Crise nas penitenciárias: bandido bom é bandido morto?

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O Brasil vivenciou no início do mês de janeiro uma das maiores crises em seu sistema prisional. Um show de horrores altamente divulgado pela imprensa, com direito a degolas e a esquartejamento de presos, revelando a barbárie explícita entre as facções criminosas que comandam o tráfico de drogas de dentro das prisões. Embora a prática de cortar cabeças e de trucidar corpos venha das periferias, ela só chama a atenção das autoridades do Brasil a partir do massacre da Penitenciária de Pedrinhas, no estado do Maranhão em 2013.

Devido a este fato, várias foram as manifestações nas redes sociais com as frases: “Que bom que eles morreram”, ou “deviam ter matado mais”, dentre outras. Agora, uma provocação deve nos interpelar. Será mesmo que bandido bom é bandido morto? Será que, de fato, não existe nenhum tipo de ressocialização que possa integrar essas pessoas novamente a sociedade, como cidadãos de bem? Sim ou não, este assunto gera polêmica e debates calorosos entre os mais variados setores da sociedade.

É necessário analisarmos alguns fatos. O crime nasce na maioria das vezes nas periferias, onde os poderes públicos não atuam como deveriam, fazendo a pobreza e a miséria se alastrarem. A falta de empregos e de oportunidades para os mais pobres, principalmente para os jovens, faz com que o mundo do crime se torne mais atrativo. A promessa de vida fácil e dinheiro alto gera a cobiça daqueles que não tiveram chances como muitos de nós tivemos.

Não faço aqui nenhum tipo de apologia, mas é fato que o problema começa “de cima para baixo”. Darcy Ribeiro, um dos maiores especialistas em educação da história do Brasil, deixou uma profecia anexa em seus trabalhos. Algo que hoje se cumpre abaixo de nossos olhos. Disse “Se os governadores não construírem escolas, daqui a vinte anos faltará dinheiro para construir presídios”. Esta frase foi dita por ele em 1982, 35 anos atrás. Hoje, vemos a necessidade de uma educação de qualidade e gratuita, que fomente nas pessoas o desejo da paz e da cidadania. Agora, como nossos governantes veem estes fatos? O que sai mais barato? Escolas ou cadeias?

Também não podemos generalizar. Com o passar dos anos, o número de pessoas de classe média alta que se envolvem em crimes aumentou consideravelmente. O crime não é exclusividade da periferia, que se vê muitas vezes oprimida e excluída por um estigma que não lhe cabe somente. A maldade e a cobiça humana não têm classe social, cor ou sexo. Ela está na mente humana, e pode acontecer e ser provocada por qualquer pessoa em qualquer lugar. Em um sistema jurídico onde aquele que rouba milhões é solto com facilidade e o homem que furta uma caixa de leite para alimentar seu filho é condenado e preso por muitos anos, é difícil falar que a pena de morte irá resolver alguma coisa.

Quem sabe não é a hora do Brasil se agigantar e ir às ruas mais uma vez pedindo uma revolução na educação? Fomos às ruas e derrubamos presidentes, garantimos o direito ao voto. Somente uma grande pressão popular fará com que os governantes se atentem ao fato de que o Brasil só muda com uma educação de qualidade. Nas periferias, nas favelas e nos guetos. A invasão do conhecimento e um maior atendimento do poder público aos lugares com maior vulnerabilidade social mudarão o Brasil para melhor. Não importa quanto tempo leve. O importante é começar...