“De quem é esse parque? De quem é essa cidade?” É nossa!

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Situado no bairro Cruzeiro, em Belo Horizonte, bem ao lado da Fumec, o Parque Municipal Professor Amílcar Viana Martins é considerado por muitos um oásis urbano. É provável que muita gente passe diariamente por ele e nem saiba da sua existência. Mas quando a curiosidade fala mais alto, o lugar reserva uma boa surpresa.

Com aproximadamente 18 mil metros quadrados, o espaço conta com uma ampla área verde, brinquedos para as crianças, equipamentos para ginástica ao ar livre e abriga o primeiro reservatório de água da cidade em um casarão tombado pelo Patrimônio Histórico.

Pois bem, não é que se espalhou a notícia de que a Prefeitura poderia desativar o local para transformá-lo em um estacionamento e implantar atividades comerciais, com quiosques e foodtrucks? E os permissionários vão poder realizar eventos e lucrar com isso? E o estacionamento? Vai ser cobrada a entrada no parque? Como assim?

Houve gente que não gostou ou ficou desconfiada, como foi nosso caso. Estamos trabalhando no projeto de Extensão da Fumec, Observatório das Representações da Cidade na Mídia, e o tema de estreia é justamente a ocupação do espaço público. Estamos analisando as notícias que tratam desse tema, como é o caso do parque, um espaço público que todos podem frequentar, sem discriminação, encontrar pessoas, fazer caminhada, descansar, ler um livro, se refrescar do calor, fazer atividades físicas a céu aberto, manifestar alguma ideia.... Por isso precisa ser preservado, principalmente numa cidade que é pensada mais em função dos carros do que das pessoas. Será que perdemos mais uma vez, o parque vai virar estacionamento?

Descobrimos que haveria uma licitação para a exploração privada do parque. O pregão foi publicado no DOM (Diário Oficial do Município) por meio da Fundação de Parques Municipais – FPM, no dia 22 de junho. E a decisão foi tomada sem consulta aos cidadãos e sem estudo de impacto ambiental. Moradores do Cruzeiro entregaram a FPM pedido de impugnação da concorrência, que foi negado. A Associação dos Cidadãos do bairro Cruzeiro – Amoreiro disse que acionaria o Ministério Público para tentar parar a licitação.

Fomos conferir, no dia 27 de agosto, a mobilização que aconteceu no parque, em decorrência da notícia: o medo da privatização e a vontade de lutar contra a descaracterização do local reuniu pessoas de várias idades e regiões de Belo Horizonte, para tentar impedir que a iniciativa privada tome conta do parque e que isso se torne um problema para o bairro.

De acordo com a Fundação de Parques Municipais, a PBH continuará administrando a área, já que somente a exploração dos serviços foi licitada, e não serão cobradas entradas. O jornal Estado de Minas (06/07/2016) publicou que, por meio de nota à imprensa, a presidente da FPM, Karine Paiva, informou que o objetivo da licitação é “incentivar e promover o uso e ocupação dos espaços públicos na cidade”. Mas as pessoas temem perder a tranquilidade do parque e preveem o impacto que a realização de eventos terá no local, além de se preocuparem com as plantas do parque. Quem cuidará delas?

A manifestação contou com a participação de defensores ambientais como a vereadora Marimar Poblet (PSOL/PCB), o candidato a vereador Ed Marte (PSOL/PCB) e o vereador Arnaldo Godoy (PT), além dos integrantes da Amoreiro, Amigos da Rua, moradores da comunidade “Pindura Saia” e muitas crianças.

O dia estava lindo e havia um clima de boa convivência no amplo mirante, com direito a piquenique, placas, cartazes e adesivos distribuídos aos participantes da manifestação. Foi deixado um microfone aberto para quem quisesse se manifestar. Além de brinquedos para as crianças se divertirem na grama, foi feita oficina de arte para que os pequenos pudessem falar o que o parque representa para eles, estimulando, desde a infância, a reflexão acerca do espaço público e da conscientização ambiental. Foi feito também um concurso para renomear o parque, de forma a fazer mais sentido para seus frequentadores: por conta do reservatório de água, o espaço foi apelidado por alguns de “Mirante da Caixa D´água”, ou “Parque da Copasa. A partir dessa brincadeira, os ocupantes poderiam concorrer inventando nomes para o parque.

Palavras de ordem: resistir e persistir. As pessoas precisam agir e se fazer ouvir pelo poder público, para que a cidade não se renda à ganância e insensibilidade daqueles que estão sempre à procura de vantagens econômicas e que pouco se importam com a vida dos cidadãos. A luta é uma por uma cidade em que os governantes se empenhem na disseminação de valores ligados à cidadania para a comunidade, estimulem a presença de todos no espaço público, cuidem desses espaços livres, abertos e de acesso desimpedido para o desenvolvimento de quaisquer atividades de natureza pública, zelem pela boa qualidade de vida do morador da cidade, seja rico, pobre, habitante da zona leste ou de qualquer outra região. Os moradores vão repetir, insistentemente, para toda a  sociedade que o espaço público não pertence a ninguém, mas a todos.