Xenofobia, o massacre da dignidade

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Uma caixa acompanhada de um cartaz localizada em um corredor da Faculdade de Direito, em Lisboa, causou indignação entre brasileiros. Dentro dela, estavam pedras para serem atiradas aos estudantes vindos do Brasil, em busca de oportunidades de estudo em Portugal.

A aluna de mestrado da instituição e presidente do Núcleo de Estudos Luso-Brasileiros (Nelb), Elizabeth Matos Lima, afirma que o conflito entre portugueses e brasileiros vem aumentando, devido ao grande número de alunos de mestrado e doutorado, vindos do Brasil, que escolhem estudar em Portugal.

Segundo dados fornecidos pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, no ano letivo de 2016/2017, últimas informações disponíveis pelo órgão do Governo português, total de 4.901 brasileiros ingressou em instituições de ensino superior portuguesas para licenciaturas ou mestrados integrados.

A estudante Paula Machado Lago, de 18 anos, afirma que sofreu xenofobia (desconfiança, temor ou antipatia por pessoas estranhas ao meio, pelo que é incomum, ou vem de fora do país) em Lisboa, quando estava trabalhando na loja de seu padrasto. Uma cliente, após questionar os preços dos produtos vendidos, afirmou que Paula era uma “brasileirinha muito abusada”.

“Eu também cheguei a trabalhar em um restaurante mais refinado e, quando viam que eu era brasileira, eles faziam piada, preferiam ser atendidos por portugueses. Todos eles, generalizando, acham que brasileiras vão para lá para se prostituírem e acham que estamos ocupando o espaço deles”, relata.

Segundo a estudante, a estada no país tornou-se muito menos proveitosa. “Não me sentia à vontade para falar com portugueses, porque achava que eles iam criticar a minha maneira de falar”.

Paula também já presenciou cenas de xenofobia e racismo, com pessoas negras, principalmente dentro de metrô. “As pessoas preferiam ficar em pé do que sentar ao lado de um negro”.

A estudante Paula afirma que, por ter sofrido xenofobia, tinha receio de interagir com portugueses
A estudante Paula Machado afirma que, por ter sofrido xenofobia, tinha receio de interagir com portugueses

 

A ajudante de cozinha, Claudia Ribeiro*, moradora da cidade Blessington, na Irlanda, também já foi vítima de discriminação em seu ambiente de trabalho. “Um menino de São Paulo ficava exaltando o sotaque de um irlandês que trabalhava lá e rindo do meu sotaque de Salvador, tentando imitar, meio que zombando”.

Claudia, de 29 anos, recorda de uma situação em particular que é marcante até hoje para ela. “Um dia, fui para Dunnes, um supermercado grande daqui e perguntei se poderia entrar lá com sacola de outra loja. A segurança e uma moça do caixa disseram firmemente que eu não poderia entrar com o objeto. Depois eu soube que era mentira, que foi uma ordem exclusiva para mim”.

Ela afirma que passou a sair menos quando está sozinha e, quando precisa de sair de casa, prefere sair acompanhada de seu marido irlandês. “Toda vez que ando nesta cidade, eu sempre me irrito. Aqui é bem tradicional, não tem tanta gente estrangeira e nem de outras cores, então, é cada coisa bizarra que vejo, às vezes. Gente que anda na pista para não passar perto, gente olhando feio...No ônibus, já se incomodam se eu sentar ao lado. É a viagem toda olhando torto sem eu ter feito nada a eles”, conta.

Brasil

A xenofobia não é restrita aos brasileiros cujo destino é o exterior e nem aos próprios brasileiros. Em Guarulhos, Maria Luiza Apodoro Molina, de 21 anos, desempregada, relembra ter presenciado um caso de xenofobia praticado contra uma funcionária de Pernambuco que trabalhava com limpeza em um hortifruti.  “Toda vez que ela ia dizer alguma coisa, mesmo que fosse uma constatação óbvia do que estava acontecendo, todos davam risada. Sempre tinha aquela frase de falar que ela era do Nordeste, por isso ela era assim. Tudo o que ela fazia, era ridicularizada. Isso me deixava desconfortável porque gerara discussões entre mim e as outras pessoas que trabalhavam no local. Até mesmo os chefes tiravam sarro do jeito dela”, afirma.

Maria conta que “se sentia triste, impotente, de certa forma, culpada por não poder fazer mais, por não poder agir mais”, ao ouvir que a trabalhadora não era inteligente, que ela era ignorante, que ela era doida. “Ela, em sua inocência, muitas vezes, dava risada, achando que aquele comportamento era normal, talvez porque ela já passasse por isso muito desde que chegou em São Paulo”.

“Toda vez que eu presencio um caso de xenofobia, de racismo, de homofobia, eu me machuco. Eu entro para defender. As pessoas dizem até que eu sou louca, que eu não tenho nada a ver com isso. Mas, para mim, eu tenho a ver, sim. Essa é uma questão de um mínimo de humanidade. Se uma pessoa está sofrendo discriminação, seja ela qual for, o mínimo que você tem que fazer é defender, o mínimo que você tem que fazer é tomar a atitude certa”, declara.

A brasiliense Lillian Eymi Eruda, de 16 anos, relata que muitas vezes, já encontrou pessoas puxando o olho para a família dela, quando entra em um estabelecimento,  chamando-a de “Xing Ling”, “China”, perguntando se ela come cachorros. “O racismo contra a etnia amarela é muito camuflado entre brincadeiras de mau gosto. Acabamos por rir em uma forma de aceitação para não sermos considerados ‘chatões’ e ‘sem graça’. Somos sempre aquele vendedor de verdura da feira, de pastel, o japonês simpático com o 'pinto pequeno;' mas, basta contradizer algo do que dizem, que viramos o chinês 'comedor de cachorro e pombo', o ‘china’ que deveria voltar para a sua terra”.

Lillian afirma que, quando manifesta a sua opinião sobre fatores políticos no Brasil, muitos não enxergam que é brasileira. De acordo com a brasiliense, eles dizem: "Ah, mas você nem é daqui. Volta para o teu país”.

“Já tive época que fiquei muito chateada com isso, ainda fico um pouco chateada, mas tento sempre consertar as brincadeiras de mau gosto dos outros de maneira mais educada possível. Meus avós e pais sofreram com isso, imigrantes que precisavam se matar de trabalhar na roça. Mas tenho conhecimento de que não se resolve ignorância com ignorância”, afirma.

 

Lilian Eymi Eruda acredita que a melhor forma de combater a ignorância é por meio do diálogo
Lilian acredita que a melhor forma de combater a ignorância é por meio do diálogo

 

Imigrantes e refugiados 

A esperança de reconquistar a sua dignidade e a busca por melhores condições de vida são fatores que impulsionam a vinda de refugiados para o território brasileiro. Guerras, crises econômicas, fome, perseguição religiosa, entre outros, são fatores agravantes que tornam a vida insustentável e sem perspectiva de dias melhores em seus países de origem. Armados de muita coragem, os refugiados visam encontrar esperança de deixar o passado que o assombram para trás; mas, muitas vezes, são vítimas de discriminação.

Inês Pérez*, venezuelana residente em São Paulo, afirma que demorou muito para encontrar um emprego em uma lanchonete. No princípio, ela recebeu várias propostas de prostituição. “Me fez sentir muito mal. Nós saímos de uma situação de miséria para tentar a vida aqui e passamos por vários acontecimentos que nos machucam”, conta.

Muitos clientes tratam Inês de forma inferior, segundo a venezuelana e, muitas vezes, não chegam a trocar palavras com ela. “Já chegam apontando o tipo de salgado que querem, a bebida e entregam o dinheiro com medo de encostarem em mim”.

O Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR) conta com escritórios em Belo Horizonte, Boa Vista, Manaus e Porto Alegre, tendo o objetivo de oferecer assistência e serviços gratuitamente a migrantes, solicitantes de refúgio e refugiados, buscando defender os seus direitos e incluí-los à sociedade brasileira.

De acordo com o coordenador de Comunicação da instituição, Vinícius Rocha, de 42 anos, o escritório em Belo Horizonte começou em 2013, atendendo imigrantes haitianos. O local é mantido por meio de recursos fornecidos pelo SJMR e de doações de alimentos, roupas, produtos de higiene, entre outros.

Em 2016 e 2017, o escritório da capital mineira contabilizou 6.000 atendimentos aos migrantes e refugiados. Em 2018, Vinícius estabeleceu uma média de 4.500 atendimentos. Segundo ele, os necessitados podem ser atendidos pela equipe quantas vezes forem necessárias. Vinícius afirma que a demanda de haitianos que necessitam de ajudam é maior, lembrando o caso de um haitiano que sofreu xenofobia e racismo em seu local de trabalho, procurando o escritório para descobrir se podia tomar alguma providência em relação à discriminação que sofreu, sem querer prejudicar a sua estada no país. 

O coordenador também menciona informações sobre o projeto Acolhe, Minas, realizado pelo SJMR, que acolheu um grupo de 37 refugiados venezuelanos vindos de Boa Vista. Ele afirma que a maior parte dos refugiados conseguiu emprego. “Eles disseram que Belo Horizonte é mais acolhedora e totalmente diferente de Boa Vista. Lá, eles sofriam mais”, relata.

*Nomes fictícios foram utilizados para preservar a identidade das fontes.

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