Um grito silencioso de dor

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“A enfermeira me mandava parar de gritar, dizendo que na hora de fazer o meu filho, com certeza eu não havia gritado. Depois disso, passei a só gemer, bem baixinho. Eu só tinha 19 anos”. O ano era 2002. L. estava esperando seu segundo filho e, apesar da pouca idade, sabia bem o que queria: que seu bebê nascesse saudável e pudesse crescer feliz. O que ela não sabia é que o caminho até poder carregá-lo nos braços seria longo e muito doloroso.

Depois de três dias sofrendo com as contrações que apertavam seu ventre continuamente, L. se encaminhou ao hospital, onde esperava encontrar conforto e cuidado para as dores que tanto a afligiam. O que ela encontrou, nos indiferentes e frios corredores do hospital, foi exatamente o oposto.

Grávida de 41 semanas, L. foi obrigada a reprimir os urros de dor que insistiam em sair de sua garganta. Sem que tivesse o apoio que precisava naquele momento, ela insistiu. Sozinha, vulnerável, exausta e prestes a viver um dos mais importantes momentos de sua vida. Diante da médica que aparecia à sua frente, que a paciente acreditava ser seu salvo-conduto, L. se viu, mais uma vez, sendo tratada de forma desumana.

Um parto anormal

Logo que entrou no quarto, sem se sensibilizar com a cena da jovem mãe com dores, cansada, suada e visivelmente abalada pela falta de cuidado que vinha recebendo até aquele momento, a médica reclamou: “Você me tirou do meu descanso noturno”. Novamente, a benção de trazer uma criança ao mundo era, para as outras pessoas que ocupavam aquela fria sala, com paredes pintadas de verde-claro, um estorvo.

“A médica me mandou sentar em uma daquelas cadeiras ginecológicas. Eu obedeci, mas sentia que já não teria mais a força necessária para parir meu filho”. O modo como a médica agia fazia com que L. se sentisse novamente uma criança indefesa, com medo dos médicos, dentistas e enfermeiros que ela via como grandes vilões, mas que só tentavam fazer com que se sentisse bem. Agora, ela não era mais uma garotinha, mas o terror se espalhava por cada centímetro de seu corpo, arrepiando cada um de seus pequenos pêlos.

A anestesia local aplicada pela médica não lhe deu nenhum alívio. Logo L. sentiu sua pele sendo cortada, uma sensação que, até hoje, 17 anos depois, ainda causa arrepios de pavor. Ela protestou, disse que a anestesia não estava fazendo efeito, mas a médica não largou o bisturi. O corte foi até a coxa esquerda da garota, que chorava de desespero, medo, tristeza, dor.

O tão esperado momento de ver o seu filho sair de dentro dela foi encoberto por uma cena que mais lembrava um filme de horror. Logo depois da obstetra tirar o filho de seu ventre, L. desmaiou de dor.

Por um segundo, ela pensou que seu pesadelo havia acabado. Depois de tanto sofrer, poderia ir para casa curtir seu recém-nascido, apresentá-lo ao irmão mais velho, continuar sua vida com a família. Mas não foi o que aconteceu. Devido ao corte no músculo da perna esquerda, L. ficou sem andar por dois meses.

Além de debilitada, impossibilitada de caminhar e com um filho recém-nascido nos braços, L. sentia vergonha. Tinha vergonha de não ter conseguido parir, de ter passado por tudo aquilo. Sentia-se culpada pelo que tinha acontecido com ela. Durante anos, a menina, que tornou-se mulher ainda mais depressa depois do trauma sofrido aos 19 anos, recusava-se a falar sobre o que havia acontecido. “Na época, ninguém falava sobre violência obstétrica ou sobre parto humanizado. Essas coisas não eram tão comentadas como são hoje”.

“Quando recebi a notícia de que estava grávida de meu terceiro filho, fui tomada pelo pânico. Entrei em depressão”. Depois dos nove meses de uma espera tensa, em que L. sofria diariamente o pânico de reviver as cenas de horror ocorridas em 2002, os médicos deram a notícia de que havia a possibilidade de fazer uma cesariana. Finalmente, L. teve um parto digno do momento no qual ela se encontrava. Ela pôde se conectar em cada minuto, com o apoio da equipe médica e aproveitando, apesar de toda a dor, a delícia de poder dar à luz a um filho. 

Violentada duas vezes

A violência sofrida por D., hoje com 28 anos, não ocorreu apenas no final de sua gestação. A própria concepção já havia sido violenta. Com 20 anos, a garota foi estuprada. Apesar da triste história por trás do embrião que crescia em seu ventre, D. decidiu seguir com a gravidez e tratar aquele bebê com todo o carinho que houvesse no mundo. A equipe médica envolvida em seu parto, porém, não possuía o mesmo compromisso.

“Quando cheguei no hospital, me colocaram no soro e tentaram induzir o parto por 12 horas”. Acompanhada pela mãe e pela amiga, que seria madrinha do bebê, D. andava, por orientação médica, praticamente nua pelos corredores do hospital. Por mais estranho e até humilhante que aquilo pudesse parecer, aquele seria apenas o prelúdio para a hediondez que seria seu parto.

Sozinha, já que os médicos não permitiram que sua mãe a acompanhasse, D. seguiu para o bloco cirúrgico, onde teve toda a sua roupa retirada. Enquanto respirava fundo tentando se acalmar, a jovem ouvia das enfermeiras que não estava sentindo nada, mas que quando o parto começasse ela veria a verdadeira dor. Ela lembra que a sala estava cheia de estudantes, o que poderia ser um procedimento normal. Mesmo assim, ela se sentiu envergonhada de estar completamente nua na frente de todas aquelas pessoas. “Toda hora alguém chegava e enfiava a mão em mim, sem ao menos pedir licença. Me senti como um rato de laboratório”.

Depois de aplicar a anestesia, o médico disse à sua paciente que algo havia dado errado e que ele havia perfurado algo entre as vértebras e que ela teria sequelas. “Não me lembro exatamente do termo que ele usou. O que ficou guardado na minha memória é que ele disse isso rindo”.

Foram cinco ou seis horas de contínuas invasões e desrespeito ao corpo da jovem mãe que, apesar da pouca idade, já havia sofrido mais violência do que grande parte das pessoas. “Eu chamava pela minha mãe, pedia para que parassem, mas eles (os médicos) continuavam lá me abrindo enquanto eu estava nua”. Sentindo dor de cabeça e implorando para que o anestesista fizesse algo, D. ouviu, com deboche, o médico dizer que estava fazendo drama porque ele havia dito que ficaria com sequelas. A recomendação dada pelo anestesista foi que tomasse um Dorflex.

O demorado parto foi ainda mais traumático após diversas tentativas de acelerar o processo fazendo a Manobra de Kristeller, proibida em 2017 pelo Ministério da Saúde e que consiste em empurrar a parte superior do útero com as mãos, cotovelos e até os joelhos. “Depois da tentativa frustrada, o médico enfiou todo o seu antebraço dentro de mim para tentar tirar minha filha de dentro de mim. Isso quase me matou de dor”.

Enquanto o anestesista ria como uma hiena sádica no canto da sala, D. se via diante de seus algozes cruéis que tentavam tirar sua bebê de seu ventre a qualquer custo. “Por fim, usaram o fórceps e conseguiram com que minha filha saísse se dentro de mim”. O anestesista ria, falando que sua filha havia nascido com uma cabeça grande. “Ele dizia que nunca tinha visto uma cabeça daquele tamanho, que eu estava fazendo muito drama”.

Com sua filha nos braços, D. chegou a pensar que seu pesadelo teria fim. Mas ela estava enganada. Depois de alguns dias, voltou ao hospital para buscar sua ficha médica. “Eu queria entrar com um processo contra o anestesista. Ele realmente me deixou sequelas. Até hoje tenho dores de cabeça tão fortes que preciso enfaixar minha coluna.” Já em casa, D. foi obrigada a ficar deitada durante os três primeiros meses de vida de sua filha, de tanta dor que sentia.

“Não consegui a ficha médica. Até hoje não sei quem é o anestesista. Era pra ter sido um momento feliz… Minha gravidez já havia sido bastante dolorosa e, apesar dos pesares, tomei a decisão de gerar e criar minha filha. Porém, mesmo com todas as circunstâncias terríveis da concepção, o parto acabou sendo muito mais traumático e doloroso”.

Um pré-natal dolorido

“A gente ficava com medo de reclamar. [...] É um incômodo, acho que não precisava o tempo todo. É muito invasivo.”, relata C.A, vítima de violência obstétrica ainda no pré-natal em 2016. Sentindo-se como um experimento, C. e outras grávidas que realizaram o acompanhamento da gestação, no mesmo hospital, ficavam incomodadas com a quantidade de toques que os médicos faziam para observarem a dilatação. O toque era realizado em cada consulta. Toda semana. Além dos médicos, os estagiários também faziam o procedimento. O obstetra demonstrava o método e um ou dois alunos repetiam. Cada hora era um. Eram de três a quatro toques por consulta. A dor e a exposição eram constantes. 

No final da gravidez, o estresse era pior. A frequência das consultas aumentaram e, consequentemente, os toques também. Hipertensa e com 41 semanas, os médicos realizavam o toque, pois queriam induzir o parto de C. A. e, para isso, eles desejavam fazer o descolamento da placenta. Para C. o descolamento é um procedimento bem dolorido e que não surtiu efeito algum. “Acredito que isso (descolamento da placenta) até prejudica, porque estressa a gente”, afirma. No final da gestação, C. não conseguiu ter mais que quatro centímetros na dilatação e foi realizado a cesária. 

Cansada de passar por essa situação, C. reclamou. Apesar do medo que sentia de a reclamação afetar no progresso das consultas, ela questionou sobre a necessidade de realizar o toque toda vez. “Precisa”, foi a resposta que obteve. O procedimento tinha sido realizado também uma semana antes, estava ocorrendo durante o seu questionamento e ela tinha certeza que seria feito na semana seguinte. 

Como se não bastasse todo o estresse e incômodo durante a gravidez, após a cirurgia, C. passou por momentos delicados. Devido a uma hemorragia, quase foi necessária uma transfusão de sangue. O parto de C. foi realizado em outro hospital e não onde foram as consultas do pré-natal. Apesar do sangramento excessivo, ela considera o parto  “tranquilo”. Essas são as lembranças que marcaram C. durante a gravidez. Um momento que deveria ser lembrado por boas experiências, proporciona memórias doloridas e que não deseja viver novamente.

  

Uma alternativa bem vinda

Com medo do que pode acontecer, muitas mulheres estão indo atrás de alternativas para auxílio e informação na hora do parto. Uma dessas alternativas são as doulas. Do grego “mulheres que servem”, as doulas acompanham as mamães nesse momento importante de suas vidas. Em seu começo, as doulas eram apenas mais uma pessoa na hora do parto, podendo ser a prima, irmã ou amiga da mulher. Com o passar do tempo, as doulas tornaram-se profissionais imprescindíveis para as mulheres que desejam ter um parto tranquilo. Lena Bezerra é uma delas. Atuando como doula desde 2011, quando se aposentou da profissão de professora, já acompanhou mais de 700 partos. Seu trabalho começa desde a gestação e pode seguir até o pós-parto. Segundo ela, a doula pode indicar hospitais, equipe médica para o parto até atuar na hora do nascimento com massagens e posições específicas para tranquilizar a mulher. Quando o assunto é violência obstétrica, Lena tem uma visão bem específica sobre o tema. “Todas as vezes que uma instituição ou um profissional se coloca no centro do parto, como sendo o protagonista, ele está praticando violência obstétrica. A mulher deve ser a dona do seu corpo e, no seu corpo, suas próprias regras devem prevalecer”. Para ela, o termo é usado para práticas invasivas e não adequadas, mas não apenas na hora do parto. “Impedir a mulher de se alimentar, caminhar, usar sua própria roupa, deitar a mulher quando outra posição pode ser ideal, são coisas não favoráveis a um processo adequado para o parto, podendo ser, também, atitudes de violência”.

  

 

Afinal de contas, o que é a violência obstétrica?

Este termo não tão conhecido da população é caracterizado, pelo Ministério da Saúde, como as violências que acontecem no momento da gestação, parto, nascimento e/ou pós-parto, inclusive no atendimento ao abortamento. Esse comportamento pode se manifestar de modo físico, psicológico, verbal ou sexual, além de ações como negligência, discriminação ou condutas excessivas. Maria Lúcia Cavalieri, por exemplo, relata que, ao ser encaminhada para o bloco cirúrgico em sua primeira gestação, sozinha e apreensiva, foi recebida pelo anestesista e pelo enfermeiro. “O anestesista disse que seu nome era D’Artagnan. Quando perguntei se era nome ou sobrenome, ele respondeu: ‘nem um, nem outro. Se alguma coisa der errado no seu parto, você não me acha nunca mais’”. Enfim, violência obstétrica é todo e qualquer ato ou norma que impeça a mulher de exercer seu protagonismo de mãe ou não respeite seu corpo antes, durante ou depois do momento de dar à luz.

 

Outros exemplos de violência obstétrica

- Não receber alívio da dor;

- Não permitir que a mulher escolha acompanhante;

- Omitir informações, intimidar a mulher por questões de cultura e/ou religião;

- Divulgar informações que possam insultar a mulher;

- Submeter à mulher a ameaças, piadas ou xingamentos;

- Realizar lavagem intestinal e restrição de dietas, dentre outras

 

Como evitar a violência obstétrica?

Caso a mulher se sinta vítima de violência obstétrica, ela pode denunciar o fato no próprio hospital, seja municipal, estadual, federal ou particular e também nos conselhos de classe. Se o abuso tiver sido cometido por um médico, deve-se procurar o Conselho Regional de Medicina (CRM). Se por parte de enfermeiro ou técnico em enfermagem, o Conselho Regional de Enfermagem (Coren). Ou então, pelos telefones 180 ou 136 (Disque Saúde).

 

  

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