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Qui, Maio

MULHERES “CABULOSAS” DO SÉCULO 21

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A meta de número 5 do Relatório Luz da Agenda de 2030, organizado pela ONU, é alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Ao longo do documento, a maioria dos números é negativa em relação à realidade desta meta, como, por exemplo:

  • Brasileiras dedicam quase 73% mais tempo que os homens ao cuidado de pessoas e/ou afazeres domésticos (18,1h contra 10,5h);
  • As mulheres recebem, em média, 76,5% dos rendimentos dos homens;
  • Em relação a 2015, cresceram 54% as denúncias de cárcere privado (cerca de 16,7 registros/dia); 121% as de estupro (média de 16,51 relatos/dia); 69,40% as de exploração sexual; e 67,58% as de abuso sexual;
  • Entre 2005 e 2015, os registros de assassinatos de mulheres negras aumentaram em 22%;
  • O Brasil ocupa a 161ª posição de um ranking de 186 países sobre a Presença Feminina no Poder Executivo.

Mesmo os números sendo alarmantes, há conquistas significativas. Nos últimos anos, as redes sociais e projetos independentes vêm tendo impacto significativo no processo de empoderamento feminino. Diante da missão de empoderar até 2030, elas quebram o paradigma e enfrentam o desafio. Com seus questionamentos e vítimas das desigualdades sociais estabelecidas entre os gêneros, militantes podem ajudar para que esta meta seja alcançada até 2030. Os números assustam e se tornam informação, chegando a outras mulheres que começam a ter voz, ou pelo menos descobrem que um grito precisa ser dado. 

O item B do Relatório Luz da Agenda de 2030 traz a seguinte missão: “Aumentar o uso das tecnologias de base, em particular as tecnologias de informação e comunicação, para promover o empoderamento das mulheres”. Embora as mulheres sendo minoria nos empregos nas áreas de computação, o compartilhamento de informações e campanhas via redes sociais está fazendo com que a troca de experiências promova o empoderamento.

Mulheres Cabulosas

A cearense Maria da Penha sofreu duas tentativas de homicídio por seu marido: uma por arma de fogo, que a deixou paraplégica, e outra, em que foi eletrocutada durante o banho. Em 2006, o governo brasileiro decretou a “Lei Maria da Penha”. Na foto, Beatriz Simas, estudante de direito, que luta pelo fim da violência doméstica e familiar até hoje. (Crédito: Mulheres Cabulosas)

 A cearense Maria da Penha sofreu duas tentativas de homicídio por seu marido: uma por arma de fogo, que a deixou paraplégica, e outra, em que foi eletrocutada durante o banho. Em 2006, o governo brasileiro decretou a “Lei Maria da Penha”. Na foto, Beatriz Simas, estudante de direito, que luta pelo fim da violência doméstica e familiar até hoje. (Crédito: Mulheres Cabulosas)

O projeto Mulheres Cabulosas da História surgiu a partir do sonho de empoderar mulheres, da fotógrafa Isis Medeiros, de 29 anos, que percebeu a falta, nos livros de história, de relatos sobre figuras femininas importantes para o progresso do mundo em suas diversas áreas de atuação.

Foi aí que Medeiros teve a ideia de fotografar as companheiras do Levante Popular da Juventude, movimento social ao qual integra. O projeto contou inicialmente com 43 releituras fotográficas de mulheres da história, hoje já somam 100 retratos. Entre as fotografadas, estão Frida Khalo, Angela Davis, Simone de Beavouir, Dandara, Chiquinha Gonzaga, Anne Frank e muitas outras mulheres importantes no Brasil e mundo. A proposta do projeto é o empoderamento daquelas que veem as fotos e se reconhecem tão poderosas quanto as retratadas.

 

(Crédito: Mulheres Cabulosas)

 

“As meninas fotografadas têm o poder de evidenciar este empoderamento, o ensaio permitiu experiências que muitas delas nunca tinham vivido. Foi perceptível que elas se sentiram mais fortes depois das fotografias. Esse processo ajuda outras mulheres a se sentirem poderosas e valorizadas por serem mulheres”, conta a fotógrafa.

Mas não bastava empoderar somente as mulheres fotografadas que, por vezes, já conheciam sobre empoderamento. O movimento levou o projeto para as redes sociais, realizou inúmeras exposições e conseguiu levar o conteúdo a diversas plataformas. Em 2019, o projeto “Mulheres Cabulosas da História” resultará em um livro graças a um financiamento coletivo. 

Elza Soares nasceu e cresceu na favela, fez sucesso na música popular brasileira com uma voz marcante e sua identidade afrobrasileira. A estudante fotografada, Ana Carolina Vasconcelos, luta pela liberdade e reconhecimento das mulheres e um feminismo cada vez mais representativo. (Crédito: Mulheres Cabulosas)
Elza Soares nasceu e cresceu na favela, fez sucesso na música popular brasileira com uma voz marcante e sua identidade afrobrasileira. A estudante fotografada, Ana Carolina Vasconcelos, luta pela liberdade e reconhecimento das mulheres e um feminismo cada vez mais representativo. (Crédito: Mulheres Cabulosas)

 

Sobre suas inspirações pessoais, Isis cita duas brasileiras: Elza Soares e Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, feminista e defensora dos direitos humanos que foi assassinada em março deste ano. Questionada sobre as dificuldades para o empoderamento feminino, observa que o capitalismo e o preconceito são barreiras e reforça: “É um trabalho de formiguinha empoderar mulheres, mas todas nós conseguimos participar deste processo, destacando as potencialidades umas das outras. Isso foi fundamental para crescermos juntas”. O momento político atual assusta um pouco a autora do projeto, mas ela repete incansavelmente: “Seremos resistência!”.

 

 

Frida Kahlo é uma das mais famosas artistas latinas-americanas do século XX. Comunista, defendia o resgate à cultura indígena e latino-americana como forma de oposição ao sistema imperialista. Sua arte expressa sua dor, paixão, luta, deficiência física, abortos e bissexualidade. Na foto a jornalista Rafaella Dotta, que luta para que o povo expresse sua realidade e seja escutado.. (Crédito: Mulheres Cabulosas)
Frida Kahlo é uma das mais famosas artistas latinas-americanas do século XX. Comunista, defendia o resgate à cultura indígena e latino-americana como forma de oposição ao sistema imperialista. Sua arte expressa sua dor, paixão, luta, deficiência física, abortos e bissexualidade. Na foto a jornalista Rafaella Dotta, que luta para que o povo expresse sua realidade e seja escutado.. (Crédito: Mulheres Cabulosas)

 

 

Voz ativa

Estudante de direito, Maria Paula Monteiro, de 19 anos, criou o Instagram Voz Feminismo para empoderar mulheres com posts que tornam as informações contidas nas leis brasileiras mais fáceis de entender. Além dos posts, a jovem esclarece dúvidas. Monteiro já tinha esta ideia desde o ensino médio, mas a conta na rede social foi criada quando ela ouviu de uma amiga o relato de que teria sofrido assédio e não soube como se defender ou reagir. “Para mim, isso foi o estopim. Estava cansada de tanto silenciamento e falta de informação”, contou Maria.

Em seu primeiro ano, o Voz Feminismo vem sendo reconhecido e muitas mulheres agradecem a criadora que, com os posts, gera o empoderamento de um grande número delas. Recentemente, o Instagram foi mencionado num congresso sobre ativismo e redes sociais da Universidade Federal do Amazonas como uma das principais páginas sobre feminismo nas redes. Maria Paula se sente cada dia mais empoderada. “É muito gratificante vê-las se descobrindo feministas, livrando-se de relacionamentos abusivos, apossando-se de seus direitos”, afirma a estudante.

Monteiro considera desafiador ser mulher e entender sobre seus direitos com as escolhas eleitorais do Brasil. “Elegemos uma bancada muito conservadora e o presidente eleito promete indicar ministros conservadores ao STF. É extremamente triste pensar que, após anos e mais anos de luta, corremos o risco de perdermos os direitos conquistados”, lamenta. De qualquer forma, a luta continua: “Mas renasce uma chama de esperança a cada vez que eu vejo uma mulher se juntando a nós”.

 

Lugar de mulher é na política

A esperança de Maria Paula cresce com a maior representatividade feminina no cenário político brasileiro. Elas continuam em minoria, mas contam com algumas conquistas para lutar contra o machismo e conservadorismo. Segundo informações da Justiça Eleitoral, no Senado, sete mulheres foram eleitas, mesmo número de 2010, e agora representam 13% da casa. Na Câmara, 77 mulheres foram eleitas deputadas federais, entre 513 cadeiras. Em 2014, tinham sido 51. Já nas assembleias legislativas, foram 161 mulheres eleitas deputadas estaduais, entre 1059 cadeiras. Em 2014, tinham sido 119. Somente uma mulher foi eleita governadora: a senadora Fátima Bezerra (PT), que se elegeu no estado do Rio Grande do Norte.

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Assembleia Legislativa do Estado de Minas passou, a partir deste ano, a ser permanente e não mais de caráter extraordinário, o que contribuirá para atender as demandas das mulheres e aumentar ainda mais a participação feminina na política. Apesar desta representação maior, ainda é desafiador ser mulher na sociedade. Há muito preconceito em inúmeras áreas, mesmo que latente, não só na política, mas também no esporte, na ciência, na tecnologia e em todo o círculo social. Espaços por muitos anos ocupados exclusivamente por homens, ainda causam estranheza quando comandados por mulheres. Por isso, muitas lutam ainda por igualdade e reconhecimento, para que não sofram qualquer questionamento quanto à capacidade de ocupar os mais diversos espaços.

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