As rodas continuam girando

Blog
Typography

O alívio percorre o rosto dos futuros passageiros quando o ônibus que vai levá-los ao destino se aproxima. A subida para a entrada no ônibus é lenta e entediante. O motorista aguarda para recolher o dinheiro da passagem impacientemente, até as buzinas lembrarem de que cada segundo conta para voltar à casa. 

Os que têm vale-transporte são considerados privilegiados por não terem que enfrentar esta etapa. São os primeiros a encontrarem algum lugar para sentar e descansar dentro do ônibus, de preferência na janela, para “pensar melhor sobre a vida”.

Os assentos preferenciais, destacados pela sua cor amarela e, muitas vezes, ocupados por pessoas às quais a lei não se aplica, rapidamente se tornam disponíveis quando um casal de idosos se aproxima.

 Uma cena um tanto incomum, já que muitos apenas fecham os olhos e ignoram o direito que certas pessoas possuem de ocupar os assentos preferenciais.

“Podem sentar aqui”, dizem dois amigos que vinham da faculdade, que logo voltam a conversar sobre o novo episódio de Game of Thrones, tecendo novas teorias sobre o destino dos personagens.

No outro lado, duas mulheres engatam em uma conversa. 

“Preciso pagar a mensalidade do meu filho. Ela já está atrasada. Não sei como irei fazer”, diz uma delas, cuja expressão é de aflição.  

“O patrão devia pagar as horas extras que ele está devendo pra gente”, a outra completa, não menos aflita. 

Todas as indagações são amortecidas pelo barulho do trânsito que chega a ser, de certa forma, reconfortante. Falta tão pouco para chegar em casa e descansar. 

O ônibus torna-se um ambiente no qual operários dividem o espaço com empresários, fundindo-se em uma massa anônima. Cada pessoa se encontra em uma sua própria bolha, pensando sobre o trabalho, filhos, dívidas, nas horas de sono que talvez vão ter quando chegar em casa.

Em algum momento, há uma competição quase animalesca por um assento disponível, do qual uma mulher havia se preparado para levantar, agarrando suas sacolas pesadas, carregadas de compras feitas em um supermercado. 

Dois homens se enfrentam, como se fossem pistoleiros de algum filme de faroeste norte-americano, um aguardando o próximo movimento do outro. A disputa é finalizada quando, sem os dois perceberem, outra mulher se senta no assento da anterior.

Ao longo do percurso, muitos passageiros terminam a viagem ao descer do ônibus. Alguns vão encerrar o trajeto em alguns quarteirões dali, chegando em casa. Outros vão para outro ponto de ônibus, aguardando o segundo ou, até mesmo, o terceiro veículo para concluir a sua noite.

Aos que restam, uma conversa no WhatsApp, a leitura de um livro ou revista, ou até mesmo um cochilo vai fazer o tempo passar mais rápido.

Enquanto isso, as rodas continuam girando.