Educação: substantivo coletivo

Política
Typography

O sistema educacional vem passando por transformações que buscam incluir cada vez mais e todos só têm a ganhar com isso.

Educar não é apenas o ato de ensinar crianças a ler ou fazer contas de adição e subtração. O processo da educação forma seres humanos que, mais cedo ou mais tarde, entrarão na sociedade e reproduzirão aquilo que internalizaram na convivência dentro das escolas. A intolerância e o desrespeito ao "diferente", principalmente em relação às deficiências físicas ou mentais e à diversidade sexual, podem ser facilmente entendidas sob a ótica de um distanciamento que se inicia desde a primeira infância.

A inclusão, mais do que apenas fornecer possibilidades antes inimagináveis às pessoas com deficiência, trazem uma evolução pessoal a quem está à volta delas. De acordo com o psiquiatra da infância e adolescência José Belizário Filho, o trabalho de incluir é árduo e pouco visível, mas traz, cada dia mais, um resultado eficaz. "Ao retirar pessoas com deficiência da vida social por não encontrar modelos para encaixá-los, retiramos parte da possibilidade de vida dessas pessoas e, consequentemente, de nos prepararmos para sermos mais humanos", conta o médico, que também é consultor de inclusão em educação e saúde.

De acordo com um relatório lançado pela Organização Mundial da Saúde em julho de 2011, mais de um bilhão de pessoas com deficiência enfrentam questões como a discriminação e o difícil acesso aos sistemas de saúde, reabilitação, trabalho, transporte e moradia. A educação inclusiva permite que os sistemas comecem a ser modificados na base, o que pode facilitar a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho e, assim, fazer com que elas tenham acesso aos outros meios de vida.

O ambiente estudantil, seja público ou privado, promove a interação das crianças com seus professores, funcionários da escola e, principalmente, com seus colegas. Por isso, torna-se fundamental um ambiente diverso, não apenas pelo que pode ser oferecido às crianças consideradas "diferentes", mas também aos seus colegas, que muito têm a aprender a partir desse convívio.

Criados em 2015, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU buscam a transformação do mundo através de atitudes em nível governamental, institucional e pessoal. O ODS 4 prevê, a partir de sete itens, a promoção da educação inclusiva e equitativa para todos até o ano de 2030. Embora possa parecer distante, muito já tem sido feito para que seja possível, cada dia mais, incluir pessoas diferentes e fazer com que o ambiente escolar seja cada vez mais inclusivo em todos os âmbitos.

A educação inclusiva

Por muitos anos, crianças com qualquer tipo de deficiência eram renegadas e obrigadas a frequentar exclusivamente escolas especiais, onde recebiam, além da escolaridade, atendimentos especializados voltados para sua reabilitação. Durante um curto período, que antecedeu o processo verdadeiro de inclusão, foram criadas salas de aula especiais que abrigavam essas crianças dentro das escolas regulares.

Este foi um primeiro passo para a inclusão, mas, na prática, quem fazia parte dessas classes especiais acabava sendo ainda mais discriminado dentro do ambiente escolar. "As outras crianças, consideradas normais, não se sentiam colegas daqueles que eram diferentes. Com isso, os 'especiais' acabavam se sentindo ainda mais excluídos", conta a psicóloga Maria Nogueira, que há mais de 30 anos trabalha com crianças, adultos e idosos com deficiência intelectual.

Aos poucos, e com bastante dificuldade, as escolas regulares foram se adaptando, até que fosse possível ver crianças cadeirantes, autistas ou com síndrome de down em classes com alunos sem deficiência alguma. "Mais do que simplesmente incluir, foi preciso adaptar todo o sistema a fim de acolher essas crianças, oferecendo todo o apoio e suporte que elas pudessem precisar", ressalta Maria. Segundo ela, nesse ambiente as crianças são estimuladas e têm seu progresso avaliado com base na superação de suas dificuldades em seu próprio ritmo. "Quanto mais cedo elas começam a frequentar a escola comum, melhor é sua adaptação. Enquanto isso, as outras crianças têm mais facilidade para conviver com o diferente e entender que ele também faz parte de sua realidade".

A estudante de publicidade Paula França, de 21 anos, nasceu com paralisia cerebral e, desde o início de sua vida escolar, aos 3 anos de idade, frequentou colégios regulares. Desde cedo, ela cresceu junto com seus colegas de classe, e sempre teve seu pertencimento reconhecido por ela e por seus amigos. "Sempre participei de todas as atividades. Mesmo que algumas delas precisassem de adaptações, nunca quis ter privilégios por causa da minha deficiência. Meus colegas sempre respeitaram meu ritmo e nunca permitiram que eu ficasse excluída de nada, nem mesmo das apresentações de dança, que eu participava com minha cadeira de rodas", conta.

A partir dos 6 anos, Paula contou com a ajuda de acompanhantes terapêuticas que supriam suas dificuldades motoras. Em 2014, quando formou no terceiro ano do ensino médio, a estudante reunia uma equipe que fez parte de sua trajetória e tornou possível a sua formação. Na faculdade, com a ajuda do Centro de Referência em Atenção e Inclusão do Aluno (Cerai), Paula consegue realizar suas atividades diárias e participar até mesmo das aulas de fotografia e direção de arte.

 

Mesmo que vagarosamente, a educação inclusiva ganha espaço nas escolas / Foto: Lucinha Cavalieri

Educação para todxs

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 pressupõe, também, que haja a educação equitativa para as pessoas independentemente do gênero. Atualmente, com as discussões que estão em voga a respeito da diversidade sexual, torna-se ainda mais importante que o debate seja trazido para o ambiente escolar dentro e fora da sala de aula.

Quando o assunto é a inclusão de travestis e transsexuais, a situação é alarmante: a expectativa de vida dessas pessoas no Brasil é apenas de 35 anos, contra 75 do restante da população. Sem incentivo por parte das empresas, muitos travestis e transsexuais acabam desempregados. De acordo com uma estimativa feita pela Associação Nacional de Travestis e Transsexuais, cerca de 90% das pessoas trans acabam tendo, como única forma de sobrevivência, a prostituição de rua.

Para aumentar o ingresso dessas pessoas nas universidades e no mercado de trabalho, a professora de literatura Duda Salabert criou um projeto pedagógico que oferece cursos gratuitos para travestis e transsexuais de Belo Horizonte. "Os cursos são de pré-vestibular, educação de jovens e adultos, idiomas e também atividades no campo artístico, como teatro, música e dança", conta a professora. O projeto, chamado Transvest, também disponibiliza atendimento psicológico e psiquiátrico para os travestis e transsexuais.

A proposta do Transvest é uma pedagogia diferente daquela praticada nas escolas tradicionais, que, de acordo com Duda, é bastante excludente, violenta e militarizada. "Aqui, o afeto é o aspecto central da pedagogia. Fazemos uma discussão crítica que auxilie as pessoas a terem orgulho da própria identidade e conquistem o empoderamento", relata. A criadora do projeto também conta que a iniciativa surgiu para combater os números de pessoas travestis e transsexuais que não completaram o ensino médio, que chega a 91% em Belo Horizonte. "Isso acontece porque a escola tradicional é um espaço de ódio, violência e solidificação de preconceitos", afirma Duda. Para ela, a Transvest é uma alternativa aberta à diversidade, e não excludente como é a educação conservadora.  O projeto, que existe desde 2015, atende cerca de 100 pessoas por ano e já recebeu dois prêmios de Melhor Projeto Social de Belo Horizonte pelo Beagá Cool.

Quem Cabe No Seu Todos?

No livro Quem Cabe No Seu Todos?, a jornalista Claudia Werneck propõe uma reflexão a respeito da inclusão seletiva existente na sociedade que, muitas vezes, tende a incluir determinados grupos em detrimento de outros. "Reivindicar para cada escola no Brasil o direito de ser um bem público é fundamental, porque sem bens públicos uma sociedade não consegue se transformar", escreve a jornalista.

 

 

Inscreva-se através do nosso serviço gratuito de subscrição de e-mail para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.