Arcângelo Maletta: diversidade em um só espaço

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Fundadado ainda na década de 1950, o espaço se revoluciona e marca presença no mapa cultural da cidade

Fundado em 1957, construído sobre o antigo Grande Hotel, o edifício Arcângelo Maletta, popularmente conhecido apenas como Maletta por seus frequentadores, se destaca cultural e gastronomicamente na cidade de Belo Horizonte. Batizado com o nome de seu fundador, possui uso tanto comercial quando residencial.

Localizado entre a Rua da Bahia e a Avenida Augusto de Lima, o Maletta tornou-se um ponto de referência da cidade de Belo Horizonte. Próximo à Imprensa Oficial de Minas Gerais, ao Mercado Central, o Museu Inimá de Paula e o Centro de Referência de Moda, visto por fora, mais parece uma grande caixa de sapatos colocada de pé. Porém, para os que se atrevem à passar por uma de suas duas portarias, existe uma infinidade de lugares, serviços, pessoas e histórias.

Agregando 1.108 imóveis no total, divididos entre apartamentos residenciais, salas comerciais, lojas e sobreloja, encontram-se desde papelarias, escritórios de advocacia e contabilidade, aos famosos sebos, bares e restaurantes, como o Cantina do Lucas, tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural em 1997.

Definido pelo compositor e letrista Fernando Brant como "um lugar de aconchego, para os mineiros universais", é um famoso ponto de encontro de idealistas e pensadores de esquerda, que tiveram como aliado o garçom "Seu Olympio", falecido em 2003, aos 84 anos. Dizem as histórias que "Seu Olympio" (que, curiosamente, entrou para o “Guiness” como o garçom mais antigo da profissão, com mais de 70 anos de serviço), ficou com os dedos curtos de tanto bater na madeira das mesas dizendo "Fascistas não passarão", em referência ao lema dos opositores comunistas ao ditador espanhol Francisco Franco.

Riqueza de imagens, sabores e pessoas

Desbravar o Maletta é uma tarefa desafiadora e para muitos, prazerosa. Nunca se sabe o que você irá encontrar em seus corredores. Serviços de alfaiataria, barbearia, papelaria, opções de almoço, para os mais diferentes gostos e bolsos.

Subindo a desativada escada rolante, que, curiosamente, foi uma das primeiras do Estado de Minas, damos de cara com diversos sebos e livrarias. Entre eles, se destaca o 7ªArte Maletta, administrado pela estudante de Jornalismo Fernanda Cavalcante. Segundo Fernanda, a proposta da loja é atender ao público exigente e diferenciado que ali frequenta. Em seu acervo, obras que vão desde o soviético “O Encouraçado Potemkin” à “Os Oito Odiados”, último lançamento do diretor Quentin Tarantino.

A variedade cultural é refletida nas lojas e serviços, que vão além dos tradicionais sebos, e chamam a atenção dos visitantes, como o estúdio de tatuagens BH Ink, localizado na sacada da Avenida Augusto de Lima, e a Real Vandal, loja de graffiti de Louise Líbero. “Aqui tem muita diversidade cultural. Nós somos uma loja exclusiva, e, às vezes, as pessoas que vêem ao Maletta procurando livros, discos, acabam conhecendo a loja, e se interessando, conhecendo o spray, o graffiti. É legal estar em contato com outras pessoas, de outras culturas”, afirma Louise.

Entre os personagens que encontramos no Maletta, está Sebastão do Nascimento, mais conhecido como “Tião”, proprietário de um dos sebos mais tradicionais do edifício, há aproximadamente 15 anos no local. Para Tião, trabalhar no Maletta é “poder fazer o eu gosto, depois de muitos anos”. Ele, que sempre trabalhou com discos de vinil, viu no Maletta a oportunidade de unir o ofício com a música e a arte.

Sobre o público, Tião diz que o Maletta “é eclético, né. Quem frequenta é advogado, juiz, deputado, vagabundo, ‘maloqueiro’, estudante, professor. Aqui é um espaço bem democrático”. Segundo ele, o espaço mudou ao longo das décadas. Na década de 60 até a metade dos anos 70, a maioria dos estabelecimentos era formada por bares, que foram substituídos pelos sebos, e agora, há a retomada dos bares no edifício.

Com muito bom humor, nos conta uma das inúmeras (e inusitadas) histórias ocorridas no Maletta. Certa vez, devido à um atraso de um voo do Rio de Janeiro para BH, sua loja não, e espalhou-se a notícia de que o mesmo havia morrido. “Ligaram pra minha irmã, perguntaram pra ela quando que seria o enterro, e ela veio igual doida pra cá, e ela não sabia de nada. Eu cheguei aqui, e o dono do bar que eu frequento aqui disse que ia fechar o bar. Ele nem fez almoço! Até processou o porteiro que falou com toda veemência que eu havia morrido!”.

À noite, o prédio ganha ares diferentes. Os sebos e as lojas dão lugar aos bares e cafés, recebendo pessoas das mais diferentes religiões, posicionamentos políticos, profissões, raças e orientação sexual. Entre as opções mais interessantes e diferentes, escondido entre os corredores, está o Las Chicas Vegan. Criado pela chef Gabi Andrade e o bodypiercer Marcos Cabelo, surgiu como uma opção saudável, “que não seja elitista, com preço acessível, comida boa”, como pontua Gabi, comprometido com a política de inclusão, o empoderamento feminino, a culinária vegana e LGBT.

Outro detalhe que chama a atenção é a convivência entre os bares e restaurantes. Segundo Gabi, o Maletta “é uma comunidade, onde você vê pessoas das mais diversas classes sociais, gêneros”, imperando a cooperação e ajuda entre eles. Cozinheira e sócia-proprietária do Nine Lounge Bar, Silvane Peixoto diz que “é um prazer enorme. Estamos aqui já faz anos, e a cada dia que passa a gente aprende mais, e além da variedade gastronômica, cada um busca seu espaço, cada um respeitando o outro, cada um ajudando o outro. É uma família. Tem comida para todos os gostos, bolsos”.

Entre os frequentadores, é quase um consenso a capacidade do Maletta em abrigar tantos grupos diferentes dentro do mesmo espaço. Para o publicitário Hebert Mapa, isso dá um charme especial ao lugar: “Você pode ser de qualquer etnia, sexualidade, até bandeira política, que o Maletta tem um espaço certo pra você. Essa é a grande diferença daqui pra qualquer outro ambiente. Da porta pra dentro, qualquer um pode vir e se sentir à vontade”.

A jornalista Carolina Lobo também enfatiza a abrangência de públicos do local: “Mesmo que essas tribos, esses grupos, não se misturem, já é um grande feito eles conviverem no mesmo espaço geográfico, de maneira harmônica. Fica de exemplo pro dia a dia da nossa sociedade!”, salienta.