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Qui, Maio

PSICÓLOGO ANALISA PROCEDIMENTOS REALIZADOS COM AS CRIANÇAS DURANTE O PROCESSO DE ADOÇÃO

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Filippe Gradisse da Silva Magalhães é psicólogo técnico da Unidade de Acolhimento Capela-Casa de Acolhida (Bairro: Tirol / Barreiro) e psicólogo clínico do Consultório particular - Ser Consciente/Contagem. Em entrevista, Gradisse analisou as precauções e atenções que devem ser tomadas com uma criança durante o momento de adoção, além de apontar também o cuidado que se deve ter com as que não são adotadas.

Como é feita a abordagem da pessoa com a criança no momento da adoção? Como explicar para criança o que está acontecendo?

Segundo a legislação (Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA), as crianças são colocadas em família substituta, sob o regime de guarda, tutela ou adoção (quando ocorre a destituição do poder familiar). Quando a equipe técnica da Unidade de Acolhimento, composta por psicólogo e assistente social, identifica que o melhor interesse para uma criança é a sua colocação em família substituta (núcleo familiar externo à família de origem ou extensa), iniciamos a preparação dela, trabalhando sua autonomia e dialogando sobre essa ideia de família. Isto, de acordo com a idade de compreensão da criança. Podemos trabalhar utilizando livros infantis, histórias, espaços de escuta, desenhos e atividades lúdicas. É importante destacar que a ideia real da adoção somente é trabalhada com a criança quando se esgotarem todas as tentativas de reinserção dela na sua família de origem ou extensa. Essa é a primeira etapa do processo.

Definido que o melhor interesse da criança seja a família substituta, depois que a Promotoria e o Juizado da Infância emitem parecer favorável à sugestão da adoção, o processo é enviado ao Setor de Estudos Familiares da Vara da Infância e Juventude, que inicia as buscas de um casal interessado no perfil da criança. Quando as técnicas do setor - dupla formada por psicóloga e assistente social - localizam um casal, elas agendam um atendimento para lhes informar as características da criança e sua história. Em seguida, a Unidade de Acolhimento é informada sobre a localização da família pretendente e dos procedimentos necessários para preparar a criança para a etapa de construção de vínculos. Via de regra, para que a criança não seja traumatizada com a criação de expectativas sobre a chegada da nova família, o casal chega na Unidade como voluntário ou visitante, que está ali para conhecer o abrigo e as crianças. Assim, através de atividades lúdicas proporcionadas na Unidade de Acolhimento, a criança selecionada tem a oportunidade de conhecer o casal e, se acontecer um laço de empatia entre eles, ações mais individualizadas vão acontecendo, como passeios e convivência nos finais de semana, com a finalidade de se trabalhar o desligamento gradativo e a inserção da criança na nova família.

Na etapa do desligamento, a equipe técnica da Vara da Infância e Juventude realiza atendimentos com a criança e a família para averiguar o grau de vinculação afetiva e, se tal laço é constatado e a criança aceita que o casal se responsabilize por ela, o Termo de Guarda é expedido pelo Juizado. Nos casos dos bebês e crianças pequenas de até 2 anos, esse processo é bem mais rápido, pois, o trabalho incide sobre o casal adotante, que é avaliado na sua capacidade de realizar os cuidados básicos da criança in loco - Unidade de Acolhimento - e na reação da criança ao receber tais cuidados. 

 

Qual a maior dificuldade para adotar uma criança hoje no Brasil?

A longa espera pela finalização dos processos de destituição do poder familiar e o tipo de perfil da criança que os casais pretendentes querem adotar. Em relação à destituição do poder familiar, em alguns estados como o Paraná e o Espírito Santo, o casal adotante pode esperar até 2 anos ou mais para que o Juizado da Infância e Juventude decida destituir o poder familiar e autorizar o encaminhamento da criança para adoção definitiva. Em outros estados como Minas Gerais, a criança pode ser colocada em família substituta, mesmo que o processo de destituição não tenha sido finalizado. Cito como motivos: a recusa dos genitores biológicos em permitir que seus filhos sejam entregues à adoção - mesmo tendo sido esgotadas todas as tentativas de fazê-los superar as condições que produziram a violação de direitos; a quantidade de processos a serem analisados pelos Juizados da Infância e Juventude, que contam com recursos humanos muito aquém do desejado e outros.

Em relação ao perfil das crianças, muitos casais desejam adotar crianças saudáveis, brancas, bebês recém-nascidos ou que se se encaixem num perfil idealizado. Porém, o perfil das crianças abrigadas é bem diferente daquele idealizado. Atualmente, existem 4.726 crianças em condições de serem adotadas no Brasil, segundo relatório de março de 2017 do Conselho Nacional de Adoção, destas, a maioria já estão adolescentes, pois cresceram em instituições e são negras. Quanto aos pretendentes, existem 36.923 em todo o território.

 

Qual a influência do ambiente familiar que a criança irá encontrar fora do abrigo?

Temos observado que as crianças têm resgatado a sua dignidade e integridade, desenvolvendo-se em todas as dimensões que constituem o ser humano: social, psicológica, espiritual e biológica.

 

Como é feito o trabalho com crianças que não são adotadas e ficam bastante tempo esperando por essa oportunidade?

De modo geral, tem se trabalhado o fortalecimento da autonomia da criança. Mas esse processo, muitas vezes, gera adoecimento psíquico, pois, por mais que a criança entenda que o lugar dela não é em uma Unidade de Acolhimento, ela sofre pela espera de uma família nova, pelo retorno de seus pais biológicos - que, muitas vezes, as abandonam nos abrigos - ou de entes da família extensa interessados em cuidar delas. Nesse sentido, a equipe técnica das Unidades de Acolhimento tem investido em ações com as educadoras que cuidam das crianças para que o afeto sempre seja uma constante na vida das mesmas. Projetos como o apadrinhamento e a família acolhedora também são implementados no sentido da criança ter a oportunidade de sentir-se pertencente a um núcleo familiar.

 

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