As muitas faces de Belo Horizonte

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“Esta mesa de granito se estivesse em uma loja de construção, seria só uma mesa de granito para mim, mas ela não está entre milhares de outros objetos do estoque de um estabelecimento, mas na cozinha de minha casa.

 Nela, eu tentava fazer meus deveres de casa do ensino médio sem sucesso porque o meu pai, toda vez que chegava da academia, cismava de ligar o som na maior altura, enquanto preparava o seu “lanchinho” fitness. Isso me rendeu vários acessos de raiva.

 Nela, eu comi incontáveis pães com queijo grelhado ao lado de minhas melhores amigas, depois de uma noite fora, bebendo horrores e sonhando em comer qualquer coisa que custasse menos que cinco reais.

 É nela, que hoje em dia, minha família e eu tomamos café da manhã juntos e conversamos sobre trabalho, faculdade, futebol, música e o fato de minha mãe estar viciada em adotar gatos, enquanto um de nós, para participar da conversa na mesma posição que os outros, vai até a sala de jantar pegar uma cadeira de outra mesa porque a mesa sobre a qual estou falando só tem seis lugares e nós somos oito.”

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Nasci na capital mineira. Moro aqui desde sempre. Quando ainda era criança, costumava andar nas ruas de meu bairro a todo o momento, fosse para ir á escola ou à padaria comprar pão, com a maior tranquilidade. Hoje, acompanhando os noticiários, não me sinto mais tão segura.

A cada vez que passo os olhos sobre uma chamada no jornal acelero o passo: “Mulher é estuprada no bairro Cruzeiro” - acelero. “Ladrão invade casa de militar e acaba morto” - acelero. “Idoso expulso de bar por assediar mulher volta com faca e mata cliente” - acelero e, de tanto me apressar, chego bufando em algum lugar seguro.

 Sim. Apesar desse “risca faca", alguns locais em Belo Horizonte me fazem sentir como criança de novo.

 Já conversei com muita gente que não gostava de ficar em casa por problemas que eu considerava pequenos e por outros que me faziam parar e dizer: “Nossa! Tô aqui se você precisar.” Mas, para mim, meu lar sempre foi aconchego. É nele que passo a maior parte do tempo com a minha família, e é para ele que eu tenho a “certeza” de que vou voltar depois de um longo dia fora.

 A faculdade é outro porto. Antes de embarcar na aventura acadêmica, não pensei que o campus rodeado por muros azuis da Universidade Fumec me reservaria tantas coisas. Ali, convivendo com amigos, colegas, professores e funcionários em geral, escapo do caos da cidade e me aproximo de um sonho.

 Engraçado perceber que os dois lugares que acabei de falar são o que são para mim por causa de pessoas. O próximo e último não é diferente. Ah, a Praça da Liberdade! Ainda que, atualmente, ela esteja fechada para reformas, quando eu olho para os tapumes que a cercam eu me lembro de muitas coisas, mas, principalmente, dos momentos que passei ao lado de meu melhor amigo, que morreu recentemente, o Rafael.

 Entre o coreto, as árvores e o ar leve da praça nós vivemos e aprendemos muito sobre a vida e sobre nós.

Experiências em “points” da capital mineira também são marcantes na vida da jovem de 20 anos, Brenda Campos. “A Pista de Skate do Barreiro me traz muitas lembranças. Entre os meus 15 e 18 anos eu passava muito tempo lá e por isso acabei conhecendo muita gente diferente. A pista era um lugar em que eu sentia que eu podia ser quem eu era sem que ninguém me julgasse”, conta Brenda.

BH pode ser, ao mesmo tempo, medo e refúgio.