Cadeira de balanço

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Com os pés para o alto na mesa de centro da sala, no alto de quem cumpriu a missão de educar cinco filhos e nove netos, além de viver dois casamentos, estava à minha avó, Helena. Cumprindo o ritual diário desde que decidi morar com ela, desci os degraus de granito que levavam até à sala, beijei sua testa e perguntei como fora seu dia. Fui bem meu filho. E você? – Com um olhar e fala de quem queria, de fato, saber como ia minha rotina. Vou bem, vó – graças à Deus (na maioria das vezes dou essa resposta, acrescentando que estou trabalhando bastante). Que bom meu neto, se está trabalhando, tá bom. Eu já trabalhei bastante, agora é a sua vez”, disse. 

Em um dia qualquer, após esse diálogo eu iria para o meu quarto continuar a cumprir a sina de quem faz das letras, profissão. Com a porta fechada, escreveria meus textos e dormiria, no ápice do cansaço de dias exaustivos. Mas não, aquele dia não. Joguei a mochila no canto e me sentei na cadeira de balanço que era do meu avô, Eduardo. Muitas saudades dele. Já são mais de dez anos, e parece que foi ontem. Mais de 50 anos juntos, quatro filhos, muitas recordações. Dói muito ainda, disse minha avó, numa fala morosa de quem, de fato, está sofrendo pela dor da perda. Ainda me recordo do dia que o vô se foi, vó. Foi complicado – disse, tentando me solidarizar com aquele sentimento. De fato, a perda do meu avô foi a primeira morte familiar que vivenciei. Continuamos a conversar sobre a vida. No alto da conversa, começou a me contar sua história. Eu, de pronto, virei a cadeira e comecei a ouvir. Só ouvir. 

Quando eu vim de Oliveira para Belo Horizonte, aqui (Belo Horizonte) era muito pequeno. Minha mãe, Gercina (neste dia descobri o nome da minha bisavó paterna), morreu com 33 anos. Deixou os filhos pequenos, e meu pai, José, sozinho. Não tinha como ficar lá em Oliveira. Juntamos as coisas e viemos para a Capital. Aqui eu e meus irmãos ajudamos o meu pai. Com as economias, meu pai montou uma venda – como chamavam os supermercados de antigamente – junto com um bar, onde trabalhávamos atendendo os clientes. Era garçonete, ela disse. Minha avó começou a contar essas coisas, e eu, mesmo sem entender o porquê, continuei a ouvir, interessado.  

Os tempos ficaram difíceis, e tivemos que fechar a vendinha e o bar. As pessoas compravam as coisas e anotavam na caderneta (o famoso “fiado”), para pagar no final do mês. As pessoas pararam de pagar, e meu pai acabou quebrando. Cada um de nós arrumou um emprego, e meu pai, através de um político, conseguiu um trabalho no Pronto Socorro Policial (que hoje conhecemos como Hospital João XXIII). Lá ele trabalhou por mais de 20 anos. Minha vida começou difícil, mas graças a Deus eu venci.

Naquela hora, eu não resisti a uma pergunta. “Vó, e como foi o primeiro casamento da senhora”? Sempre quis saber, mas tinha medo de perguntar, pois era um assunto quase proibido na família. Aproveitando a liberdade que o momento nos propiciava, ela falou. Você é o primeiro neto para quem vou falar sobre isso.

Quando trabalhava como garçonete – tinha 17 anos, conheci um moço chamado José, bonito e gente boa. Começamos a namorar e logo nos casamos, mas só no civil, pois o religioso era muito caro e não tínhamos dinheiro. Ele me tirou da casa do meu pai e fomos morar de aluguel. Ele era açougueiro, dos bons. Um ano depois, no dia de Natal de 1958, nasceu o seu pai, Sérgio (eu já sabia dessa parte da história, mas o que viria depois me desconcertaria completamente). 

O José tinha um defeito, meu filho. Ele bebia demais. Chegava em casa bêbado, me batia e falava absurdos sobre o seu pai, que era um bebê na época. Aguentei por um tempo, pois ele disse que iria melhorar. Acabou que eu tive um outro filho com o José, em 1959. O Ronaldo, que viveu apenas três anos. Na hora que ela disse isso, meu Deus... Literalmente, me tranquei. Tive um tio que morreu, e eu não sabia. Pedi a minha avó para falar sobre ele. Ela disse, em meio às lágrimas, a triste história de Ronaldo. 

Ele nasceu meio doente. Viveu três anos somente. Tinha alguns problemas de saúde, que acabaram se agravando com um sarampo. Lembro que o levei ao médico de ônibus. Chegando lá, o médico disse que ele precisava ficar internado, pois seu estado não era nada bom. Foram dias complicados. Deixava seu pai com minhas irmãs e ia para o Hospital. O José estava bebendo muito, não ligava para a situação. Ficava a tarde toda no hospital, junto com o meu filho. Lembro que ele me via pelo vidro da enfermaria, e sorria. Nesta hora veio um choro de dor da minha avó. Eu quis correr. Não sabia o que fazer. Olhei no fundo dos seus olhos, e me recolhi ao meu silêncio. 

No dia da alta, muita festa. Peguei (o filho) nos braços e subi no ônibus para vir com ele para a casa. No meio do caminho, ele ficou sem reflexo, sem fala, sem respiração. Tentei animá-lo, mas infelizmente, estava morto. Tinha perdido meu filho ao sair do hospital. Quanto sofrimento, meu Deus, nunca me recuperei! A dor de quem perde um filho não tem nome. Os primeiros dias foram insuportáveis. Após a morte do Ronaldo, o José ficou pior e não tive outra escolha. Peguei o Sérgio e voltei para a casa do meu pai. Me separei com 22 anos, coisa que não acontecia naquela época. 

Em meio à dor e surpresa de saber dessa história do meu tio que morreu pequeno, começa a parte boa da história. Entra em cena o meu avô do coração, Eduardo, que começa a fazer parte desta história. Minha avó esboça um pequeno sorriso de felicidade e começa. 

Fui morar com o meu pai e minhas irmãs. O José insistiu por muito tempo em voltar comigo, mas não quis. Foi muito sofrimento. Ele se entregou à bebida e sumiu. Tempos depois, tivemos a notícia que ele havia falecido e enterrado, não se sabe aonde nem como. Aí começa a minha história, com seu avô, Eduardo. Continuei no silêncio. Mal conseguia piscar os olhos. Guardava cada detalhe na memória e no coração, para depois transformá-los em palavras. 

Meu pai que conheceu o Eduardo em primeiro. Era dentista famoso em Belo Horizonte, de família respeitada. Em uma das consultas, meu pai disse que eu precisava de um tratamento dos dentes, mas não tínhamos condições de pagar. O Eduardo então disse ao meu pai que faria o tratamento, sem problemas, e que a questão do dinheiro se resolvia depois. Meu pai marcou a consulta, e eu fui lá. Quando vi o Eduardo a primeira vez, foi amor à primeira vista. Quando ela disse esta última frase, pude perceber o tamanho amor da minha vó por aquele homem. 

Durante as consultas, fomos conversando e nos conhecendo. Até que começamos a namorar. Fiquei com medo no primeiro momento, pois já tinha um filho e não tinha marido, e isso era um problema na época. Ele, numa humildade e amor imensos, não se importou com a questão. Algum tempo depois, tivemos o nosso primeiro filho. Além de termos tido mais quatro filhos, ele acolheu o Sérgio como filho dele. O Eduardo nunca disse que tinha quatro filhos, mas sim, cinco. Ele me tirou da casa do meu pai e casou comigo na Igreja. Construímos juntos uma família maravilhosa

Era nítido o brilho de seus olhos quando falava de meu avô, que morreu em 2010, com bens vividos 95 anos de idade. Lembro até hoje do dia em que seu avô resolveu me deixar. Estava dormindo numa noite fria de domingo, quando eu senti ele suspirando forte. Acordei assustada, achando que ele estava passando mal. Acendi a luz do quarto, e vi que ele tinha partido. Não respirava mais. A ambulância veio depressa, mas era o fim. Ele morreu do jeito que queria: sem dar trabalho para ninguém

A cada fala da minha avó, eu me interessava mais pela história de minha família, e agradecia pela oportunidade de poder conviver com ela. Beijei seu rosto novamente, resolvi ir para o meu quarto. No futuro, você vai contar essas e outras histórias para seus filhos. Acenei com a cabeça e saí. Chegando ao meu quarto, resolvi escrever.