Comunidade síria cresce em BH

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Padre sírio ajuda conterrâneos a se reestruturarem na capital mineira

Com a esperança de refazerem suas vidas e viverem longe do caos da guerra que os atormenta, muitos sírios buscaram refúgio em outros países, inclusive no Brasil. Em Belo Horizonte, o Padre George Rateb Massis, que também é sírio, acolhe seus conterrâneos e os ajuda na adaptação ao novo país. Com a colaboração da Arquidiocese de Belo Horizonte, ele mantém uma casa matriz que criou para receber os imigrantes. Padre George veio para o Brasil há 15 anos e é pároco da Igreja Sagrado Coração de Jesus dos Siríacos Católicos, localizada no bairro Funcionários.

Ele mantém contato direto com outro padre da Síria que media sua comunicação com os cristãos sírios que desejam imigrar para cá. Há quatro anos ajuda os irmãos nesse deslocamento. Ao chegarem aqui, eles se instalam no imóvel alugado pelo padre, regularizam sua documentação, têm aulas de português e recebem apoio na busca por trabalho, para, aos poucos, reconstruírem suas vidas.

Abboud Dabbas é uma das 137 pessoas que chegaram a BH com a ajuda do padre sírio. Natural da cidade de Homs, mesma cidade do amigo George, o jovem de 27 anos veio com o irmão Ahed, de 24. Antes de virem para o Brasil, há quatro anos, Abboud cursava faculdade de economia e Ahed de informática. Ele conta que foi muito bem recebido pelos mineiros e que, durante a adaptação, sua maior dificuldade foi o idioma: “Depois de sete meses a gente começou a falar frases”. Mesmo com as aulas de português, muitas vezes usava o inglês para se comunicar e sempre pedia ajuda aos colegas de trabalho para aumentar seu vocabulário. Quando não sabia o nome de alguma coisa, perguntava a alguém e pedia que a pessoa escrevesse a palavra para ele.

Em Homs, os irmãos trabalhavam no pequeno negócio do pai. Em BH, Abboud trabalhou em uma lanchonete e Ahed em uma padaria. Depois resolveram abrir o próprio negócio, a lanchonete Arábica. Hoje eles têm duas lojas, uma na avenida Brasil, no bairro Santa Efigênia, e outra na avenida Carandaí, no bairro Funcionários.

 

Cardápio misto

Nas prateleiras produtos árabes, como temperos, pães, bebidas e alguns objetos que remetem à cultura da terra natal, como um terço que representa a bandeira da Síria. “Nós temos muitas artes na cidade de Damasco”, conta o comerciante sobre a cidade vizinha. Da calçada já se escuta o som do repertório árabe que toca no interior da loja, enquanto os irmãos e os funcionários trabalham. Além de salgados e lanches rápidos, também servem almoço. Os pratos feitos mesclam as comidas brasileira e árabe: arroz, feijão, kafta, pastas árabes e saladas. E eles pretendem incrementar ainda mais o cardápio.

Os pais de Abboud e Ahed continuam vivendo na Síria, longe dos conflitos. Os irmãos dizem que querem voltar para lá, mas que, no momento, isso não é possível, inclusive por causa do trabalho. “A gente tem muita vontade de voltar lá, mas por enquanto está difícil. Voltar lá para ficar a gente deseja, mas tem que esperar pelo menos a guerra acabar... Agora lá não tem emprego, como você vai viver?”

A junção das culinárias brasileira e árabe faz sucesso entre os clientesA junção das culinárias brasileira e árabe faz sucesso entre os clientes

  

Potência cultural

Padre George reclama da pouca assistência dada aos imigrantes: “Infelizmente o Brasil não faz nenhuma força tarefa”. Ele diz que não é fácil acolher um refugiado aqui, porque não tem abrigo e assistência maior por parte do governo, tudo é muito burocrático, demorado e os refugiados têm que “se virar”. “Eu acho que nesse ponto o Brasil está errando muito porque está perdendo uma oportunidade, uma potência, que não é pouca, desses refugiados. Porque o refugiado sírio é diferente, ele tem dinheiro, ele tem cultura, tem diploma... ele tem tudo que pode entrar no mercado. Se ele sentir satisfação, vai produzir”.

Abboud é um exemplo: estabilizou-se, tem sua microempresa, empregou brasileiros e hoje está cursando Gestão Financeira. “Um refugiado, na crise, no meio das placas de “vende-se e aluga-se”, está pagando aluguel, está dando emprego para seis pessoas e está fazendo sucesso no meio da sociedade. Então se o Brasil sai desse partido burocrático, ajudando um pouquinho como deve ajudar, veja bem onde vamos chegar. E esse refugiado, além de ter um diploma de economia, hoje está estudando numa faculdade particular. São coisas importantes que nós realmente precisamos dar atenção à diferença dos refugiados”.

O padre lembra ainda que, além dos sírios, têm chegado também haitianos e venezuelanos, e que a demanda é muito grande para o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). Criado com a lei de proteção aos refugiados (Nº 9.474, de 22 de julho de 1997) que, segundo o portal do Ministério das Relações Exteriores, é reconhecida com a mais avançada, o Conare é um órgão de deliberação coletiva, no âmbito do Ministério da Justiça, responsável pela análise e declaração do reconhecimento, em primeira instância, da condição de refugiado, bem como por orientar e coordenar as ações necessárias à eficácia da proteção, assistência e apoio jurídico aos refugiados.

Em abril de 2018, o órgão publicou a terceira edição do relatório Refúgio em números, que contabiliza informações sobre refugiados em âmbito nacional e internacional. Segundo o documento, 2017 foi ano que teve o maior número de pedidos de refúgio, um total de 33.866 solicitações, a maior parte feita por venezuelanos. E o maior número de refugiados reconhecidos pelo Conare é referente aos sírios.  

Com a iniciativa de padre George, a comunidade síria em Belo Horizonte tem crescido. No início, a maioria dos imigrantes eram rapazes jovens, agora já estão chegando famílias inteiras. Alguns deles, depois de saírem do acolhimento do pároco, não o procuraram mais e acabam perdendo o contato. “Nós também, com tanta demanda, não podemos acompanhar, como antes, todo mundo”, comenta o sacerdote.

“Cada imigrante, cada refugiado, ele é um embaixador do país, da cultura. Por isso eu vejo a importância do povo brasileiro conhecer a Síria. A Síria não é da guerra, não é do estado islâmico, não é daquelas imagens, assim... um morto na praia, um morto não sei aonde, armas químicas... Entre as mentiras e as propagandas falsas, a verdade está bem longe dos nossos amados brasileiros. Eu quero que eles conheçam a Síria bonita nos olhos desses refugiados, que têm muita esperança, têm muita luta para construir um futuro bom. ”

Padre George tem orgulho de fazer parte da história dessas pessoas que considera como filhos, por elas terem reestruturado suas vidas aqui. “Já nasceram seis netos meus. São brasileiros né, e ainda tem uma grávida, vai chegar o sétimo, graças a Deus!”, comemora.

Pe. George na Igreja Sagrado Coração de Jesus

Pe. George na Igreja Sagrado Coração de Jesus

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