Bate-bate na janela, sempre batendo na mesma tecla

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Cansada da rotina, entro mais uma vez no ônibus, sento novamente à janela, e aquele desespero de esquecer os fones bate de repente.

Sem a doce distração da música, só me resta olhar o mundo lá fora e esperar o fim da longa jornada.

Em vez dos postes em movimento e dos carros apressados, meus olhos se prendem em um pequeno ser.

Pequeno, insistente e teimoso.

Aposto que não sabe como foi parar naquela armadilha mortal.

Aposto que não sabe que está em uma armadilha.

Sempre enxergando o mundo lá fora, tão grande, tão cheio de promessas de ar fresco, comida disponível, uma sombra fresca para repousar, outro pequeno ser com quem possa se relacionar.

E por enxergar tão claramente este maravilhoso mundo, ele continua batendo contra a janela, de novo e de novo.

O movimento do ônibus é brusco e repentino, e ele cai e é mandado para os lados, de novo e de novo.

Logo em cima do vidro tem uma pequena janela aberta, por onde este pequeno e tolo ser poderia escapar da prisão de ilusões e conquistar sua tão sonhada liberdade em um mundo cheio de reais possibilidades.

A borda da janela é escura e longa como a noite, e toda vez que o pequeno ser chega perto dela, em um susto por perder de vista a promessa de um mundo perfeito que antes estava bem diante de seus olhos, se joga, e volta a bater contra o vidro, com um novo pequeno ser a seu lado.

Quão tolo é preciso ser para passar uma vida lutando por uma mentira, repetidamente, mesmo que não receba nenhum sinal de que um dia essa mentira poderá se tornar realidade?

Minha jornada nesse ônibus chega ao fim, peço licença à pessoa que senta ao meu lado para levantar e não posso deixar de notar o conteúdo de seu celular.

Esta pessoa estava declarando seu amor e dedicação de forma fervorosa a alguém.

Alguém que um dia prometeu melhorias para o país.

Que prometeu o fim das mentiras e da corrupção.

Que nos elevaria a um novo nível como nação.

E enquanto esperava que o ônibus parasse no meu ponto e via aqueles dedos nervosos curtindo absurdos e mentiras na internet, não pude deixar de pensar.

Aqueles pequenos seres, insistentes e teimosos, de repente não estavam mais sozinhos em sua tola busca por um mundo melhor, baseadas em doces promessas.