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O barulho da chuva penetrava os fones de ouvido do garoto. O som da água se chocando contra a superfície do ponto de ônibus enquanto ele ouvia A$AP Rocky cantar sobre amor e LSD trazia a ele uma estranha sensação de déjà vu. Alguém que o observasse do outro lado da avenida não seria capaz de dizer se aquela era a primeira ou a milésima vez que o garoto seguia aquele ritual.

Ele sempre gostou das formas curiosas que a fumaça tomava em dias como aquele. Nunca soube dizer o motivo, mas a chuva tornava os tragos mais saborosos. O ônibus virou a esquina enquanto o garoto inalava a fumaça uma última vez antes de jogar o cigarro longe com um movimento ágil de dedos.

- Bom dia motor - resmungou distraído, sem obter resposta.

Como sempre, o ônibus estava vazio no início do percurso. Ele nunca teve problemas em conseguir lugar para sentar-se na janela que dava vista para o passeio. Gostava de observar as pessoas na rua durante o caminho até a faculdade. Com o barulho da chuva mais longínquo, ele agora escutava Gustavo Ribeiro versar sobre um aniversário de sobriedade. As músicas do carioca eram um desafio, ele sempre precisava escutá-las mais de uma vez para entender o que o rapper queria dizer. Pegou o celular.

Nada de novo no velho. Os mesmos rostos fazendo as mesmas coisas, tentando impressionar as mesmas pessoas. Aquele mundo virtual às vezes parecia bobo. Não se engane, ele se considerava parte daquilo. Nunca foi um outsider - por falta de um termo melhor em português - e gostava disso. Crises de identidade não eram seu forte.

Sentiu um tranco quando o ônibus encostou para uma senhora entrar. Ele calculou que ela deveria estar na casa dos 60 enquanto, do  último lugar do Mercedes, assistia um cachorro embrenhar o focinho em meio a uma lata de lixo em frente à papelaria onde comprara o primeiro caderno escolar. Quanto tempo fazia?

- Bom dia Carlos - ele conseguiu ouvir a senhora cumprimentar casualmente.

- Bom dia dona Cela, tudo bem?

Ele falava, afinal.

O garoto dormiu. Estava cansado devido ao futebol da noite anterior. Quando acordou, ele poderia jurar que sonhou com cortinas brancas e praias prateadas. O que isso significava, porém, ele nunca soube.

Outro tranco, outro passageiro. Dessa vez não se interessou em olhar. O barulho da chuva continuava longe quando ele se levantou e deu sinal. Nesse momento lembrou de quando era criança e não alcançava a corda. Não conseguiu impedir que um sorriso bobo tomasse conta do rosto por um breve momento.

Enquanto subia o tobogã da avenida do Contorno, pessoas com ar de urgência o ultrapassavam a passos largos. Homens, mulheres, adultos e crianças. Sempre atrasado e nunca apressado, não tem jeito, ele se lembrou da mãe dizendo. A pressa constante das pessoas o irritava.

De fato ele estava atrasado. Sua aula começara há 15 minutos. Não fazia muita diferença. Enquanto os atarefados passavam com copos titânicos de café, olhos vidrados nos relógios e pensamentos sempre no amanhã, ele observava. Talvez o que mais gostasse de fazer no dia a dia: observar. Pessoas, sons, animais, plantas. Muito lhe escapava, mas muito percebia.

Com a chuva agora em segundo plano, a luz do sol o incomodava. Não que ele gostasse de dias nublados, mas o raiar fazia seus olhos arderem pela manhã. Se lembrou de quando o médico o contou que sofria de fotofobia e deveria usar óculos escuros sempre que possível. Nunca chegou nem mesmo a cogitar a ideia. 

Virou a esquina e avistou a silhueta do prédio. Passou pela pichação que tinha gravado na fachada da faculdade durante uma noite da qual não se lembrava muito bem.

A lanchonete estava sem fila.

- Bom dia - ele ainda resmungava. A garçonete não respondeu. - Um café por favor.

A mulher o entregou um pequeno copo de isopor cheio de um líquido mais negro que petróleo. Ele tinha lido, não sabia exatamente onde, que copos de isopor causavam câncer, principalmente quando serviam bebidas quentes. Deu um gole generoso e sentiu o calor se espalhar pelo peito.

Seguindo mais um ritual de todas as manhãs, foi até a parte de trás da lanchonete, onde um pequeno mirante revelava a Zona Norte da cidade e incontáveis montanhas preenchiam o horizonte com uma imponência natural. Ele fumava mais um cigarro enquanto BK' falava sobre amores, vícios e obsessões. Um filhote de gato emitiu um som choroso em direção ao garoto, que pousou o copo ao pé da cadeira. Enquanto observava o animal beber o líquido, ele pensou que preferia cachorros.  

Mais uma vez os dedos fizeram o cigarro voar. Poderia ter jogado no lixo, pensou, enquanto dava as costas às montanhas. Era hora da aula.

Subiu dois lances de escadas, cruzou o vão que dava para o corredor principal do prédio de Ciências Humanas e engoliu em seco. Ela usava um jeans rasgado na altura dos joelhos e um moletom vermelho com as mangas puxadas para cima. Um capuz ocultava parte do rosto, que olhava fixamente para o chão enquanto ela andava apressada rumo à sala de aula. Um chaveiro que pendia da bolsa balançava para frente e para trás, parecendo seguir os movimentos curtos e rápidos dos pés da garota. Quando ela chegou próxima o suficiente para que ele sentisse um aroma de condicionador de pêssego, um faxineiro que observava a cena de longe percebeu o tórax do garoto recuar repentinamente quando o ar deixou os pulmões por alguns milésimos de segundo. Agora, Bill Withers dizia que o sol não nasce quando ela está longe.

Ele a observou. 

Acendeu um cigarro.