O jornalismo não está morto

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Mídias alternativas reinventam a forma de exercer o jornalismo, produzindo contra narrativas às mídias tradicionais

Nos últimos anos várias questões que envolvem o jornalismo estão em discussão. Por causa do desenvolvimento da internet, debates sobre o futuro da profissão têm sido provocados. Essa necessidade de reinventar a profissão fez com que surgisse uma nova tendência no mercado jornalístico: as mídias alternativas. Com o objetivo de romper com os padrões das mídias tradicionais, elas apresentam outro modelo para o jornalismo, uma nova forma de exercer a profissão, que diverge da posição de que ela não existe mais. A Rede de Jornalistas Livres por exemplo, é só uma das diversas mídias alternativas que têm surgido no Brasil. Criada no dia 12 de março de 2015, com a intenção de fazer uma cobertura das manifestações diferenciada das apresentadas pelos veículos comuns, os comunicadores iam para as ruas para mostrar a visão de quem estava manifestando.

Quando foi criado, o coletivo realizou uma campanha para arrecadar doações. O dinheiro foi investido em aluguel da sede em São Paulo, construção do site, equipamentos básicos necessários para as coberturas (notebooks e câmeras profissionais), passagens e vouchers de hospedagens para as reportagens realizadas fora de São Paulo. Os valores estipulados para as doações variavam de R$ 15 a R$ 10 mil. A campanha que durou 45 dias, tinha como meta alcançar R$ 10 mil e foram arrecadados R$ 132.730. Como recompensa para os doadores, havia pacotes com camisetas, livros, adesivos e até convites para palestras ministrados pelos repórteres e editores do coletivo, além de debates online sobre as pautas das coberturas.

“A mídia independente vem para mostrar o que não vai estampar a capa da Folha ou do Estadão

Os jornalistas livres utilizam as redes sociais e o site da rede, criado a partir das contribuições, para compartilharem suas coberturas jornalísticas. Nas redes sociais, são realizadas as transmissões das coberturas ao vivo e no site, dividido por editorias (ocupações por moradias, política, economia, saúde, negros, feminismo, educação, índios e LGBT), são publicadas as reportagens.

A Rede de Jornalistas Livres é composta por comunicadores, fotógrafos, ativistas, movimentos sociais, advogados, pessoas que trabalham voluntariamente para reestabelecer a confiança da sociedade na profissão, não necessariamente todos são jornalistas por formação. “Entendemos que qualquer pessoa pode ser um jornalista. Se ela estiver num local, presenciar um fato e registrá-lo, ela pode (e deve) contar isso, e isso é jornalismo”, diz Martha Raquel Rodrigues, Jornalista Livre. Apesar de o trabalho ser voluntário, a rotina de produção não é muito diferente do jornalismo tradicional. São realizadas as reuniões de pautas, a apuração das informações e todos os outros procedimentos para a qualidade das notícias. Martha caracteriza a rotina como “louca”, pois eles dedicam todo o seu tempo livre para o coletivo, já que a maioria possui também um emprego formal.

Há colaboradores da rede espalhados por todo Brasil, alguns dos mais ativos em Belo Horizonte, Campinas, Curitiba e Brasília. De acordo com a jornalista livre, as reuniões de pauta acontecem em São Paulo, uma vez por semana, para decidir o que cada pessoa irá fazer, seja realizar uma entrevista, cobertura, reportagem, edição e revisão de material, pedir posicionamentos oficiais ou organização de debates.
 Para a jornalista e professora da PUC Minas, Junia Miranda Carvalho, não se pode dizer que os veículos independentes são totalmente imparciais. “Independência e imparcialidade são coisas diferentes”. Foto: Reprodução/ FacebookParcialidade

Segundo a jornalista livre, Martha Raquel Rodrigues, o jornalismo não está isento de posicionamento político, porém, essa nova mídia vem para romper com os interesses da grande mídia corporativa, que trabalha de forma manipuladora, de acordo com seus interesses lucrativos, e conscientizar o povo brasileiro. “A mídia independente vem para mostrar o que não vai estampar a capa da Folha ou do Estadão, ou muito menos estar na telinha da Globo, Record, SBT ou Band. Vem para fazer a contra narrativa de uma hegemonia”, completou.

Tanto a mídia tradicional quanto a mídia alternativa possuem suas ideologias e posicionamentos políticos, assim, a falta de parcialidade dos meios pode ser questionada pela sociedade, já que, ao apresentarem suas informações, acabam impondo suas opiniões e influenciando nos discursos e no comportamento das pessoas, por esse motivo o jornalismo é considerado o “quarto poder”. Para a jornalista e professora da PUC Minas, Junia Miranda Carvalho, não se pode dizer que os veículos independentes são totalmente imparciais. “Independência e imparcialidade são coisas diferentes”. Mas afirma também que esses veículos são necessários à sociedade, como forma alternativa a grande imprensa.

A professora considera também que o maior desafio do jornalismo, é manter a qualidade das informações e o compromisso com veracidade dos fatos, o que faz com que o público não saiba em qual veículo confiar. A historiadora e socióloga Tracy Azevedo, afirma que, por isso, é necessário procurar um sistema comparativo de informações às grandes empresas e ressalta que os meios de comunicação informam, porém, a imparcialidade é questionável.

Pluralidade

Como cada voluntário da Rede de Jornalistas Livres é seu próprio patrão, ou seja, não possuem contratos com organizações, poder público ou alianças e nem há competição como no mercado convencional, há uma liberdade para abordar o outro lado da história que as grandes empresas não apresentam, por exemplo, o lado dos negros, pobres, índios, quilombolas, caiçaras, comunidade LGBT, mulheres, grupos considerados minorias e que não são, na realidade são a maior parte.

Tracy Azevedo, historiadora e sociologa. Foto: Reprodução/ Facebook

De acordo com essa rede, o propósito é ouvir e dá voz a sociedade. Desta forma, a diversidade e pluralidade de assuntos faz com que o jornalismo torne-se mais democrático e aberto às várias vozes, o alcance social das matérias e os temas abordados fazem parte de um jornalismo mais social e humanizado. Os repórteres também oferecem um espaço para a manifestação e expressão do público, oferecendo visibilidade a essas pessoas para que a sociedade passe a ter conhecimento dos problemas do Brasil que não são apresentados.

O que muda é que essas mídias são uma alternativa às mídias tradicionais. Uma forma de fazer jornalismo que une pessoas diferentes, mas com desejos comuns. O desejo de mudar o mundo, ouvindo e compartilhando histórias, opondo-se à tradicional indústria de comunicação que, para esses jornalistas, mantém, acima de tudo, seus interesses e a centralização de poder. Ao contrário, eles buscam desenvolver o senso crítico dos brasileiros que, durante muito tempo, só tiveram acesso a fontes de informação da mídia tradiciona

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