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Seg, Maio

A ANGUSTIA DA ESPERA

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Há um ano e nove meses, mulher de 43 anos (vamos chamá-la de A.C., já que ela preferiu não se identificar para não haver complicações no processo judicial) entrou no processo de adoção juntamente com seu marido. Em entrevista, A.C. falou sobre as maiores dificuldades enfrentadas, quais suas expectativas e como tem sido toda a experiência na fila de espera por uma filha.

Porque vocês decidiram adotar?

A gente decidiu antes do casamento. Como nós fazemos trabalho social há um tempo e já tínhamos visitado alguns abrigos, sempre soubemos dessa necessidade das crianças. Era um sonho! Nós combinamos que teríamos dois filhos, um biológico e um adotivo. A ideia era primeiro ter um bebê e, dependendo do sexo, escolheríamos o sexo do bebê que adotaríamos (se tivéssemos um menino adotaríamos uma menina, e vice-versa). Entretanto, como a gravidez não veio ainda, nós resolvemos olhar a questão da adoção.

Há quanto tempo vocês estão na fila de espera?

Na verdade, o primeiro ponto é quanto tempo você demora pra entrar na fila de espera. Nós demoramos um ano e dois meses pra receber o documento dizendo que nós havíamos entrado na fila. Primeiro fomos no Conselho Tutelar e solicitaram que levássemos uma documentação (que inclui passar por psicólogo, atestado médico, atestado psiquiátrico). Posteriormente, entramos com a documentação. Quando entramos com a documentação, tivemos que esperar até sermos chamados para fazermos um curso. Depois de feito o curso, passamos pela entrevista com a psicóloga e com a assistente social. Depois disso, recebemos uma visita na nossa casa das pessoas responsáveis pelo processo e, ai sim, entramos na fila. Recebemos o documento na  nossa casa. Agora, já estamos a sete meses na fila, totalizando um ano e nove meses de todo o processo.

Você tem alguma preferência (idade, sexo, cor)?

A princípio não havia muitas exigências, exceto que fosse uma menina entre 3 e 7 anos. Então, passamos por uma psicóloga que, ao conversar conosco, questionou a chamada 'adoção tardia’, o que não é comum, principalmente para um casal sem filhos como nós. Sendo assim, ela me fez repensar.  Ela afirmou que eu deveria pensar no meu sonho de mãe, e que apesar de eu já fazer trabalho social, adoção não é caridade. Adoção é ser mãe. Depois disso, fomos pra casa, pensamos direitinho e voltamos para uma próxima entrevista decididos a adotar uma menina entre 1 e 3 anos. Com relação a cor, colocamos ao máximo parecidas conosco. Não por racismo, nem preconceito. Mas por analisar as circunstâncias. Uma coisa é sabermos que ela é adotada, ela saber que é adotada, e ela querer falar sobre isso. Outra coisa completamente diferente é todos saberem só de olharem pra nós, e todos a julgarem por isso. Sendo assim, eu percebo que não tenho muita estrutura emocional pra cuidar disso. Foi uma escolha dolorosa, que inclusive de início meu marido não concordava. Porém, agora chegamos à conclusão que será realmente melhor pra ela. Afinal, ela já sofreu tanto! Não gostaríamos de expô-la a mais sofrimento. Entretanto, quando ela quiser contar, ela será apoiada. Ela saberá desde o início que será adotada, mas de contar pros outros, será uma decisão unicamente dela.

Quais as maiores dificuldades que vocês enfrentaram e/ou enfrentam na fila de adoção?

A maior dificuldade que enfrentamos é de não sabermos quanto tempo vai demorar. É passar o dia das mães de novo sem ter uma criança em casa. É não saber se compra um vestido tamanho 1 ano ou tamanho 2 anos. Ficar na expectativa dói. Você não sabe quanto tempo vai demorar. Você não sabe se a criança vai gostar de você e nem em quanto tempo ela vai chegar. É difícil esperar sem saber por quanto tempo.

Vocês acreditam que o processo de adoção no país é falho? Por quê? O que fariam para melhorá-lo?

Sim. Eu acredito que o processo é falho. Primeiro porque eu acho que existem algumas coisas que não são muito claras. Me lembro de uma das crianças que presenciei em um dos abrigos que visito estar chorando por ter sido adotada por pessoas no Rio de Janeiro e nunca tê-los conhecido. Afinal, existe um período de convivência no processo para crianças acima de um ano. Esse momento é para a criança te conhecer e você conhecer a criança. Sendo assim, eu percebo que algumas crianças não passam por esse processo e mesmo assim são adotadas. Nesse meio também, vemos crianças que são adotadas por fora, por exemplo, pela convivência com a criança em questão, determinadas pessoas conseguem adotar mesmo sem estar em fila nenhuma. É compreensível, entretanto, a pessoa que estava na fila ficou sem receber o bebê, e o pior é que não sabemos quantas vezes isso acontece. Além disso, escuto muito falar sobre compra de crianças. Facilita-se o processo em troca da criança almejada, o que não é justo. Além disso, pelo fato de muitas vezes o filho não estar no nome dos pais em questão, a devolução de crianças acontece. Existem muitas crianças nos abrigos que foram devolvidas, ou talvez por aparecer alguém da família, você tenha que enfrentar uma guerra judicial para permanecer com a criança. Por fim, o que eu melhoraria é a transparência no processo. Mas como no Brasil transparência é uma coisa muito difícil, ficamos a ver navios”, finaliza A.C. com voz triste, mas esperançosa.

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