Como seria a vida se vivêssemos em um mundo preto e branco? Sem o céu azul, a grama verde e ipês amarelos enfeitando as ruas... Um mundo sem cores é um mundo doente. Vermelho, laranja, rosa ou roxo, cada cor é responsável por afetar o corpo e a mente de certa forma, criando sensações, como desejo ou perigo, e até mesmo o que acreditamos, já que habitamos lugares feitos de símbolos.

Uma hora. É tudo que se pode ter.

Com os pés para o alto na mesa de centro da sala, no alto de quem cumpriu a missão de educar cinco filhos e nove netos, além de viver dois casamentos, estava à minha avó, Helena. Cumprindo o ritual diário desde que decidi morar com ela, desci os degraus de granito que levavam até à sala, beijei sua testa e perguntei como fora seu dia. Fui bem meu filho. E você? – Com um olhar e fala de quem queria, de fato, saber como ia minha rotina. Vou bem, vó – graças à Deus (na maioria das vezes dou essa resposta, acrescentando que estou trabalhando bastante). Que bom meu neto, se está trabalhando, tá bom. Eu já trabalhei bastante, agora é a sua vez”, disse. 

O trânsito estava parado. Fileiras e mais fileiras de carros se acumulavam na pista larga, aguardando a passagem sob o sol quente de meio-dia. Era sexta-feira e os motoristas já ansiosos pelo final de semana pareciam se deleitar em apertar a buzina de seus carros infinitamente. Já não bastava o calor infernal, o suor escorrendo pelo seu pescoço e o ar-condicionado quebrado, a perturbação sonora era um acompanhamento do prato principal de sua refeição insalutífera.