A Beagá da Zona Sul

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Era no alto da Praça do Papa, Daniel estava na casa dos seus pais, seu lar durante a infância e a adolescência, mas hoje aquele local era percebido como algo que nunca foi realmente dele. Ele se sentia como um hóspede de longa data que tinha conquistado a afeição da família anfitriã.

Era o jantar/festa de noivado do seu irmão e a residência era ocupada pelo pessoal mais influente e medonho que Daniel já tinha conhecido. "Mas só quem nasceu em berço de ouro consegue sentir o fedor dos brilhantes", visto de fora esse grupo de humanos nada mais eram que pessoas agradáveis, com sorrisos agradáveis, apertos de mãos agradáveis, com drinks agradáveis, comidas agradáveis, papos agradáveis, nada de desagradável sequer passava pelo portão-filtro que parecia existir naquelas mentes. 

"0 desagradável é desnecessário", dizia elegante sua mãe Raquel.

Daniel fazia o possível nesses cenários para ficar fora de qualquer situação desagradável, apesar de toda aquela situação ser em si desagradável.

Bebericava o copo de whisky querendo virar, mas sabia que não podia perder o controle, não podia se deixar relaxar ali. 

Fernando e Ana estavam juntos há alguns anos, ambos de famílias muito boas, sabe o que quero dizer com boas: bons sobrenomes, bons carros, boas heranças. A ideia de noivar parecia apenas o próximo passo lógico, até porque existia uma pressão, quase regra não dita, de que aqueles humanos deveriam se juntar com humanos como eles, para equalizar a união. 

O noivo Fernando bateu aquele garfinho da taça de cristal e clink, clink, clink, estavam todos prestando atenção nos noivos. "Alguns de vocês sabem que os nossos pais eram amigos desde os seus 20 anos, então eu e Ana nos conhecemos desde sempre. Queria poder dizer que foi amor à primeira vista, mas nem teria como, eu achava meninas frescas e chatas quando criança - hahaha. Porém, a gente envelhece, o que é bom, e mudamos de ideia e foi ali, te vendo vencer na vida que eu consegui enxergar o mulherão que você é, meu amor. E eu sei que você não gosta desse tipo de atenção, maaaas, hoje é um dia especial. Então, papai, por favor!" 

Papai Luís já estava no piano e começou a tocar Every Breath You Take, da banda The Police. Fernando começou a cantar "every breath you take, every move you make, every bone you break, every step you take, i'll be watching you..." 

Daniel olhava de cima o casal e a performance do irmão, ouvindo a letra da música, "parece a declaração de um psicopata", pensava incomodado de ver tantos sorrisos admirados, que pareciam nem ouvir ou entender o que estava sendo dito. Ana sorria triste, era um sorriso não somente desconcertante, mas triste. Daniel era amigo de Ana desde a infância, ele também sabia como ela via aquilo tudo ao redor deles, mas Ana queria pertencer, tomava antidepressivos, qualquer coisa que a fizesse sentir menos o fedor dos brilhantes. Esse é o trem com cheiros, depois de um tempo, você nem percebe mais, acostuma e aceita. Mas mesmo depois de anos, Daniel ainda sentia o cheiro, aquilo o enlouquecia. 

Uma parte dele sentia raiva por não ter dito a ela para fugir daquilo tudo, começar algo novo, somente os dois, em outro lugar, criar uma família do zero. Tivesse o momento existido ou não, tivesse esse sido criado ou não, agora ele olhava aquela cena com um mix de sentimentos, mas talvez o mais marcante é a impotência, por não poder agora sacudir aquela casa e reestruturar tudo novamente. 

Após o brinde-melodia do noivo, Daniel começou a mover-se sutilmente até a saída, até uma mão tocar seu braço "não é possível que você vai sair sem nem ao menos trocar uma palavra comigo" olhou para trás e Ana sorria para ele "vamos até o salão de jogos" e saiu andando.

"Eu ia te cumprimentar sabe, mas é que tem tanta gente aqui, pensei que talvez você estivesse meio de saco cheio" disse Daniel ao fechar a porta do salão.

"Ah, eu suspeitava de algo assim, e estou de saco cheio, mas não de você." 

Daniel quis abraçá-la, mas só colocou a mão no seu ombro direito e disse "eu só quero que você seja feliz, era isso que eu queria lhe desejar hoje" 

"Ah, algo simples e de fácil alcance, obrigada. Não, sério, obrigada. Mas eu nem sei se acredito nessa "felicidade" que deveríamos ter ou ser. Acho que isso não existe. E, no entanto, eu acabo desejando o mesmo para você."

"É como se a ideia não fizesse sentido, mas abrir mão da ideia parece fazer menos sentido ainda..." 

"Nossa exato... exato." 

"Escuta, Ana, eu preciso ir, adoro esse momento agora, mas não consigo ficar para o resto da festa..." 

"Está tudo bem, deixa eu só..." Ana tirou um pequeno saquinho de cetim que estava em seu vestido e tomou um comprimido. “...para aguentar os drinks pós jantar." 

Daniel sorriu sem dentes. Ele entendia, mas ao menos tempo não fazia sentido algum. Talvez a felicidade não exista, mas se sentir bem, isso existe. Fazer escolhas que façam você se sentir bem. Ele saiu da casa e foi caminhando, descendo a enorme avenida que vai até Praça da Bandeira e ali contemplando a beleza da cidade. Entrou pelo bairro e reparou nos desenhos dos artistas de rua, pensou que devia ter muita paixão por algo quando você corre o risco de ser enquadrado por isso, talvez parte da paixão viesse do risco.

Pensou em Ana ao ver o desenho de uma moça no muro, lembrou-se de Machado de Assis em Capitu, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Porém, Machado pegou pesado com Capitu, uma vez que cada um deve fazer o que for necessário para sobreviver, inclusive fingir. Ele mesmo fingia o tempo todo. Fingia pertencer. Fingia saber para onde ia enquanto caminha. Fingia estar vivo. Fingia não fazer esses questionamentos. Fingia para não precisar lidar, com qualquer coisa, com tudo. Todos fingem. Todos somos nômades dissimulados, prontos para engajar a qualquer custo, em qualquer mentira.

O que significava estar ali? O que estariam eles fazendo? Qual era o ponto? Por que não parecia simples como os contos de romance? Era aquele universo que ele queria? O da família rica no topo da montanha de cimento? BH é muito mais do que isso para Daniel. Foi o lugar das suas primeiras vitórias, seu primeiro beijo, logo ali acima, no famoso mirante caixa-d’água, foi ali que ele se apaixonou pela lua e por si mesmo. BH é contraste entre a marca dos revolucionários e o conforto dos donos da revolução. E ele ali, no exato muro, entre tanto poder econômico e poder decidir sua própria vida. Cada escolha tinha um preço, ele ali olhando apaixonado para lua, para si mesmo, para quem ele quer ser e quem ele poderia se tornar.

Ali ele pediu para voltar, voltar para o útero, para o ponto onde sua felicidade não estava em suas mãos, onde existia uma liberdade em não ter que escolher. “Ações têm consequências...” dizia Raquel, sua mãe. Criando raízes nos pés e linhas de energias até o céu, ele permaneceu, encarando a lua.