Cotidiano ininterrupto

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O trânsito estava parado. Fileiras e mais fileiras de carros se acumulavam na pista larga, aguardando a passagem sob o sol quente de meio-dia. Era sexta-feira e os motoristas já ansiosos pelo final de semana pareciam se deleitar em apertar a buzina de seus carros infinitamente. Já não bastava o calor infernal, o suor escorrendo pelo seu pescoço e o ar-condicionado quebrado, a perturbação sonora era um acompanhamento do prato principal de sua refeição insalutífera.

Ela abriu a janela do carro, buscando por uma brisa fresca e o vento morno a atingiu. Estava atrasada para o trabalho, para mais um dia de atividades inúteis de escritório, para diálogos insossos e sorrisos fingidos. Era rotineiro, passar os dias fingindo que estava bem. Pela décima vez desde que o fluxo se estagnara, a mulher olhou no relógio. Trinta minutos haviam se passado.
Vendedores passaram oferecendo água. Vendendo tiras de tecido. Vendendo pipoca doce e chocolates derretidos.
Em outro carro, uma senhora enxugou o rosto com um paninho de linho. Seu acompanhante imitou o gesto, lhe oferecendo um sorriso cansado de volta. A aliança dourada brilhou em seu dedo anelar esquerdo, um par idêntico ao da velha. A maneira com que se olhavam prendeu sua atenção. Um casal apaixonado, desgastado pela idade, desmanchando pelo calor, pela vida.
Efêmero. Tudo era efêmero.
Eles permaneceram se encarando. Pelo vidro aberto pude ouvir um sussurro de música, uma harmonia simples de violão e voz. Um momento afável. Um sopro.
Faces se desfariam. Seus bisavôs tinham o mesmo olhar. Tinham. No final, sobraria o metal amarelado em dedos ossudos enterrados no solo árido.
E o medo e a dor e os grãos imaginários de areia escapulindo pela ampulheta do tempo. Ah, a realidade como fel em sua boca, queimando a garganta enquanto bile a devorava.
Ela fechou os olhos. A respiração falhou. Não, de novo não.
Mãos trêmulas, batimentos acelerados, a pressão familiar no peito. Uma psicopatologia que enfrentava por anos. Por 6 anos. Um parasita consumindo sua mente e deixando fragmentos de uma alma puída. A mulher estava cansada. Exausta como uma idosa de 90 anos.
Ela focou nos carros a sua frente, no semáforo vermelho, nas motos costurando o asfalto com manobras perigosas. Ela tentou manter sua mente afastada das vozes que sussurravam em seu ouvido.
Efêmero. Tudo era efêmero.
Não havia prazer, nada, ninguém, nenhum lugar.
Meninas crescem. Mulheres trabalham. Velhas definham. Pessoas morrem.