O exemplo peruano

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Em março de 2006, o cozinheiro Gastón Acurio proferiu o discurso inaugural do ano acadêmico da Universidade del Pacífico, em Lima, Peru, convidado pelo então reitor, o economista Felipe Zevallos. O resultado do insólito convite foi, além dos calorosos aplausos da audiência, uma enorme repercussão pela internet – converteu-se em viral antes mesmo deste conceito existir. Mas o que teria esse discurso de tão extraordinário?

Gastón encorajou os peruanos a acreditar em si mesmos no difícil momento que o país atravessava, econômica e politicamente. E pediu aos jovens, em uma época de grande evasão de cérebros, que não deixassem o seu país.
Passados dez anos, a premiada marca Astrid & Gastón, que representa a gastronomia peruana de vanguarda do inventivo chef, capitaneia uma rede de 52 restaurantes em 11 países diferentes. Gastón, 48 anos, filho de um eminente político de família tradicional cusqueña, largou o curso de direito na Espanha para dedicar-se à gastronomia. Cursando o famoso Cordon Bleu de Paris conheceu a alemã Astrid.
Retornando ao Peru, o casal não perde um só dia na batalha para transformar a gastronomia peruana em uma das preferidas do mundo, ao lado da francesa, da italiana e da japonesa. Sua rede de restaurantes valoriza os pequenos produtores, os produtos típicos e a diversificada culinária do Peru.
O La Mar tornou o ceviche internacionalmente conhecido, o Tanta tem um cardápio delicioso de comida caseira, o Panchita é especializado em comida criolla, a famosa anticuchería (espetinhos), o Madame Tusan apresenta a exótica comida chifa ou chino-peruana e o Papacho’s é uma rede descolada de hambúrgueres, populares na ruas de Lima.
Gastón ainda arranja tempo para escrever - já são 25 livros publicados - sendo que o “500 anos de fusão” foi eleito, em 2008, o melhor livro de culinária do mundo pela britânica Gourmand World Cookbook Awards.
No curto espaço de dez anos, Acurio, ao lado de outros chefs premiadíssimos, a exemplo, Mitsuharu Tsumura do Maido, Virgílio Martinéz do Central e Rafael Piqueras do Maras, transformaram Lima, uma cidade sem interesse turístico relevante, no melhor destino gastronômico do mundo segundo a World Travel Awards, de Londres.
Enquanto isto, Belo Horizonte, porta de entrada para nada menos do que quatro Patrimônios Mundiais da Unesco, bate recorde em fechamento de bares e restaurantes e seus hotéis passam por uma crise sem precedentes. Não é por falta de tradição gastronômica.
No entanto, a comida mineira vem sendo completamente desvalorizada em nome de uma culinária internacional pasteurizada, com raras exceções de cozinha de autor. A cidade tem todos os requisitos para se transformar em uma destacada atração gastronômica no cenário nacional, quiçá internacional. Porém, falta não só a visão de se valorizar a culinária regional como o nosso grande diferencial quanto carece de uma política municipal adequada ao funcionamento de bares e restaurantes em uma metrópole que se quer competitiva como destino turístico.

Artigo originalmente publicado na edição Nº 335 do jornal MG Turismo.