No vai e vem da política, a educação fica para trás

Política
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Pensadores importantes do mundo inteiro estufaram os pulmões e encheram a boca para falar sobre a importância da educação.“O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”, foi o que disse Immanuel Kant. “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, proferiu Nelson Mandela. “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”, falou Paulo Freire, certa vez.

A Alemanha ouviu atentamente a essas afirmações e tornou-se um dos países que mais investe em pesquisas no mundo. Os Estados Unidos pegou o mesmo trem e o Canadá embarcou no vagão que vinha logo atrás. O Brasil fez o caminho contrário e sentou-se no banquinho da estação ferroviária. E não só na era Bolsonaro, mas também na de seus dois antecessores.

Nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014, Dilma Rousseff colocava a educação como o carro chefe de seu governo, tanto que em seu segundo mandato o lema era “Brasil, pátria educadora”. Em 2011, 2012, 2015, houve o maior valor já contingenciado, e em 2016, quando sofreu o impeachment, Dilma congelou investimentos no ensino para fechar a conta no final dos anos. Quase 12 meses após ocupar a cadeira presidencial, o governo seguinte, de Michel Temer, também entrou na dança, catando a tesoura e cortando aquilo que pensadores importantes dizem ser de extremo valor. Em 2018, o ex-presidente repetiu a ação, sem divulgar as pastas que passaram pela baixa. Agora, Jair Bolsonaro acompanha a tendência.

 

O outro lado da moeda

No livro “Intermitências da Morte”, o escritor português José Saramago escreveu: “Assim é a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra”. Os dois últimos antecessores de Bolsonaro fizeram o contrário: primeiro, tiraram com uma mão. Depois, deram com a outra. Dilma agiu desta forma desde o começo de sua administração, em 2011, até sair da presidência pelo processo de impeachment.

Exemplo disso é 2015, ano em que foi realizado o maior congelamento na pasta educacional. Segundo dados do portal de acompanhamento orçamentário do Senado Federal, Siga Brasil, nos mesmos doze meses a presidenta desembolsou mais de R$100 bilhões na conta da educação. Em 2017, Temer fez o mesmo. Anunciou que R$45,9 bilhões seriam cortados do orçamento federal, sendo R$4,2 bilhões do MEC, e no final do ano descontingenciou R$14,4 bilhões.

 

 

Será que o mesmo irá acontecer em um governo com um Ministro da Educação que taxa como “balbúrdia” as atividades de universidades federais proeminentes em rankings de ensino internacionais? Com figuras que veem em Olavo de Carvalho um intelectual? E com outras, que não tardam em dizer que no Brasil gasta-se muito em conhecimento? É o que acredita o sociólogo e professor da Puc Minas, Luiz Flávio Sapori. “Se o congelamento de verba for temporário, que é o que se entende por contingenciamento, daqui a algum tempo, os recursos poderão voltar”, indaga Sapori. E complementa: “Esta prática é muito comum na administração, seja municipal, estadual ou federal e é feita quando a receita está curta”.

Por outro lado, Sapori ressalta que a situação é preocupante. “O corte na educação é sempre ruim. A medida que o Governo Federal corta recursos no ensino universitário, ele afeta diretamente, não só a graduação, mas a pós-graduação e a pesquisa, que é o que mais preocupa porque você compromete muitos estudos que têm grande impacto na vida em sociedade” declara o sociólogo.

Sapori ainda enfatiza que “ele [Jair Bolsonaro] vinculou a esse corte, ou o que se chama de ‘contingenciamento de recursos’, a uma narrativa de crítica às universidades públicas brasileiras, a um pensamento ideológico. Então fica, de alguma maneira, implícito que há uma vinculação entre os dois fenômenos [cortes e ideologias]. O governo cortou [as verbas no ensino] como retaliação supostamente ao predomínio de lideranças, de narrativas e de ideologias de esquerda nas universidades federais”.

As consequências desse contingenciamento já são sentidas nos programas universitários de graduação, pós-graduação e doutorado. É esse o assunto do podcast a seguir.


 

 

As manifestações

Temendo o presente e ainda mais o futuro, brasileiros contrários aos cortes da Gestão Bolsonaro saíram de casa para protestar. No último dia 30 de maio, eles ocuparam as ruas do país. Em Belo Horizonte, a manifestação aconteceu no centro da cidade, com concentração na praça Afonso Arinos, em frente à Faculdade de Direito da UFMG. Depois, seguiu em direção à Praça Sete para desembocar na Praça da Estação.

 

 

Do outro lado da ponte, apoiadores de Jair Bolsonaro realizaram protestos no dia 26 de maio. As afirmações de confiança no presidente tomaram ao menos 156 cidades do Brasil, segundo a contabilidade do portal G1 (veja comparativo das manifestações contra e a favor às medidas do Governo Bolsonaro). Em defesa do presidente, os apoiadores associaram os protestos contra os cortes no MEC à manifestações a favor do ex-presidente Lula, preso em Curitiba após ter sido condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Apesar da mobilização, segundo balanço realizado pelo Exame, o número de manifestações pró-Bolsonaro foi menor em relação ao número de protestos pela educação.

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