A vida segue

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Os 452 quilômetros da saudade são percorridos há completos três anos e cinco meses de uma rotina nada tranquila. Oito intensas horas de viagem, o veículo percorre por uma estrada cheias de curvas, ladeiras e retas infinitas - que aumentam a ansiedade a cada cidade alcançada, a cada quilômetro rodado, a cada placa indicativa. 

O destino se aproxima, ao Nordeste da capital mineira, e como todo bom mineiro diz: “vai reto toda vida”.  

Troco de posição na poltrona por algumas dezenas de vezes, o sol ainda aponta na janela e a lua nem sinal de brilhar. O sono bem que insiste em fechar minhas pálpebras, mas ouço uma conversa entre senhorinhas - espio entre o banco como quem melhora audição com os olhos - em seus rostos trazem a marca da vida, mãos pequenas e enrugadas que gesticulam delicadamente a medida que as palavras saem. 

Percebo uma troca de receita, talvez de um bolo, volto à posição inicial afinal no que se refere a culinária o meu único interesse é comer e tenho pra mim que a cozinha não é para amadores. Do fundo surge uma voz rouca, de um homem acima dos cinquenta que reclama da demora ao chegar no destino. Reviro os olhos e afirmo, em um papo entre tico e teco, que o importante é chegar. 

Segue indo toda vida… 

A lua “desce”, agora na estrada os faróis são como as estrelas cadentes que cruzam o céu em sua infinidade azul-marinho. E por falar em céu, aproveito para admirar as estrelas, que são ofuscadas na cidade por tanta luz e correria. Nada de sono. Metade do caminho já foi percorrido, respiro aliviada. Coração já começa a dar pulinhos, de quem reconhece o real sentido da palavra lar - aquece e logo fica mansinho como quem diz “estou chegando lá”. 

Ao estacionar na rodoviária todos os quarenta e poucos passageiros se levantam mais que depressa, um “graças a Deus” ecoa dentro do veículo, antes mesmo da porta se abrir já existe uma fila - como um ritual praticado nesse vai e vem intermunicipal, libero o meu cinto de segurança e sem pressa alguma aguardo a minha vez para deixar a fiel poltrona que me acolheu durante as longas horas de viagem. Cinco degraus e estarei ainda mais próximo do lar. 

Com as malas em mãos, peito erguido e olhos atentos, busco por um táxi que me leve ao destino. Disputando com uma dezena de pessoas, me lanço na frente de alguns e consigo o transporte, puxando as malas com uma mão e acenando com a outra. Com a voz um tom acima do usual pergunto “tá livre?” - na minha cabeça tico e teco novamente me repreendeu dizendo que livre é uma condição da alma, concordo plenamente, mas acabo por ficar confusa - “opa” - respondeu o senhor de cabelos brancos e pele negra, já abrindo o porta malas. A minha sobrancelha direita se levanta, involuntariamente. 

Mais quinze minutos até o lar, mas quem esperou por oito horas, os quinze minutos não são nada. O balançar do carro é embalado pelo som da rádio que está sintonizado no FM, o senhor puxa assunto sobre o tempo com aquele jeito de falar característico da cidade - rápido e emboladinho - após um suspiro de quem não gosta da atmosfera do silêncio, olha pra mim através do retrovisor dizendo que “o calor aqui não dá trégua”. Imagino que o dia dele tenha sido cansativo, assim como o meu, lanço um olhar animado e entre um sorriso meio bobo, meio sem graça, dou corda para o papo. 

E que bom papo aquele senhor tem, e apesar de não perguntar seu nome, conversamos sobre o clima, política da cidade e ouvi alguns resmungos sobre as condições do asfalto da cidade. Seguindo pela longa avenida, peço que ele desça o beco, “próxima à esquerda, por favor”, ele repete baixinho e em seguida vira suavemente o volante como solicitado. Ao chegar na casa amarela do portão castanho, ele desliga o carro e me informa o valor, pago e agradeço pela viagem e desejo-lhe boa noite, o senhor com sorriso agradece e começa a dar ré no carro. 

Sou recebida com um abraço gostoso e apertado, de quem me gerou por nove meses e se pudesse me apertava tão forte que voltávamos a ser uma só. “Bem vinda de volta, a mamãe estava com saudade”- sempre com o mesmo sorriso, vai me levando até a cozinha para me preparar um lanchinho - e diz “é moleca, você emagreceu”, entre risos. Pergunto por Afonso Ricardo, o gato obeso de dez anos, intitulado com meu filho que, em seguida, vem todo rebolativo se esfregando nas malas como quem diz “oi”. 

Passam as horas, o tempo corre.. quando vejo já é hora de partir. 

Cinco degraus, poltrona dezessete, tapa olhos e fone de ouvido. O vai e vem se repete. Já são completos três anos e cinco meses longe do lar - me preparando para voar cada vez mais longe. Mais alto. 

O “até logo” nunca é “logo”. O ônibus sacoleja por oito horas, o silêncio da noite repousa sobre o veículo que cruza a estrada como estrela cadente. Tudo de novo. Um looping. E a cada dia a certeza de que lar não é construção, não é ser físico - lar é abraço, é onde a gente quer estar.