Uma cidade incrível

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No fim de 2016, uma decisão difícil de tomar, era o ano de me formar no Ensino Médio e decidir para onde ir. Sabia que queria jornalismo, porque sempre gostei de comunicação e ouvia as pessoas dizerem: “Você fala bem Ivan, por que não estuda jornalismo?” e foi o que eu resolvi fazer.

Mas antes disso, até por não ter o curso próximo a Barão de Cocais, minha cidade natal, fiz duas inscrições para o vestibular, uma delas para o curso de Direito. O destino tem dessas coisas, numa conversa tranquila na casa de um amigo que havia sido companheiro de ensino fundamental, ele me disse: “Ivan, estou estudando na Fumec”.

E eu perguntei a ele se lá tinha Jornalismo, foi quando descobri que sim. Fiz a prova, passei, me matriculei. A realização de mais um sonho e o início de mais uma caminhada. Onde vim parar? Belo Horizonte.

Depois de quatro períodos estudando, a data é 10 de outubro deste ano, Mineirão, Belo Horizonte, Minas Gerais. Tão aguardada nesta quarta feira de sol,  14h30 vai se aproximando e dando a hora de ir para o grande espetáculo do dia. Banho tomado, uniforme vestido. Sono na noite anterior? nem pensar! ansiedade? ficar andando dentro de casa para um lado e pro outro, até dar a hora de ir, acho que responde essa pergunta.

A carona chega. No WhatsApp a mensagem diz: “Pode descer, estou na porta do seu apartamento”. Olha no espelho, se acha incrível, pega a mochila e caderno de anotações no quarto e sai. Chegou o grande dia: final da Copa do Brasil e o detalhe é que você será o repórter na final da Copa do Brasil com o seu time do coração, mas isso ninguém pode saber, é segredo. Nada mal para um estudante do quarto período de jornalismo, né? Gratidão pelas oportunidades recebidas é a palavra que define o momento.

Carro nas ruas indo para o local da grande festa. Nas avenidas, a sensação é de que estamos no litoral, um mar de gente. E não é só expressão, o azul reluzente do Cruzeiro Esporte Clube remete ao mar e está espalhado para todos os cantos da cidade. Depois de duas horas no trânsito, tempo que, inclusive, serviu para receber, observar e absorver os conselhos do “professor do rádio” Adilson Martins, chegamos ao estacionamento do gigante.

Carro estacionado, é hora de passar pelo credenciamento. Mas, espera, os companheiros de imprensa estão no portão do estacionamento, acabo de descobrir que o credenciamento só será aberto a partir das 17h, que maravilha, ninguém estava ansioso mesmo. Olho no relógio, ouço críticas à federação pela demora e os segundos passam bem devagarzinho. Chegou a hora. Euforia na subida das escadas e uma fila bem grandinha, para se habilitar ao jogo. Tempo passa e chega o momento: Qual a sua matrícula? 2963! Você está credenciado, bom jogo!

As palavras soam muito bem aos ouvidos. Passa pelos corredores e vai em direção ao elevador que dá acesso à cabine de imprensa, é hora de encontrar os companheiros de equipe, mas antes aquela paradinha tradicional para o bom e velho tropeiro do gigante da pampulha. Aí sim, é hora de chegar à cabine para a grande resenha do meio jornalístico, comum antes das partidas. Barriga cheia, conversa vem, conversa vai, de repente vejo um ídolo: Luís Roberto, da TV Globo.

Luís, podemos tirar uma foto? Claro! Chamo o colega e peço para registrar o encontro, mas a voz grave do locutor diz: “Rapaz, meu braço parece um pau de selfie, vamos tirar uma foto com a câmera frontal”. Não sou eu quem vou dizer que não, né? Dou uma risada, agradeço pelo retrato e os segundos de distração que me fizeram, por pouco tempo, perder o frio na barriga e não lembrar da grandeza de uma final nacional entre Cruzeiro e Corinthians, na qual eu sabia o quanto minha voz estaria em proporções inimagináveis, levando emoção a cada torcedor espalhado pelos cantos da querida e bela Minas Gerais e para todo o mundo via internet.

A hora de entrar no ar vai chegando, a equipe se reúne, dá um abraço e todos desejam boa sorte, não acredito muito em sorte, mas se dizem que ela existe, vou criar a minha e fazer acontecer, que dê tudo certo. É hora de descer da cabine, descer do salto e de tudo que possa fazer cair, é hora de deixar o sonho pra lá e torná-lo realidade, afinal, é o que sempre quis e é o que vai acontecer.

Depois de descer o elevador e ir para a zona mista, fazendo a última oração, a última parte da concentração, depois que subir as escadas de acesso ao gramado, é a hora de separar os homens dos meninos. O tempo vai passando e chega às 20:45, hora de subir as escadas e ir para o gramado. De repente, quando entro no campo, um show incrível, isso mesmo, não seriam só os times que fariam o show no gramado do Mineirão, tinha muita festa nas arquibancadas para receber os craques, a torcida azul e branca do time cinco estrelas do Brasil fez uma recepção impressionante, cantando o tempo todo o hino do clube, músicas tradicionais e o nome dos atletas.

O dia era de tanta festa que, além do jogo e o show da torcida, teve show da diretoria. Mas como assim? Isso mesmo! Uma queima de fogos de artifícios programada pelos cartolas da equipe do Cruzeiro, fazendo daquela noite mágica no Mineirão o que eu já vi de mais bonito dentro do futebol nos meus poucos 19 anos de vida. Mas, de olho nos detalhes, a gente não pode perder nada, tampouco esquecer que o trabalho e a responsabilidade de informar o ouvinte é toda sua. Então, deixei a festa para a torcida, para os jogadores e me concentrei, pois o Roger Luiz, narrador da Transamérica, ia chamar a qualquer momento. É o que acontece. “As primeiras informações do lado Corinthians. Um abraço, boa noite, Ivan Duarte”, os primeiros dez segundos que o frio na barriga é mais tenso que tudo, mas a gente está preparado, concentrado, não tem como dar errado, né! Depois é só alegria. Uma noite incrível, tudo mágico, vivendo da forma que sempre sonhei um dia. Dentro das quatro linhas, um jogo burocrático, o Cruzeiro controlando o adversário e Corinthians esperando a hora certa de fazer da raposa a sua presa.

Mas não conseguiu, porque Thiago Neves, camisa 30 dos celestes, com uma cabeçada fulminante, venceu o goleiro Cássio, depois de um brilhante cruzamento do lateral esquerdo Egídio, e colocou o sua equipe com às mãos na taça. Para o repórter Thiago Malta, o jogo correspondeu às características do que as duas equipes mostraram durante o campeonato. “Jogo pegado. Corinthians veio para perder de pouco. Cruzeiro manteve a calma diante do adversário fechado, buscou alternativas e foi melhor, mereceu o resultado. Mais uma página heroica e imortal é escrita na história do Cruzeiro em Belo Horizonte”, afirma, com convicção.

Nos bastidores, muitos disseram que 1 a 0 era pouco para um jogo dentro de casa, mas alguns ruídos na zona mista me fizeram escutar. “Quem não dá valor ao pouco, não merece o muito” e foi com esse pensamento que dei o meu destaque final, no dia mais especial da minha pequena carreira até aqui, desejando boa noite a todos que estiveram ouvindo o jogo na melhor do futebol, como é chamada a Transamérica, a minha segunda casa. Na decisão, segundo jogo foi com o pouco dentro de casa, depois de toda recepção, que o Cruzeiro foi a São Paulo para voltar a Belo Horizonte, como hexacampeão da copa do Brasil, fazendo a alegria de sua grande torcida.