O Observatório das Representações da Cidade na Mídia: para quê?

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A criação do um Observatório das Representações da Cidade na Mídia na Universidade Fumec foi feita com o intuito de aprimorar a formação dos estudantes de Jornalismo e sua atuação futura, sobretudo no que se refere à crítica e à ética no exercício de uma profissão que hoje passa por uma profunda crise, em parte relacionada à não observância dos princípios que regem o jornalismo em uma democracia.

 Um Observatório é um dispositivo institucional de observação criado para acompanhar a evolução de um tema localizado no tempo e no espaço. Esse dispositivo permite a realização de observações e análises - fundamentadas na produção acadêmico-científica e orientadas por uma problemática - que, uma vez concluídas, são disponibilizadas ao público. Hoje os observatórios se multiplicam em torno de temas como a imprensa, a diversidade cultural, a violência, da educação, dentre outros. Aplicados no contexto universitário, podem trazer resultados muito positivos, uma vez que ajudam a preparar futuros profissionais para o exercício da profissão baseado no compromisso com o desenvolvimento de uma mídia crítica, ética e socialmente responsável. Parte-se do princípio de que esses profissionais têm um importante papel a cumprir: a fiscalização do poder público, assegurando a transparência das relações políticas, econômicas, sociais, criando oportunidades para o público se informar sobre o que está sendo feito, como está sendo feito e por quem, dando a conhecer os impactos dessas ações na vida do cidadão e contribuindo com a sua formação, com a expansão de seu repertório, estimulando a reflexão e facilitando a compreensão da sociedade em que vive.

A linha inicial de atuação do Observatório proposto é o monitoramento das representações das mídias locais, adotadas em relação a um tema relevante para a cidade de Belo Horizonte. Representações midiáticas são aqui entendidas como as maneiras de interpretar e pensar a realidade cotidiana praticadas pelos veículos e agências de notícias que resultam em conteúdos públicos, adquirem visibilidade nas entrevistas, reportagens, artigos de opinião, caricaturas, charges, anúncios etc.

Nessa primeira experiência na Fumec, o projeto está vinculado às atividades do Laboratório de Mídias Digitais, que integra o dispositivo de crítica midiática, por meio da produção de conteúdo jornalístico, pelos alunos, para o portal Conecta, bem como da difusão e socialização, nas redes digitais, das reflexões e análises desenvolvidas nos âmbitos do Observatório e da disciplina Tópicos Especiais em Jornalismo. A disciplina, nesse segundo semestre de 2016, incorporou reflexões sobre a crítica de mídia e a esfera pública e os alunos estão acompanhando de perto todos os passos do Observatório. Dois alunos do mestrado em Estudos Culturais da Fumec ajudam no desenvolvimento das atividades do projeto, que coloca em prática a integração entre pós-graduação e graduação. Essa forma integrada e cooperativa de trabalho, conforme acreditamos, pode estimular a realização de práticas inovadoras no campo da graduação em Comunicação Social.

A equipe que atua nessa primeira experiência do Observatório na Fumec é composta por mim, Cristina Leite, professora dos cursos de Jornalismo, Publicidade e do Mestrado em Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade Fumec (MCult), pelas alunas de Jornalismo, Cristiana Corrieri e Joana Spadinger, e com o trabalho dos alunos do mestrado, Valéria Said e Fabrício Terreza. Na primeira reunião da equipe, da qual participou a professora e coordenadora do Laboratório de Mídias Digitais, Raquel Utsch, começamos a pensar sobre o tema específico a ser observado. Depois de discutirmos algumas ideias, foi Raquel quem sugeriu a ocupação do espaço público em nossa cidade como um tema relevante para nosso trabalho. A maioria gostou e esse foi o tema sobre o qual passamos a trabalhar em busca de respostas para as seguintes perguntas: de que modo as matérias jornalísticas que tratam da ocupação do espaço público em Belo Horizonte, na versão online dos jornais Estado de Minas, o Tempo e Hoje em Dia, concebem o tema? Como veem e qualificam os atores envolvidos? Esses jornais têm atuado em favor da cidadania, da tematização do interesse público e do tratamento adequado da informação sobre a ocupação do espaço público em Belo Horizonte?

Nessa experiência inicial, temos procurado, ainda que de forma tímida, praticar a extensão como atividade acadêmica associada ao ensino – nesse caso, ocorrendo simultaneamente à disciplina Tópicos Especiais em Jornalismo – à pesquisa, pela prática das leituras e discussões relativas às temáticas escolhidas, e à aplicação de técnicas de coleta e análise de conteúdo, buscando atender a demanda do cidadão por informação de qualidade. Essa prática cria oportunidades de experimentação da pesquisa e da extensão e, quem sabe, de criação de novos instrumentos de coleta e análise de dados na investigação sobre as mídias.

Para iniciar as atividades do Observatório, foi feito um recorte no objeto adequado ao período de vigência das bolsas de extensão, sem prejuízo para os propósitos apresentados no projeto. Desse modo, estão sendo selecionadas e analisadas matérias publicadas na versão online dos veículos escolhidos, que tratam da ocupação coletiva de espaços de uso comum, em Belo Horizonte, pertencentes ao poder público, totalmente livres (ruas, praças, parques, quadra, jardim, reserva ecológica, prédio etc) ou com alguma restrição ao acesso (igrejas, museus, hospitais, bibliotecas, edifícios públicos, etc), cuja motivação esteja relacionada aos diversos sentidos da cidadania: liberdade individual, liberdade de expressão e de pensamento; direito à justiça; direito de participação no exercício do poder político, direitos relativos ao bem-estar econômico e social, desde a segurança até ao direito de partilhar do nível de vida, segundo os padrões socialmente definidos, o direito à cidade, à educação, à moradia, à saúde, ao transporte, direitos das minorias etc. As apropriações do espaço público explicitam os desejos e as necessidades da população em suas relações com a cidade e devem ser reconhecidas, entre outros aspectos, como reveladoras de necessidades de reestruturações físicas, sociais, políticas, culturais, econômicas, de modo a atender aos interesses do cidadão e permitir adaptações e transformações no uso do espaço.

Em nossa cidade essas iniciativas têm acontecido de forma frequente e de maneiras inusitadas. Nos últimos dez anos ouvimos falar, presenciamos e participamos de várias formas de ocupação do espaço público, explicitando uma demanda reprimida da população pela utilização diferenciada desse espaço. Muitas das iniciativas estiveram ligadas explicitamente aos jovens e à afirmação da participação social cidadã.

O Decreto Municipal nº 13.798, de dezembro de 2009, que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, em Belo Horizonte, foi o mote para a movimentação notável que se formou na cidade em torno do espaço público e seus usos. A Praia da Estação tornou-se o símbolo mais significativo dos protestos que se iniciaram contra atitude tão autoritária, gerando discussões presenciais e vituais que foram além do decreto, tendo como objeto a cidade, chamando todos a ocupá-la. “O decreto era apenas um dos atos do poder instituído dentre outros tantos que vem de outra maneira pensando uma cidade de exclusão. Então isso fez com que outros tantos debates passassem a ocupar as reflexões e as conversas da praia”, me disse um dos participantes dos movimentos. Daí em diante, a questão das ocupações, dos pichadores, da família de rua, do carnaval, duelo de mc´s, moradores de rua, quarteirão do soul, as questões relativas à gestão cultural municipal, segurança pública, a feira hippie, os Mercados do Cruzeiro e de Santa Tereza, o piscinão, dentre outras tantas que ganharam visibilidade. Mais recentemente, novas motivações têm animado as pessoas a sair de casa e usarem os espaços públicos de formas criativas e para fins variados. Só para citar uma delas, muita gente agora vai para a praça praticar o bambolê!

E a mídia nesse processo? Em sua maioria, o divulgou da maneira mais óbvia, como evento de lazer, lúdico, esvaziando seu conteúdo político, que expôs a necessidade de discutir o uso do espaço público e o direito de ocupá-lo.

Aqui no Observatório das Representações da Cidade na Mídia, procuramos fazer nossa parte, incorporando à prática acadêmica o contato mais próximo com a realidade social e promovendo trocas entre nosso trabalho e o que acontece na rua. Acreditamos que com essa perspectiva, abriremos novas possibilidades de reflexão e prática para compreender melhor o mundo em que vivemos e ajudar a transformá-lo num lugar melhor, mais acolhedor e inclusivo.