A “Praça da Liberdade”

Blog
Typography

Para entender o porquê do título estar aspas, a leitura deste artigo será fundamental. Quando pensei em me matricular no curso de Jornalismo, imaginava conviver em uma profissão exaustiva e de grande periculosidade em determinados ocasiões. Mas, ao fazer um trabalho solicitado por uma professora na manhã de uma terça-feira, descobri de uma assustadora forma o que a busca pela informação e por pontos de vista diferentes podem causar. O local escolhido foi a Praça da Liberdade, no coração de Belo Horizonte. Palco de grandes lutas sociais e de conquistas memoráveis para os mineiros.

Originalmente, fomos convocados a fazer um trabalho de fotografia, nos espelhando no cantar das fontes que rodeiam a praça e nas atividades cotidianas das pessoas. Caminhantes, músicos e até mesmo fotógrafos eram nossos alvos. Então avistamos um pequeno, mas barulhento movimento de pessoas ao redor da praça. Buscamos informações sobre o que ocorria e descobrimos do que se tratava. Era um movimento que buscava uma nova intervenção militar no país. 

Usando o faro jornalístico próprio dos vocacionados por esta arte que é a busca do factual, surgiu a ideia. “Qual aluno se habilita a ir entrevistar estes manifestantes?”, perguntou a professora. Mais do que depressa me ofereci para cobrir aquele ato e fomos ao encontro dos descontentes. Ao chegar ao local onde estavam concentrados, vários cartazes pediam a volta dos militares ao poder. Buscamos um grupo que estava circulando pela praça. “Qual o intuito de vocês fazerem esta manifestação?”, perguntei a elas. “Estamos aqui pedindo a intervenção militar no Brasil, pois o País está entregue aos bandidos e comunistas”, afirmou uma das manifestantes.

Incomodada com a situação, a professora perguntou: “Mas para vocês, o que é o Comunismo?”, disse. Mantive minha discrição de aprendiz e passei a apenas ouvir os fatos que se seguiram. “Você que tem de me dizer o que é Comunismo, sua fascista opressora”, bradou uma das manifestantes. A partir daí, o que se seguiu foi um triste espetáculo de intolerância e desrespeito. Uma pena. “As faculdades de hoje em dia não têm mais professores, e sim doutrinadores. E você é uma doutrinadora, e esses seus alunos estão sendo enganados por você”, disse uma manifestante, que se dizia médica. Não pude terminar a entrevista. Com os ânimos exaltados, temi pela integridade física de minha professora e de meus colegas. Decidimos por abandonar o plano da entrevista e saímos. Voltamos aos trabalhos fotográficos, mal sabendo que o pior ainda estava por vir.

Quando chegamos ao meio da praça, vimos que o grupo de manifestantes passou a nos seguir. Quando chegaram perto de nós, passaram a bradar “Comunistas, doutrinadores, vocês vão acabar com o Brasil!”, gritavam. E, por fim, uma das manifestantes disse diretamente à professora: “Que Deus tenha piedade de sua alma negra, sua comunista! Ao ouvir essas palavras, meus colegas quiseram intervir e o clima esquentou mais uma vez. Permanecemos calados, ouvindo as ofensas daquelas mulheres, respeitando a liberdade de pensamento, mesmo que o nosso não o tenha sido.

Uma grande tristeza abateu meu coração após este episódio. Pensar que, independente de posições políticas, o trabalho do jornalista ainda não é respeitado por alguns. Pensar que, num país tão plural e desigual, onde a educação é a única salvação, os professores ainda são desrespeitados na função de colaboradores na construção da sociedade. Pensar que sou filho de professora e que, naquele triste momento, tive aquela professora como minha mãe. Mãe tem o papel de educar, conduzir, ensinar. Naquele momento, ela exercia esse papel na minha vida. Pensar que, meus colegas que, assim como eu, escolheram o jornalismo como profissão, foram humilhados por gente que eles nem conheciam, pelo simples fato de serem estudantes universitários. Confesso que, ao final, as lágrimas correram nos meus olhos.

Quero aqui ressaltar o meu profundo carinho e admiração por minha professora que, com coragem e altivez dignas de um mestre, soube contornar bem a situação e, no outro dia, já estava de novo, com coragem, ministrando suas aulas. E também aos meus colegas que, mesmo nervosos com a situação, não se deixaram abater. Muitos morreram por nossa liberdade. Muitos foram torturados para que pudéssemos votar. Muitos foram exilados e perseguidos para que pudéssemos ter direito à informação. Enquanto eu viver, lutarei por esses ideais, recordando-me sempre deste triste episódio.