Quando a casa não é lar

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A maioria das vítimas de abuso sexual infantil é agredida dentro da própria casa ou na de parentes e, por conta do medo, as vítimas se calam por anos, algumas sequer chegam a revelar as agressões para alguém.

Outras carregam um trauma tão profundo que, como mecanismo de defesa, esquecem as memórias dos abusos por um longo tempo, até que essas lembranças reaparecem.  Ana Célia (nome fictício), que foi abusada dos 3 aos 7 anos por um tio e hoje, com 19, luta para que o seu agressor seja punido, concedeu entrevista ao CONECTA.

CONECTA: Quanto tempo levou até você conseguir contar para a sua família?

ANA: Algumas vítimas guardam o ocorrido no subconsciente como forma de se protegerem, é como uma panela de pressão que pode estourar em qualquer momento da vida delas, alguma circunstância específica pode instigar as lembranças a retornarem. No meu caso foi assim, só pude falar sobre isso quando não pude mais fingir que não havia acontecido. O evento ocorreu na infância, mas só consegui contar para os meus pais aos dezessete.

CONECTA: Por quanto tempo ocorreu?

ANA: Eu diria que dos três até os sete anos.

 

"Meu pai me perguntou em determinado momento se eu poderia perdoar o meu agressor"

CONECTA: Você recebeu apoio? 

ANA: Acho que meus pais tiveram dificuldades para lidar com o que havia acontecido e com as consequências daquilo para minha vida. Meu pai me perguntou em determinado momento se eu poderia perdoar o meu agressor, acredito que o entendimento deles sobre abuso sexual era ultrapassado e, ao longo do tempo, foi evoluindo. Tive apoio de outros membros da família que também foram vítimas, mas acredito que grande parte deles encarou a minha decisão de denunciar como descabida. Senti mais apoio do meu grupo de amigos. 

  

"Na delegacia, é necessário repetir a mesma história várias vezes para comprovar que está falando a verdade"

 

CONECTA: Quando iniciou o processo contra o seu agressor? Por que o processo está durando tanto tempo?

ANA: Um ano após começar a terapia, eu tinha 18 anos. É um processo muito burocrático, acredito que isso influencie as vítimas a não denunciarem. Além disso, você tem que ter uma bagagem emocional muito forte, pois dificilmente receberá apoio da família, e todas as circunstâncias lutam para você não denunciar. É uma guerra sua contra todo mundo. Na delegacia, é necessário repetir a mesma história várias vezes para comprovar que está falando a verdade, isso é muito desgastante.

  

      Crédito: Déborah Lopes

 

 

CONECTA: Como está a relação com a sua família?

ANA: Eu não tenho contato com boa parte da minha família, mas acredito que minha relação com meus pais está estável.

 

CONECTA: Quais as consequências que esses abusos causaram na sua vida?

ANA: Eu acredito que o abuso sexual que sofri teve papel fundamental para que eu desenvolvesse o transtorno. O abuso sexual está por trás de muitas das mentes sociopatas ou psicopatas, cada pessoa reage de uma forma a partir de sua própria carga emocional, eu tive problemas no que diz respeito à afetividade e empatia. Quando percebi que poderia ser um perigo para as pessoas ao meu redor, procurei ajuda. Tenho depressão e muita ansiedade, tomo remédios controlados, mas às vezes escapadas mais fáceis como o tabaco ou álcool são quase inevitáveis. Tive síndrome pós-traumática e vivi acorrentada ao meu passado por um bom tempo. Hoje em dia ainda lido com a depressão e ansiedade, mas aprendi aos poucos a sentir emoções e empatia, a me recuperar dos ataques de pânicos e reconhecer as relações de afeto. Acredito que poderia ter relações amorosas, porém, com certas limitações, teria de ser uma relação de muita confiança. Mas estou otimista em relação ao meu futuro, depois da tempestade vem o arco-íris.

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