Devagar, devagarinho

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Entenda o fenômeno do Slow Fashion, movimento que vem tomando a moda de forma rápida e necessária

Em outubro de 2015 o mundo da moda foi pego de surpresa com o anúncio da saída de Raf Simons da direção criativa da Dior. Três anos depois de assumir o cargo na maison francesa e no auge do sucesso, Raf se demitiu da marca por considerar muito grande o volume de trabalho a ser entregue durante o ano. Afinal, eram no mínimo seis coleções: duas de alta costura e quatro de prêt-à-porter que faziam com que Raf vivesse sob a pressão de criar uma coleção completa a cada dois meses.

Essa necessidade de apresentar algo novo o tempo todo iniciou nos anos 2000 com o surgimento do fast-fashion, uma concorrente desleal para as grandes marcas. Enquanto as marcas demoravam seis meses para colocar nas lojas aquilo que era apresentado na passarela, o fast-fashion disponibilizava produtos similares algumas semanas depois. Redes como a Zara e a H&M recebiam novidades semanalmente, o que prejudicava os verdadeiros criadores.

 A rapidez foi intensificada com a chegada das redes sociais e das blogueiras. Pessoas influentes no Instagram e no mundo da moda, como Chiara Ferragni, Anna Dello Russo e Lalá Rudge, iam para os desfiles já usando as peças que seriam apresentadas na passarela, o que gerou nos seguidores um desejo imediato de tê-las, e fez aparecer o “see now, buy now”, com as peças disponibilizadas nas lojas logo após os desfiles.

Essa ansiedade no mundo fashion gerou um caos tão grande que logo começou a surgir um movimento contrário, o Slow Fashion. O movimento feito por grandes marcas e por consumidores preocupados com o excesso de consumo tem ganhado cada vez mais adeptos. Os consumidores, impulsionados pela ideia de gastar menos e melhor apoiaram o movimento que teve adesão de algumas marcas que estavam esgotadas das demandas excessivas do mercado.

Algumas marcas como a do designer americano Alexander Wang abandonaram o calendário tradicional das semanas de moda e passaram a apresentar suas coleções em calendário próprio. Não é só fora do país que o movimento segue forte: no Brasil a Doiselles, da estilista Raquell Guimarães, produz desde 2016, apenas de acordo com a demanda. Para Raquell, não faz sentido ter estoque guardado e nem criar diversas coleções ao longo do ano.

O Slow Fashion também luta contra os estoques: a ideia é que menos peças sejam produzidas em massa para que não ocorra o desperdício. Em 2018 a britânica Burberry queimou mais de R$ 100 milhões em peças de estoque encalhado, o que gerou revolta nos consumidores e no mercado, fazendo-os repensar o consumo.

Aliados à ideia de sustentabilidade, o excesso não é mais permitido e isso já se reflete no mercado: nos últimos anos redes de fast-fashion passaram a fechar grande número de lojas e em setembro passado a gigante americana Forever21 declarou falência no país.

Alguns consumidores e estilistas se questionam se o Slow Fashion veio para ficar, ou se é apenas uma tendência, e a prova de que é possível e necessário está aí. Vale lembrar que um dos maiores estilistas de todos os tempos, Azzedine Alaïa, falecido em 2017, não seguia o calendário tradicional e fazia suas peças em seu próprio tempo. Além de mais tempo para trabalhar nas roupas, Alaïa produzia peças únicas, o que gerava um desejo ainda maior por suas criações. Alaïa é o maior representante do Slow Fashion, antes mesmo do movimento existir.

 

 

Azzedine Alaïa e uma de suas criações (Foto: Patrick Demarchelier)

 

A estilista Raquell Guimarães da Doiselles (Foto: Divulgação)

 

Loja da Forever21 que faliu em 2018 (Foto: Divulgação)