Atos de fé

Comportamento
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Na movimentada Avenida Brasil, uma loja de parede cor cinza se faz presente há 19 anos. Entre o vai e vem de pedestres, é possível avistar a vitrine preenchida por símbolos e crenças religiosas - um misto de conhecimento e fé.

Catherina Dias, Letícia Gontijo, Pollyana Gradisse e Vitória Marques - 7º PERÍODO

Apenas um degrau separa o mundo real do mundo sincrético. O aroma é um incenso que queima devagar, espalhando um sutil de agradável cheiro. Em cada prateleira, uma vertente religiosa - oriundos da Tailândia, Indonésia, Índia - que criam um ambiente belo, e através do belo cria-se a vontade do conhecimento, de adentrar neste universo. A fonte de água presente no chão da loja emite um som familiar de calmaria. O proprietário, um senhor trajando um blazer cinza, sentado atrás do balcão, reflete uma afeição leve, com um sorriso sutil.  

Joel Paschoa carrega consigo a sabedoria. Gesticula pouco com as mãos e a firmeza da sua voz conduz toda conversa. Seu trabalho é voltado para astrologia e tarô. “Esoterismo é o que antigamente era feito do mestre para o discípulo dentro das ordens, um conhecimento mais hermético, mais fechado”, afirmou Paschoa, que faz uma pausa e dá continuidade à explicação. “Já o exoterismo é um conhecimento mais público, mais aberto”, conclui. Em busca de conduzir a vida a um sentido, é comum surgirem as perguntas: quem somos? pra onde vamos? O conhecimento esotérico, a partir de um determinado estudo, faz com que as respostas possam ser passadas para as pessoas.  

Paschoa, ao cantarolar a música de Gilberto Gil, Esotérico (com s) - “ (...) Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais. Mistério sempre há de pintar por aí (...)”  - explica que as pessoas buscam o conhecimento para aliviar as suas dores ou o momento difícil que estejam passando, seja ele pessoal, profissional ou coletivo.  

 

 

A maioria desconhece técnicas alternativas, como thetahealing e reiki. Isabela Tolentino, 26 anos, nunca participou destes tratamentos por não conhecer direito as técnicas. “Não boto muita fé em signos (da astrologia) e nunca fiz desses tratamentos porque não conheço direito” - é o que diz a administradora pública que utiliza meios convencionais de tratamento, como terapia. O conhecimento místico ainda assusta e afasta pela sua fama de “impuro”, “não convencional”, mas pode ajudar várias pessoas que procuram este caminho em busca de respostas para a vida. 

 

 

 

Thetahealing

Sobre o Tethahealing, Laura Dionísio Machado, 25 anos, apresenta a resposta: é uma técnica de cura de crenças de padrões limitantes através de uma meditação guiada, quando torna-se possível ressignificar medos, traumas e bloqueios. Laura é tethahealer e astróloga e suspendeu seus estudos e trabalhos na área do direito para ajudar as pessoas em busca da sua cura espiritual. A jovem que diz sentir ter sido "chamada pelo divino" a trabalhar com estas técnicas, afirma que o thetahealing ajudou na sua própria cura e que, diante disso, ela quis expandir o trabalho junto aos seus clientes. Aqueles que procuram o Thetahealing normalmente encontram-se com um bloqueio na vida amorosa, profissional, ou em outros aspectos, e querem buscar um auto aperfeiçoamento. 

 

Astrologia

Numa visita a casa da jovem Laura, o cheiro é de incenso, e por todo canto encontram-se mandalas, budas de porcelana, cristais e objetos místicos. Além do thetahealing, Laura faz atendimento astrológico virtual. O atendimento astrológico via internet funciona da seguinte maneira: a pessoa entra em contato com a astróloga, fornece a data, o horário e o local de seu nascimento, e é feito um estudo da mandala astrológica (representação gráfica do céu no momento em que a pessoa nasceu). Após a etapa da mandala, é feita a interpretação dela. A partir da análise da mandala, a astróloga grava um áudio de cerca de uma hora descrevendo a personalidade da pessoa, seu estado emocional, vida afetiva, carreira, habilidades e desafios de vida. Depois que o cliente recebe o áudio, tem a oportunidade de tirar dúvidas sobre o atendimento astrológico. Este processo ajuda no autoconhecimento e tomada de decisões. Laura já atendeu pessoalmente, mas acredita que, com os áudios enviados pela internet, a pessoa absorve mais que presencialmente, já que ela pode ouvi-los quantas vezes quiser. 

Laura, que usa sempre roupas leves e transparece calma no rosto e gestos já perdeu as contas de quantos atendimentos fez desde de o início do “chamado divino”.

 

"Os pacientes já disseram que é como se a leitura do mapa astral despertasse a consciência do propósito de vida delas" 

 

“As pessoas se emocionam, choram, se sentem conectadas com elas mesmas - eu ajudo as pessoas a se entenderem” - afirma, feliz, a astróloga. Ela sabe bem o significado de cura - “Curar-se significa alterar padrões limitantes para novos padrões que nos conectam com a abundância do nosso ser” - diz. Mas, Laura  ressalta que não é ela quem cura as pessoas - “Não existem respostas prontas, a astrologia auxilia as pessoas a encontrarem respostas dentro delas mesmas.

 

"Na astrologia me sinto como um canal de cura, no thetahealing sou uma testemunha”  

 

Tarô, búzios e outros

Mesmo com tantos adeptos, esses segmentos não são tão conhecidos e/ou aceitos com respeito. Toda espiritualidade é formada pela fé. A fé nada mais é que uma crença em algo ou alguma coisa, não pode ser provada e nem desmentida, pois é justamente o ato de acreditar que leva à transcendência. 

Cartas de tarô em um ritual (Foto: Catherina Dias))
                                                                       Cartas de tarô em um ritual (Foto: Catherina Dias)

 

O Tarô ou Tarot é um conjunto de cartas que ajudam as pessoas a tomarem decisões importantes sobre a vida, mostram o contexto em arcanos grandes e pequenos, é um método de autoconhecimento também, pois o jogo mostra os caminhos, mas a palavra final é de quem está em busca das respostas. Esse baralho surgiu no século XV, aproximadamente, de acordo com o pesquisador Michael Dummet, na Itália, e ganhou força no sul da França, por isso as imagens medievais nas cartas, que são lidas, geralmente, por Tarólogas. 

Os Búzios são para entrar em contato com seus Orixás, ou anjos da guarda, perguntar sobre passado, presente ou futuro, autoconhecimento e tomada de decisões. O jogo dos Búzios é realizado por pais ou mães de santo, em um terreiro, que fazem a leitura dos 16 búzios de acordo com a forma que eles caem. Também há leituras com 4 ou 21 búzios, o que depende de cada terreiro e da influência da religião africana que deu origem a Umbanda.

Todos os mistérios envolvidos fazem parte dos ritos e também curam. Por muitos anos acreditou-se que mente, corpo e espírito eram coisas diferentes e cada uma tinha seu devido tratamento. Atualmente a ciência pode comprovar que são coisas diferentes, mas que estão inteiramente ligadas. Um exemplo disso ocorre no clima ocupacional, quando as pessoas estão tristes no trabalho, surgem as doenças psicossomáticas, como a tensão, estresse e ansiedade. 

É possível ver a ansiedade pelo corpo quando o suor escorre, os olhos desviam, as pernas inquietas, tudo isso e muito mais diz a respeito do que as pessoas estão sentindo. Joyce Villanueva é uma dessas pessoas tão ansiosas que não consegue esconder. Ela é jovem, apenas 22 anos, está no último período da faculdade, namora a distância, trabalha até tarde, seria surpreendente se não fosse ansiosa. 

Durante a entrevista, no escritório do trabalho, ela abria a boca para responder e deixava um sorriso tímido sair pelos lábios, ela é tão branca quanto leite, mas estava com as bochechas rosadas de vergonha. Quando perguntei se acreditava em astrologia, se já fez ou participou de tratamentos alternativos, se sabe o que é thetahealing, se faz ou já fez consultas ao tarô, búzios e outros e se sabe o que é wicca, ela não exitou em responder - “sim, claro, sei, faço e sim novamente”.  

Ajeitou-se na cadeira e foi perdendo a timidez, completou: “posso até dar entrevista sobre cada um dos tratamentos e rituais, faço reiki toda semana, vou ao tarô de 15 em 15 dias e já joguei búzios também”, ela ria. Mais à vontade, brincou: “thanks, next”. É incrível como esteve o tempo todo preocupada antes da entrevista e, quando finalmente começamos, foi se soltando aos poucos, era perceptível que tinha domínio do assunto, que estava em sua zona de conforto. 

 

Joyce Villanueva está usando o guia de proteção, o lilás serve para transmutar a energia e o prata tem as pedras dos Orixás.(Foto: Arquivo Pessoal))
Joyce Villanueva está usando o guia de proteção, o lilás serve para transmutar a energia e o prata tem as pedras dos Orixás. (Foto: Arquivo Pessoal)

 

"A mudança é de dentro para fora e fez muita diferença na minha vida”, diz Villanueva 

  • Eu tinha muitas crises de ansiedade, via as coisas dando errado na minha vida, me sentia carregada e que não podia confiar em ninguém, me fechava e fui me sentindo cada vez mais triste. Eu comecei a tomar banho de sal grosso, usar guias de proteção, fazer o reiki toda semana, consultar a taróloga com mais frequência e passei a me sentir diferente. Hoje eu sou mais feliz, não deixei de ir a igreja, me sinto bem, acredito em Deus e em energias.

    E quando você começou a acreditar?

  • Sempre acreditei muito em astrologia, queria buscar algo que me explicasse, explicasse minha emoções, minha intensidade. O espiritismo também conheci porque perdi duas pessoas muito importantes pra mim, meu avô e a Gabriela, que era uma amiga minha. Quando meu avô morreu, minha mãe me levava junto nos centros espíritas, além de “contratar” alguns médiuns para olhar a minha casa e da minha avó. Quando esses médiuns iam, eles tiravam os espíritos ruins tanto da casa e quanto os que estavam perseguindo a gente. Eles incorporavam os espíritos e conversavam com eles.

    Alguém já te julgou?

  • Muita gente! Até da minha própria família. Meu pai não apoia eu desenvolver mediunidade, mas minha mãe sempre me apoia em relação a isso. Acho que religião já é muito imposta desde cedo, acredito que por sermos novos não temos tanto poder de escolha. A umbanda mesmo, há sempre um preconceito enorme, muitos acham que “ macumba “ é sinônimo de algo ruim, o que não é.  Meus amigos sempre que conto algo dizem “ai não gosto disso”, como se fosse algo ruim, mas a gente está sempre convivendo com espíritos, isso é o que assusta muita gente, o medo! Não vou dizer que eu não tenho, porque eu tenho, acordo a noite com barulhos que não são “normais”, porque eu durmo sozinha.

    Houve algum momento que marcou muito pelo desrespeito?

  • Uma vez indo para o terreiro, pedi um uber, e ele era evangélico, eu estava toda de branco, com minha guia e ele entrou no assunto religião. Eu falei com ele que eu era da umbanda, no final da corrida ele queria me levar pra igreja evangélica. Me senti muito desrespeitada, ele queria me mudar. Hoje a religião com a qual mais me identifico é a umbanda.  

Para finalizar, ela complementa: “Eu acho que as pessoas precisam se conhecer e se libertar do que a sociedade prega. Nós nos culpamos muito quando não seguimos um padrão e o diferente sempre é visto como algo ruim. O conhecimento pode vir de vários modos e fica ao critério de cada um escolher o que vai fazer feliz”.  

Wicca e o paralelo das religiões

Bruxas, vassouras, gatos pretos, ervas, feitiços e tudo que há magicamente neste mundo misturados num caldeirão; numa noite de lua cheia; resultará em algo surpreendente: WICCAS. Poeticamente, a definição da religião wicca poderia ser colocada dessa forma por ser a mais antiga do mundo segundo seus seguidores, como tal, possui aspectos um tanto quanto diferenciados. 

Wicca é uma religião que acredita na existência do sobrenatural, de princípios físicos e espirituais femininos e masculinos atrelados à natureza, de celebrar os ciclos da vida com festividades sazonais, conhecidos como sabás - Equinócios e Solstícios que são a posição da Terra em relação ao Sol, ocorrendo oito vezes por ano. São chamados de wiccanos ou bruxos, possuindo rituais que envolvem magia e habilidades próprias com ervas e chás, além de seguirem um calendário particular - o Wicca.  

Em uma escola, alguns anos atrás, durante uma aula de Sociologia relacionada à Geografia, surgiram algumas dúvidas - O que é Wicca? O que é ser um Wicca? Essas e outras perguntas fizeram o jovem Guido Lins, hoje, com 21 anos, estudante de Geografia na UFMG, colocar-se diante do multiculturalismo, da diversidade étnica e das mais diversas religiões do mundo, desconstruindo mitos e um pouco do que cada uma carrega em sua essência, ritos e crenças. Seu primeiro contato com a religião partiu dessa aula e não parou mais.

 

 

O estudante e mochileiro conecta-se ainda mais com a religião pela natureza, por estudar Geografia seu aprofundamento em viagens de campo se torna especial na descoberta de lugares místicos e o que eles oferecem seja pela natureza ou por sua energia. Em relação ao preconceito, por ser uma forma de vida diferenciada, Guido, rebate que não sofre com nenhum tipo de intolerância religiosa, o que há, é curiosidade por parte das pessoas em conhecer e entender seu modo de vida.

 

 

Sobre seguir uma religião rigorosamente, o estudante ressalta que extrai tudo que há de bom em várias, acredita naquilo que quer, e no que lhe faz bem!

 

 

Para ele, a religião pode ser vista como um viés político e econômico carregado de interesses, diferente da crença, que se coloca como aquilo que você acredita e se conecta através da sua fé.

 

 

E por fim, TUDO É ENERGIA!

 

 

 

 

 

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