismo que defende a verdade dos fatos?

Tatiana Alves - Com o fácil acesso à informação (seja verdadeira ou não) e o intenso fluxo que temos hoje, torna-se mais do que necessária a averiguação dos fatos antes de publicá-los. Para isso, checar o tema com mais de uma fonte, levar em consideração a credibilidade dessa fonte, questionar os fatos, não publicar impulsivamente uma notícia são algumas das diretrizes necessárias para que sejam divulgadas notícias verídicas.

Aurélio Silva - Veja bem, essa máxima da “verdade dos fatos” é para o jornalismo, diz do fazer do profissional. Não sei se podemos cobrar isso do internauta comum, se entendi a sua pergunta. Estamos vivendo a era da pós-verdade, ou seja, a ideia de que fatos objetivos influenciam muito menos a opinião pública do que a emoção e as crenças pessoais. Então, se uma mentira é dita, sentida e compartilhada como verdade muitas vezes, por muitas pessoas diferentes, muitos irão acreditar nela como “verdade”, entende? O que nos cabe como profissionais, a partir de agora, é mergulhar nesse universo de informações que é a web e mostrar para os demais internautas o que se aproxima ou não da verdade, ou seja, o que é fake news e o é que notícia (fatos verificados e comprovados) mesmo. Esse é nosso grande desafio hoje. Um novo paradigma para reinventarmos nossa profissão…

Conecta - Há espaço para um bom jornalismo nas redes sociais? Por quê?

Tatiana Alves - Sim. Porque, um bom jornalismo, de qualidade e com informações verídicas pode e deve ser praticado em qualquer meio de comunicação.

Aurélio Silva - Com certeza. De certa forma já respondi isso na questão anterior. Veja bem, temos o exemplo do jogo baleia azul. Enquanto todos compartilhavam fake news nas suas redes sociais, alguns jornalistas apuravam a história na sua origem para comprovar que era falsa, boatos, trollagens entre outras brincadeiras de mal gosto. Neste sentido, o bom jornalismo entra justamente aqui. Você pega a discussão como pauta e apura até chegar a algo realmente comprovado. Essa é a função do jornalista. Não simplesmente reproduzir informações que acessa na web.

 

Conecta - O modo de fazer jornalismo não é mais o mesmo com a internet, pois uma informação pode ser contestada na mesma hora em que é publicada e se pode encontrar muito mais versões de um mesmo fato, tudo isso numa grande velocidade, diferente de um jornal impresso ou a televisão. Como identificar a versão do fato mais condizente com realidade?

Tatiana Alves: Sempre checar com mais de uma fonte sobre a veracidade dos fatos, ouvir todos os lados da história, apurar dados que possam embasar a informação e questionar os fatos.

Aurélio Silva: Para o profissional, verificando com as fontes a veracidade das informações divulgadas. Para um internauta comum, buscando informações em vários sites diferentes para checar se estão falando a mesma coisa. Comparando. Essa é, a meu ver, a saída. Em ambos os casos, não dá para confiar em uma única fonte de informação.

Conecta - Como manter uma informação relevante para o internauta, para que o veículo tenha credibilidade com seu público?

Tatiana Alves: A credibilidade do veículo de comunicação tem relação direta com a verdade, com informações bem apuradas, completas e seguras que ele apresenta ao público. Por isso, para que seja mantida uma relação de confiança é necessário que prevaleça sempre o compromisso com a verdade.

Aurélio Silva: Simples. Apurando, checando sempre, ouvindo várias fontes e buscando sempre ser assertivo. Evitar erros de informação e na escrita é fundamental.

Conecta - Com a instantaneidade que as notícias devem ser produzidas, as notícias acabam não se aprofundando em um assunto, para suprir essa necessidade de sempre ter novidade. Como contextualizar e trazer uma informação mais completa ao leitor?

Tatiana Alves: O público, principalmente o que se informa pela internet, quer cada vez mais consumir informações rápidas e objetivas. Textos longos e com muitos dados, geralmente, não prendem a atenção desse perfil de leitores. A criação de mecanismos de leitura, tais como organização de intertítulos, links com mais informações, boa diagramação, imagens/fotos que ajudam a ilustrar são ações que podem facilitar e estimular a leitura de textos mais densos e mais aprofundados.

Aurélio Silva: A contextualização mais detalhada não é uma característica do gênero jornalístico notícia. A notícia é breve mesmo, mais informativa e rápida. Por isso, combina mais com a rapidez da linguagem na internet. Isto está correto. O aprofundamento é uma característica da reportagem. Essa contextualiza mais, explica mais, busca compreender o fato com mais profundidade. Também tem espaço na web, assim como é usual em revistas e jornais impressos, mas demanda muito mais tempo e esforço da equipe jornalística envolvida. O leitor vai ter onde buscar informações mais completas nas reportagens impressas e web-reportagens.

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