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Seg, Maio

Massacre de Suzano completa dois meses e alerta para violência nas escolas

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O último 13 de março seria mais um dia de aula comum para os alunos da Escola Raul Brasil, em Suzano (SP). Leriam, escreveriam, conversariam, lanchariam na hora do intervalo. A rotina foi interrompida quando dois jovens encapuzados invadiram a instituição e abriram fogo contra todas as pessoas que entravam no caminho.

A ação durou poucos minutos, mas tirou a vida de 10 pessoas. Marilena Ferreira Vieira Umezo, coordenadora pedagógica; Eliana Regina de Oliveira Xavier, funcionária da escola; os estudantes Pablo Henrique Rodrigues, Cleiton Antonio Ribeiro, Caio Oliveira, Samuel Melquíades Silva de Oliveira e Douglas Murilo Celestino, e o comerciante Jorge Antonio de Moraes, morto antes da entrada dos assassinos na escola, tio de um dos jovens. Um pouco antes da chegada da polícia, os atiradores se suicidaram.

Um resumo do que aconteceu não é capaz de explicar o que aconteceu. Por esse motivo, o CONECTA conversou com o mestre em psicologia e professor da Fumec, Wilson Soares Leite. Para ele, passamos por um processo da “banalização do mal, da vida e, consequentemente, da morte”, marcado pelo narcisismo decorrente do ideal liberal. O professor enfatiza a importância da imprensa para discussão e a divulgação da pesquisa sócio psicológica acerca destes acontecimentos, criando um espaço de agendamento e discussão sobre a situação da violência no Brasil, ligada à estrutura colonial da “Casa Grande e da Senzala”. Leite destaca ainda o papel da educação para identificar problemas e promover a compreensão sobre o problema, apontando soluções coletivamente construídas. “Somos todos parte de um todo mais complexo”, enfatiza. Confira a seguir.

 

1- O Massacre de Suzano não foi o primeiro caso de extermínio em escolas no Brasil, um exemplo foi o em Realengo em 2011. O que diferencia esses eventos da violência cotidiana?

O Brasil vive, há anos, um enorme massacre de inocentes, é o que mostram as estatísticas sobre as mortes por armas de fogo, acidentes, etc. Seria efeito de uma sociedade que perdeu o valor e o respeito pela vida? As pessoas já não valem por si mesmas. O foco no resultado, na produção, no “ter”, em lugar do “ser”. Há uma banalização do mal, uma banalização da vida e, consequentemente da morte. O ideal liberal fortalece o individualismo, nos fazendo perder a noção do outro como constituinte de minha própria existência.

2- Depois do ataque armado, muitas pessoas nas redes sociais começaram a dizer que se os professores tivessem armas, muitas vidas teriam sido salvas. Como a causa do mal, pode também ser vista como a solução?

Não se ensina a não violência com violência. Em nossa tradição cristã, vemos a metáfora de Cristo propondo que "se dê a outra face” a quem lhe agride. Esse conselho é exatamente não reagir com o mesmo ato, mas com o seu oposto. A violência só nos é útil para oferecer paz. Na Psicologia, há muito, existe um movimento chamado Comunicação não violenta, bem como há contribuições interessantes na direção da chamada Justiça restaurativa.

3- O Brasil é um país violento, mas parece que agora a motivação desse tipo de crime não é apenas eliminar o outro, mas também a exposição...

Acredito que muitos atos de violência não tenham por motivação o outro, mas muito mais o próprio ego, na sua busca de reconhecimento e sensação de poder. Neste sentido, a auto exposição realiza este propósito. O narcisismo é uma das marcas da subjetividade na pós-modernidade (período em que a descrença no mundo é predominante e as mudanças acontecem a todo momento, realizadas, em grande parte, pelo avanço tecnológico). 

4- A Organização Mundial da Saúde produziu um passo a passo para a imprensa sobre como falar sobre o suicídio, de forma responsável. O mesmo não aconteceu quanto aos ataques em escolas.  Qual seria a melhor estratégia a ser adotada pela mídia em casos como esse?

Há um fenômeno, chamado na Psicologia Social, de “contágio social” que deve ser levado em conta quando da divulgação destes eventos. É fundamental que a imprensa contribua com a discussão e a divulgação da pesquisa sócio psicológica acerca destes acontecimentos, criando espaços de discussão, informação científica e elaboração de políticas e estratégias, que visem reduzir os danos produzidos por estes eventos.

5- O ex-ministro da educação, Ricardo Vélez, propôs que a Escola Estadual Raul Brasil seja militarizada. Quais consequências essa medida pode causar aos sobreviventes do massacre?

A proposta representa um pensamento medieval sobre educação. Não se trata de uma ideia conservadora, mas sim atrasada. Uma das  funções da educação é formar cidadãos conscientes e criativos que possam contribuir com o avanço da sociedade em todos os sentidos. A estrutura militar segue uma lógica de domesticação e rígida obediência, acrítica. Assim deve ser para a caserna, mas não para a sociedade e, principalmente para a escola. Uma das coisas que fez da Alemanha a potência intelectual e científica que é , foi a reforma universitária que, desde o final do séc. XIX, promoveu uma Universidade livre e crítica.

6- O ataque em Suzano aconteceu em uma escola pública onde grande parte dos estudantes eram de classes mais baixas. Sobre a  violência estrutural no Brasil, como ela se atualiza hoje na sociedade brasileira?

A violência no Brasil continua marcada pela estrutura colonial da Casa Grande e da Senzala. Pretos, pobres e minorias são os alvos dessa violência, já perpetrada numa hierarquia socioeconômica, que os discrimina, torna-os invisíveis e insignificantes. 

8- Sobre as possíveis saídas para a violência, qual o papel das escolas e das instituições democráticas?

A meu ver, não há saída para os problemas sociais que não passe pela educação. É claro que existem muitos outros fatores, macro e micro determinantes, como econômicos, políticos, sistêmicos, internacionais, etc. Mas nada se resolve sem uma boa base educacional. A boa educação ensina a pensar, a ter consciência, a ter capacidade de identificação dos problemas e soluções, a compreender que nada é do âmbito individual, que somos todos parte de um todo mais complexo e que somente juntos podemos fazer algo.

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