Mulheres ≠ Maternidade

Comportamento
Typography

Mulheres são de carne, osso e útero. É no último que a parte mais importante de suas vidas, merecedora de toda a atenção, é plantada e desenvolve-se. Mulheres, antes de serem pessoas, são mães, que amamentam, não raro evitando fazer isso em público, para evitar o horror, jogam talco, trocam fraldas e padecem de sono.

Mas há “bichos de sete cabeças”, mulheres que caminham pelas ruas gritando aos sete ventos quando um azarado pergunta: “E aí, quando sai o bebezinho?”.  A resposta vem em seguida, em tom firme, desejando internamente que a réplica não seja um questionamento: “Não quero ter filhos”.

A "cabeça" número 1 entrevistada nessa reportagem vagueia pelo mundo com diversas fórmulas químicas embaixo de seus braços, chega ao trabalho todos os dias às 8 da manhã e as despeja sobre o balcão que, após tantos anos de labuta, pode ser chamado de "seu". Enquanto analisa montes de remédios, parece se encaixar perfeitamente na sociedade.

Porém, ao falar sobre ter um “brotinho”, atrai olhares tortos de todos os lados. "Eu nunca fui muito fã de criança e também desde muito cedo queria ser uma mulher independente e trabalhadora, que me sustentasse sozinha, sem a ajuda de ninguém. Também, porque não queria ser empregadinha de nenhum marmanjo. Não, eu não sou o exemplo de uma senhora do lar."

Aos 43 anos, desmitificada de padrões aquém a sua existência, é mais uma mulher, de nome Daniela Pacheco, que se torna um monstro ao dizer não à maternidade. E ela não está sozinha. Ao seu lado está a segunda cabeça, com cachos de dar inveja. No auge de seus 20 anos, para buscar a exatidão, 23, Amanda Santos, formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), gerencia uma empresa de revisão de textos.

Ela não parece cuspir fogo com frequência, apenas quando a sua mãe, indignada ao constatar que não terá netos, pelo menos não de sua filha, começa a discussão. "Amanda, você está sendo muito egoísta, você não pode fazer isso com o seu marido. Você tem que ter filhos senão a sua família vai acabar, nossa família não vai ter frutos!"

Os homens, não só no caso de Amanda, são usados ou são os próprios a  utilizarem como argumento quando a questão é procriar. Lendo alguns comentários do artigo “Ele sonha em ser pai, ela não quer saber de filhos: e agora?”, publicado pelo Portal IG, me deparei com a seguinte fala de uma leitora: “Para os homens é mesmo fácil querer ter filhos. A carga maior sempre é da mulher, dificilmente há uma divisão igualitária. Quem vai às reuniões escolares? Quem falta no trabalho para levar ao médico?”

De acordo com o estudo realizado em 2011, "Revisiting the Gender Gap in Time-Use Patterns: Multitasking and Well-Being among Mothers and Fathers in Dual-Earner Families", pela socióloga israelense Shira Offer, com base em dados de pesquisa da universidade de seu país, Bar Ilan University, mulheres que exercem dupla jornada, além de trabalharem fora, também cuidam da casa e dos filhos, relacionam a família ao estresse e emoções negativas.  

Aos 39 anos de idade, criada para ser carola, Carla Baião escolheu outro caminho. Farmacêutica de uma grande distribuidora de medicamentos e produtos para a saúde em geral, ela, desde os seus 20 e poucos, decidiu não ter uma prole e encontrou no seu companheiro o mesmo desejo. No entanto, as pressões que ambos sofrem não se diferenciam muito das de Amanda. “Sou questionada toda semana por pelo menos uma pessoa, seja ela colega de trabalho, amigo, conhecido, ou alguém que acabou de ser apresentado a mim e que ao descobrir que eu sou casada já começa o interrogatório: “Você tem filhos?”, “Não? Está tentando?”, “Mas quanto tempo de casada você tem?”, “Dez anos?”, “Mas, nossa, você não vai ter?”.

Não é só a Carla e o marido que “não vão ter”. Segundo pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, um em cada cinco casais no Brasil não tem filhos. A quarta cabeça, Adriana Oliveira, e o seu cônjuge também fazem parte dessa matemática. Paulista de carteirinha, nem quando criança Adriana sonhara em ter um bebê. Até encontrar o seu esposo, a sua decisão prematura envolveu-a em incontáveis alvoroços, mas um, em particular, ela tem gosto de contar. “Tive um namorado que queria ter quatro filhos e eu sempre dizia o contrário. Um dia, ele disse que, já que eu não queria, ele ia procurar outra. Eu respondi ‘ok’ e terminamos”, conta risonha.

A mulher de 34 anos não tem aversão a crianças, como alguns podem pensar, é professora e ama a filha e a enteada de seu irmão mais velho, mas, como ela mesma diz, em tom brincalhão: “Só aguento ficar poucas horas e depois eu devolvo.”

“Rachel Vianna, 35 anos, advogada, mas há cinco meses trabalha como professora particular de crianças”. Esse trecho integra a pequena ficha que escrevi para organizar as anotações sobre ela. Nascida e criada no Rio de Janeiro, Rachel vem de uma família grande - é a caçula de cinco irmãos -, e desde muito cedo lida com perdas. Aos 7, o seu pai morreu, não muito tempo depois;  a irmã mais velha. “Quando ela adoeceu, eu me vi cuidando integralmente de três crianças: os filhos dela e minha outra sobrinha porque a nossa outra irmã à acompanhava nas consultas médicas. Depois que ela faleceu, minha mãe entrou em depressão e eu ainda tinha que cuidar da minha avó idosa. Mais tarde, minha avó ficou mais doente e eu larguei o emprego para tomar conta dela.”

De tanto se preocupar com os outros, Rachel hoje sente que precisa olhar um pouco mais para ela. “Pode parecer egoísta, mas eu sempre fico de lado. Se eu tiver um filho sei que abrirei mão de muitas coisas por ele. Não quero ser uma mãe que lá na frente culpará os filhos por não ter sido feliz.”

A felicidade e a maternidade são uma ideia vendida pela sociedade como se essas fossem irmãs siamesas inaptas para a separação. A estudante de Jornalismo de 21 anos, Clara Del Amore, viu a vontade de ter filhos que nutria na infância sumir diante da realidade do que é “ser mãe”: “A minha escolha tem a ver com a questão da desconstrução da romantização da maternidade. A ideia de que depois que a mulher torna-se mãe a realidade dela vira um conto de fadas muitas vezes não é verdade.”

Lembrei de minha mãe, Marisa Barbosa, 47 anos, ex-empresária, ex-estudante de moda. Com 18 anos teve a primeira filha e nos anos seguintes mais cinco. Até certa idade eu, filha do meio, não entendia porque quando ela estava no trabalho, queria estar em casa e, quando estava em casa, queria estar no trabalho. Cresci e percebi que ambos deixavam a minha mãe exausta, mas quando estava com a sua prole ela tinha que ser mãe: criar, cuidar e limpar sem reclamar.

Mães são felizes, mas também sofrem. Choram em segredo, abrem mão da vida profissional ou aceitam qualquer emprego para cuidar dos filhos, têm inveja dos pais que não carregam o peso de “ser mãe” e tantas coisas mais.

Da mesma idade que minha mãe tinha quando engravidou pela primeira vez, a estudante Luísa Batista acha lindo o processo maternal e ama crianças, mas diz: “Não tenho vontade, acho uma responsabilidade muito grande, que mudaria minha vida para sempre e eu jamais abriria mão de mim por outra pessoa, ainda mais ela sendo 100% dependente dos meus cuidados.”

1,2,3,4,5,6,7 mulheres, não monstros, em meio a tantas outras que dizem “não” à maternidade, por vários motivos.  

As mulheres

* Carla Baião e Luísa Batista optaram por não enviar fotos. 

Inscreva-se através do nosso serviço gratuito de subscrição de e-mail para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.