Idas e vindas

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São exatamente 4 horas e 15 minutos da madrugada, segunda-feira, meados de março. Ao som do despertador reluto em acordar, deslizo minha mão até o celular sem muito esforço e com um toque na tela ganho aproximadamente mais 8 minutos de descanso. Às 4 horas e 23 minutos novamente a música instrumental do despertador toca, mas parece tocar mais alta, mais forte e como se recitasse “levanta, estou te oferecendo sua última chance de não se atrasar” assim, num pulo, acordo assustada em meio à escuridão rotineira, cortesia do horário.

Após me levantar, sonolenta, caminho para debaixo do chuveiro e deixo a água quente cair pelo corpo me trazendo a disposição necessária para aquele dia; 10 minutos no máximo! Dali, tem início minha correria diária - me visto com a primeira roupa que vejo, faço o mesmo com os sapatos, arrumo minha bolsa, como uma torrada com meio copo de leite ou café, escovo os dentes e está na hora! Às 5 horas e 26 minutos, ouço dois toques na buzina e me apresso para embarcar na van que me leva de Igarapé à Belo Horizonte, geralmente, nas segundas, terças, quartas e quintas-feiras. 

Um bom dia sorridente de Edgar, o motorista, sempre me espera logo ao entrar na van, assim que o correspondo sento no mesmo lugar, um banco atrás de quem dirige tendo a janela como minha companheira para observar cada pessoa que embarca e um pouco de sua história que se soma a minha nessa viagem. 

Jovens em busca de um futuro tendo pais que se orgulham e se esforçam em querer o melhor para os filhos e principalmente que apostam que a educação, os estudos e o conhecimento são um diferencial na vida de qualquer um. E olha que privilégio! Se sentam ao meu lado, um futuro advogado e uma dentista, atrás, uma arquiteta que tem como companhia uma médica que se soma a outra e também a uma enfermeira e uma nutricionista, logo atrás, mais três advogados e por fim dois engenheiros, unidos todas as manhãs por uma vida na capital mineira.

Apresentados, eu, jornalista em formação com um olhar diferenciado e atento a tudo vejo através da janela a diversidade de porquês, de objetivos que se cruzam na estrada. A cada carro, ônibus, motocicleta ou caminhão que passa por nós, uma história se passa junto mesmo que por segundos, a velocidade das coisas, do mundo atualmente me chama muito a atenção. Por que não desacelerar? Acho que estamos precisando mais disso, reciprocidade de gentileza com o próximo poderia ser um ponto, mas o mundo necessita mesmo é de amor! 

Em meio a uma sincronia de buzinas e freadas inesperadas, esbarrões ou “desculpa”, “com licença”, enfim, tudo se mistura nesse balé de pessoas e automóveis no dia-a-dia. E eu, assim como eles, participo dessa dança sem ao menos perceber o ritmo frenético que tem o tempo como protagonista. Cada vez mais escasso, difícil de conseguir, raridade! Bendito seja aquele que tem controle do próprio tempo! 

E depois de expor esses vários assuntos - minha rotina, o pessoal da van, o amor no mundo e o tempo nessas linhas e entrelinhas, meu pensamento fluiu longe. Percebi que a minha relação de afeto e ódio com o tempo começa ao meu despertar. Mas, o meu “querer mudar o mundo” e principalmente dar a voz a quem precisa, se fortalece ainda mais quando se junta aos futuros advogados que querem a justiça para todos, aos engenheiros e a arquiteta que buscam um mundo mais bonito e sustentável, além das meninas da área da saúde que querem salvar vidas, cuidar e promover o bem estar ao próximo. Sonhos, que proporcionam a esperança de um mundo melhor e mais cheio de amor.

A viagem se torna pequena para minhas teorias, chego ao meu destino sem nem perceber, cumpro minhas tarefas e às 12:25 começa meu retorno para casa - outras pessoas, outras visões. A janela da van volta a ser meu espelho da vida para a vida, o tempo não para, o mundo acompanha e nós viramos reféns, vivemos no automático, regrando minutos, segundos, sem perceber a beleza do ambiente ou até de outras pessoas que temos ao lado. Chegando em casa refletindo sobre meu dia, sobre tudo que vi através daquela janela, concluo que precisamos exercitar nós mesmos, precisamos desafiar o tempo, aproveitar mais os lugares, as pessoas, exercitar amor! Porque amanhã, para mim, às 4h e 23 minutos, uma nova oportunidade de mudança vai surgir ou simplesmente começar tudo novamente.