Com os pés para o alto na mesa de centro da sala, no alto de quem cumpriu a missão de educar cinco filhos e nove netos, além de viver dois casamentos, estava à minha avó, Helena. Cumprindo o ritual diário desde que decidi morar com ela, desci os degraus de granito que levavam até à sala, beijei sua testa e perguntei como fora seu dia. Fui bem meu filho. E você? – Com um olhar e fala de quem queria, de fato, saber como ia minha rotina. Vou bem, vó – graças à Deus (na maioria das vezes dou essa resposta, acrescentando que estou trabalhando bastante). Que bom meu neto, se está trabalhando, tá bom. Eu já trabalhei bastante, agora é a sua vez”, disse. 

O trânsito estava parado. Fileiras e mais fileiras de carros se acumulavam na pista larga, aguardando a passagem sob o sol quente de meio-dia. Era sexta-feira e os motoristas já ansiosos pelo final de semana pareciam se deleitar em apertar a buzina de seus carros infinitamente. Já não bastava o calor infernal, o suor escorrendo pelo seu pescoço e o ar-condicionado quebrado, a perturbação sonora era um acompanhamento do prato principal de sua refeição insalutífera.

São exatamente 4 horas e 15 minutos da madrugada, segunda-feira, meados de março. Ao som do despertador reluto em acordar, deslizo minha mão até o celular sem muito esforço e com um toque na tela ganho aproximadamente mais 8 minutos de descanso. Às 4 horas e 23 minutos novamente a música instrumental do despertador toca, mas parece tocar mais alta, mais forte e como se recitasse “levanta, estou te oferecendo sua última chance de não se atrasar” assim, num pulo, acordo assustada em meio à escuridão rotineira, cortesia do horário.

O frio no Sul e Sudeste do país começa a mostrar a sua cara agora. Mas enquanto ainda estamos tirando os casacos do armário, para enfrentar o inverno, o mundo da moda prepara, a todo vapor,  o que vamos vestir e comprar no próximo verão.