Filhos da ditadura

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Olhos brilhantes, vozes altivas e movimentos enérgicos. São essas as características presentes em relatos nostálgicos sobre o Regime Militar. Pessoas sentadas ao redor de uma mesa, entre brioches e cafés, memorando o tempo que acreditavam ser a pintura de uma época pacífica e necessária – a intervenção dos militares contra o comunismo no Brasil. 

A intervenção teve seu início com o golpe militar de 31 de março de 1964, resultando no afastamento do Presidente da República João Goulart e a posse de poder pelo Marechal Castelo Branco. Criada por lei aprovada no Congresso em 2011 e instalada em 2012, a Comissão da Verdade teve como tarefa legal apurar e esclarecer casos de graves violações de direitos humanos praticadas entre 1946 e 1988. O relatório final da Comissão, emitido no dia 10 de dezembro de 2014, listou o total de 434 mortos e desaparecidos, além de 210 vítimas que continuam desaparecidas, sendo que uma pessoa do conjunto de desaparecidos foi localizado pela Comissão e 377 agentes de Estado apontados como responsáveis pelas graves violações. 

Noemi Carvalho, de 70 anos, morava em Itajubá quando tudo aconteceu. “Eu me lembro dos dias anteriores da tomada, eu iria fazer 15 anos naquele ano, no mês seguinte. Eu já estava no primeiro ano técnico de química. Me lembro do movimento, sempre fomos muito ligados em política, a cidade era estudante e tinha muita movimentação política por causa disso. Sempre teve comícios na época de governo, então, todo mundo participava da vida política, crianças... Todo mundo estava ali junto. Eu me lembro que o povo na rua estava desesperado. Era uma cidade do sul de Minas, interior, mas o povo estava por dentro. Meu irmão chegou correndo de manhã, ele sabia de tudo, mesmo sendo mais novo que eu. Ele deveria ter 13 anos na época. Ele chegou correndo e disse: “As tropas estão se encontrando e vai ter um golpe, o exército vai tomar o Brasil”.

A senhora toma mais um gole de café, come um pedaço do pão doce e respira fundo. É um tema que causa muita ansiedade, ela diz. Noemi prende o cabelo castanho com uma presilha e procura os olhos do marido do outro lado da mesa. Ele escuta atentamente, aguardando a sua vez de relatar suas próprias memórias.

“Aquilo pra gente”, ela continuou, “que viu Brasília ser construída, acompanhou a confusão da renúncia do Jânio, viu Getúlio morrer, viu João Goulart... meu pai estava desesperado, dizia que iríamos embora dali. Começou a ter passeatas pelas ruas da cidade, de todo tipo que é gente, que não sabíamos de onde tinha surgido aquilo. Essas pessoas gritavam: “Ninguém mais paga nada, ninguém mais paga escola, tudo é nosso, nós vamos invadir as casas!” ... e o povo ficou desesperado, porque ninguém, disse
Elildo Carvalho, sabia que estava acontecendo. Só tinha chegado uma mensagem que o comunismo tinha chegado no Brasil. As mulheres rezavam, era uma coisa assustadora”.

“E no dia que aconteceu, dia 31 de março, eu nunca vou esquecer. Eu morava na rua Nova, em Itajubá, e passou na televisão. Eu me lembro das pessoas chorando, as mulheres fazendo“sinal da cruz”, chorando na rua... Não se tinha informação igual hoje, com WhatsApp e tudo mais na mesma hora, mas existia o 'extra” na televisão. 'Atenção, atenção! Extra!'... Só aparecia a voz, como um plantão, era desesperador. Me lembro de todo mundo pulando, meu pai pulando de alegria... Depois, no período seguinte, as coisas foram diferentes. Com 19 anos, conheci meu marido, em pleno Regime Militar. Eu viajava sozinha para o Rio de Janeiro, para Copacabana com minha irmã, passeávamos em todo lugar... Nunca teve um perigo. Hoje tenho pavor de pensar em ir para o Rio. A gente ficava na praia, tudo maravilhoso”.

As recordações continuam.

“Casei no Regime Militar, fiz faculdade de Química na PUC. Nunca vi ninguém perto de mim, nenhuma pessoa, ser presa ou torturada. Nem na minha faculdade ou na federal, que eu frequentava por causa do meu marido. Minha irmã, meu cunhado, os irmãos de meu marido, todos estavam na faculdade... E éramos da folia. A gente saia de madrugada pra fazer serenata nas casas, ver música, ver ópera. Foi o melhor tempo da minha vida. Eu passava na praça Raul Soares, não tinha ninguém roubando... A gente subia a Augusto de Lima todinha de mão dada para tomar Milkshake no Xodó, na praça da Liberdade. A gente estudou, formou, participávamos de muita coisa, passávamos a noite cantando... Eu não via onde que os militares estavam, a polícia nunca apareceu pra gente, e olha que eu e meu marido éramos muito loucos ... mas as ruas eram pacíficas”.

O marido de Noemi, Elildo Carvalho, segura as mãos da esposa, um sorriso discreto despontando em sua boca. Ele parte um biscoito de polvilho e olha fundo em meus olhos antes de começar.

“O Brasil estava passando por uma situação que precisava de uma intervenção. Quem desejou a intervenção foi o povo. Não foi uma imposição de uma ditadura, foi um clamor popular que levou as forças armadas a tomarem aquela posição e fazer uma intervenção", acredita. "Foi uma época muito boa, havia muita produtividade na indústria, na construção civil, grandes obras foram feitas. Eu me lembro na escola de engenharia, que o mercado na área da gente estava bem ativo. Eu acho que foi uma época boa”.

Ele nos conta que tinha 16 anos quando o Regime começou, pouco depois entrou na Universidade para cursar Engenharia e vivenciou diversos processos no ensino superior. Nascido em Campina Grande, na Paraíba, Elildo morou em Recife durante a infância e se mudou para Belo Horizonte, onde, como um garoto de classe baixa, ele viveu na periferia. Seu interesse por política sempre existiu. Na época, procurou o deputado Atos Vieira para discutir sobre as guerrilhas e manifestações que estavam acontecendo.

“Eu acompanhava os movimentos estudantes. As pessoas não sabiam nem o que estava acontecendo. Me lembro que, quando acabava a aula na escola de engenharia, todo mundo corria para a Praça da Estação, com tinta e pincéis para pintar nos ônibus “abaixo a ditadura”, só que eles tinham pouco tempo até o exército chegar. Eu não participava, eu ia pra casa. Eu corria com os livros debaixo do braço, enquanto eles corriam com as latas de tinta. Uma vez perguntei ao meu colega o motivo de pintar os ônibus. Ele me respondeu: “Sei lá, todo mundo tá indo, eu vou também”, disse sorrindo. Muitos eram massa de manobra, não sabiam o que estavam fazendo. Para mim, naquela época e o ambiente em que vivi, o que falam de uma revolução violenta e opressiva não aconteceu”, afirmou ainda.

Os relatos são detalhados. É contada uma vertente contraposta à obscuridade vivenciada por outras centenas de pessoas. Esmeralda Campelo, de 91 anos, afirmou que vê o momento diferente do testemunho de sua filha, Alba Campelo, de 69 anos.

“Eu não gostava da época. Impedia muitas vezes a expressão de cada pessoa. Fica ali um governo que quer dominar todo mundo, né? Não tem muita liberdade. Eu senti essa repressão à liberdade”. Mais uma colherada de canjica. Uma raspada do metal no prato de cerâmica. Esmeralda tem o olhar longe, parecendo rememorar. Ela pisca, uma, duas vezes e sorri. É tudo que vai dizer.

“Meu pai sempre reclamava de falta de dinheiro”, contou Alba. “Isso me incomodava. Eu ficava criando em minha cabeça um lugar em que não existia a tal da inflação. São lembranças minhas. Da época de 64, não consigo pensar em nada que mudou em nossa vida, que atrapalhou, só me lembro de sair à noite, de voltar das aulas sozinha, me lembro de ter liberdade para andar sem medo".

Quantas versões são possíveis para contar a mesma história? Dezenas? Centenas? O cheiro de café enche a sala. Os olhos verdes de Esmeralda encontram os meus. Milhares.

 



Elildo Carvalho / Foto: Ana Staut

Noemi Carvalho / Foto: Ana Staut

Esmeralda Campelo / Foto: Ana Staut  

Alda Campelo / Foto: Ana Staut

 

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